Quem usa redes sociais com frequência, especialmente aquelas em que fotos e vídeos fazem parte do conteúdo diário, como Instagram e TikTok, já deve ter notado como muitos pequenos empreendedores também se tornaram produtores de conteúdo. Funcionando como “influencers das próprias marcas”, eles aparecem em situações do dia a dia, mostram a rotina na empresa, tiram dúvidas de clientes, apresentam os produtos e viram o rosto do negócio.
“A BlackSheep sou eu também. Claro que os produtos são importantes, mas eles não contam a história completa”, diz Letícia de Caires, designer e microempreendedora por trás de uma marca de produtos personalizados. “Quando alguém acompanha meu perfil, vê o resultado final, mas também vê a pessoa que está criando a arte, imprimindo, embalando pedidos, resolvendo problemas e comemorando conquistas.”
E ela não é a única. Herida Demio, proprietária de um brechó desde 2020, tem nas lives e na interação via Instagram um divisor de águas na trajetória como empreendedora. “As lives foram fundamentais para o crescimento do Desapegue com Herida. Elas permitiram ampliar o alcance da marca, fidelizar clientes, aumentar as vendas e criar uma comunidade muito forte em torno do negócio”, conta a paraense radicada em Curitiba há seis anos.
“As pessoas podem ver os produtos em tempo real, tirar dúvidas e comprar sem sair de casa. Para mim, as redes sociais são muito mais do que uma vitrine: elas são o principal canal de vendas do meu negócio”, pontua.
O consultor do Sebrae/PR Allan Ferreira dos Santos explica a razão desse movimento dos pequenos empreendedores. Para ele, as redes sociais deram a eles algo que antes era privilégio das grandes empresas: acesso direto à atenção do cliente.
“Existe também uma mudança de comportamento. As pessoas querem saber quem está por trás da marca. Elas compram produtos, mas também confiança”, diz Santos. “Quem está à frente do negócio muitas vezes se torna o rosto mais forte da empresa porque ninguém consegue contar aquela história melhor do que ele”.
Autenticidade cria relação de cumplicidade com clientes
Com uma avalanche de perfis fazendo as chamadas #publis, como conseguir se destacar e captar a atenção de potenciais clientes nas redes sociais? A autenticidade parece ser um ponto em comum para converter seguidores em vendas. “As pessoas se conectam com histórias, experiências, opiniões e vivências mais facilmente do que com uma comunicação institucional”, reforça Allan.
Para o consultor do Sebrae/PR, elementos como nome, identidade visual, cores e símbolos ajudam a construir o reconhecimento da marca ao longo do tempo. Mas, nas redes sociais, existe um fator adicional: a proximidade.
Ainda segundo o especialista, ao compartilhar conhecimento, bastidores ou aprendizado do próprio negócio, é possível criar uma conexão com os clientes que, dificilmente, seria construída somente pela comunicação tradicional da marca. “E, no caso de muitos pequenos negócios, a pessoa não está separada da marca. Ela faz parte dela. A história de quem empreende, seus valores, produtos, serviços e sua forma de trabalhar acabam se tornando elementos importantes da própria identidade do empreendimento”.
Letícia e Herida concordam que a naturalidade e a forma autêntica como lidam com as redes sociais das respectivas marcas são um ativo importante para quem acompanha o trabalho delas.
“Hoje existem milhares de perfis disputando atenção. O que diferencia uma marca não é apenas o produto, mas a personalidade, os valores e a forma como ela se comunica. Eu sempre acreditei que a BlackSheep deveria ter voz própria”, diz a designer.
Ela ainda pontua que isso nem sempre pode significar agradar a todos, mas pode ajudar a construir uma comunidade de pessoas que se identificam de forma genuína com o que a marca representa.
Para Herida, vender é criar conexão. Ela conta que, quando as pessoas entram em uma live para comprar, querem ser ouvidas, acolhidas e respeitadas e, muitas vezes, acabam ficando pela conversa, pela troca e pela experiência. “Hoje eu sei que as pessoas gostam de comprar de pessoas”, diz.
Dicas para conciliar a criação de conteúdo com outras atribuições da rotina empreendedora
Entender isso como uma parte do negócio é uma das dicas que as empreendedoras dão para quem quer se aventurar no universo dos algoritmos. “Quando você entende que o conteúdo é uma ferramenta de relacionamento e não apenas de venda, fica mais natural”, enfatiza Herida.
A empreendedora conta que a produção de conteúdo faz parte da rotina diária: com lives praticamente todos os dias, produção de stories e conteúdos como reels, posts e carrosséis. “Se eu somar tudo, uma parte significativa da minha semana é dedicada à criação de conteúdo e relacionamento com a audiência”, explica.
Já Letícia revela que enfrentou um burnout por conta da cobrança excessiva para estar presente nas redes sociais. Ela conta que, durante muito tempo, acreditava que precisava produzir conteúdo o tempo todo.
“Seguia à risca o que muitos especialistas e gurus das redes sociais pregavam na época: postar vários stories por dia, publicar conteúdo constantemente e estar sempre presente. Eu tentava dar conta de tudo ao mesmo tempo: administrar a empresa, atender clientes, produzir pedidos e ainda manter uma presença intensa nas redes”, relata.
Depois do esgotamento e de repensar a situação, ela percebeu que não adiantava construir uma marca às custas da própria saúde. Para a designer, empreender exige muita energia mental e criatividade, mas é impossível estar inspirada todos os dias. Agora, quando está cansada, ela diz que foca na organização, produção e atendimento.
E faz uma revelação: muitos dos conteúdos que mais geraram conexão surgiram justamente quando ela mostrou a realidade do empreendedorismo, com as dificuldades, desafios e imperfeições. “As pessoas se identificam muito mais com a verdade do que com uma rotina perfeita que não existe”, reflete.
Para o especialista do Sebrae/PR, é preciso entender que a presença digital vai muito além de apenas publicar conteúdo: é preciso participar das conversas que estão acontecendo.
“As redes sociais são ambientes de interação. Responder comentários, conversar com clientes, tirar dúvidas e participar da comunidade muitas vezes gera mais resultado do que apenas publicar conteúdos sem criar conexões”, avalia. Ele alerta que não é necessário estar em todas as plataformas: para Allan, é melhor ser consistente em uma ou duas redes sociais do que ter perfis ausentes em cinco.
Allan ainda pondera que existe uma ideia equivocada de que apenas especialistas em marketing conseguem gerar resultados. “A realidade mostra o contrário. Há inúmeros exemplos de pessoas que construíram negócios fortes ao compartilhar conhecimento, mostrar seu trabalho e manter presença constante ao longo do tempo. Nas redes sociais, a perfeição raramente vence. A consistência quase sempre vence”, diz.
