O governo federal criou em maio o programa Move Brasil, com autorização para destinar R$ 30 bilhões em financiamentos para motoristas de aplicativo e taxistas comprarem veículos novos. Pouco mais de três meses após a publicação da medida provisória, a iniciativa enfrenta dificuldades para avançar. Até agora, foram liberados apenas R$ 4 bilhões, o equivalente a 13,3% do valor previsto. As informações são da Gazeta do Povo.

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Gerenciado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o programa prevê que as linhas de financiamento sejam fornecidas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ou por instituições financeiras habilitadas. O financiamento pode cobrir até 100% do valor do automóvel, com carência de seis meses e juros limitados a 12,6% ao ano para homens e 11,5% para mulheres. Segundo o governo, o programa esbarra em reprovações na análise de crédito, gargalos operacionais e baixo interesse por parte de bancos privados.

Lançado em ano eleitoral, o Move Brasil tinha como objetivo declarado apoiar os trabalhadores de mobilidade urbana e recuperar o apoio dos motoristas de aplicativo. A categoria é um público com o qual o governo não conseguiu avançar em uma das principais promessas de campanha de 2022: a regulamentação do trabalho nos aplicativos de transporte.

Programa começou a operar sem fundo garantidor

A política de crédito subsidiado para a compra de veículos teve uma série de obstáculos. O programa começou a operar sem o Fundo Garantidor para Investimentos (FGI), mecanismo que reduz o risco dos bancos nas operações. O fundo só entrou em funcionamento em 2 de julho, duas semanas após o início do Move Brasil, em 19 de junho. Segundo o próprio governo, o atraso gerou insegurança entre as instituições financeiras.

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Da forma como foi formatado, o programa tende a favorecer fabricantes chinesas. Apesar de não restringir a participação a carros importados, o regulamento também não exige produção nacional. Com isso, podem ser financiados tanto veículos importados prontos quanto modelos montados no Brasil a partir de kits trazidos do exterior.

Embora o programa tenha sido associado à possibilidade de atender motoristas com dificuldades financeiras, a participação no Move Brasil não elimina a análise de crédito feita pelos bancos. Samuel Barros, professor de Finanças do Ibmec, afirma que o programa não funcionou da maneira esperada por uma sequência de motivos. “Podemos começar pela falsa crença gerada de que haveria crédito para quem tinha nome sujo, o que não foi prometido de maneira explícita em nenhum momento, mas se deu a entender em muitas campanhas do programa”, diz.

Restrição no CPF deixa maioria dos motoristas de fora

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Eduardo Lima de Souza, presidente da Associação de Motoristas de Aplicativo de São Paulo (Amasp), que representa aproximadamente 44 mil trabalhadores, avalia que a medida não fará efeito. “Enquanto os bancos mantiveram o critério de barrar quem não tem o nome limpo, o limite pode aumentar para R$ 1 milhão, e ainda assim a classe não será beneficiada. O programa ajuda apenas aqueles motoristas que não precisavam dele”, afirma. Segundo ele, 92% da categoria tem restrições no CPF.

Souza diz que o governo não mostra disposição real em dialogar com os profissionais. “Quem dialoga com ele são sindicalistas, que não são motoristas e não são vistos como representantes da classe dos motoristas”, afirma. O presidente da Amasp disse que enviou sugestões ao ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República e solicitou um encontro, mas nunca foi atendido.

O Google Trends mostra que o interesse pelo termo “Move Brasil” disparou na semana de 13 a 20 de junho, no início da operação do programa. Desde o fim de junho, o interesse se manteve em patamar bem mais baixo, com queda de cerca de 70% a 80% em relação ao pico registrado. Procurados, o MDIC e a Secretaria-Geral da Presidência não se manifestaram.