O ano de 2020 começa com dívidas no orçamento de nove em cada dez famílias do Paraná. Os dados são da pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Paraná (Fecomércio-PR). A atual taxa de endividamento cresceu no último ano, saltando de 88,92% para os atuais 90,42%. Nacionalmente, esse índice é significativamente inferior, na casa dos 65,6%.

Tal discrepância é explicada por dois fatores, segundo Rodrigo Rosalem, diretor de planejamento e gestão da Fecomércio-PR. “ A primeira coisa é a regionalização do salário mínimo, que aqui é cerca de 30% acima do salário mínimo nacional. Isso facilita o acesso a crédito. Com a renda média mais alta, você tem mais oferta e usa mais. A segunda é cultural, a cultura do uso do cartão de crédito. A gente olha a parcela e não o montante da dívida”, ressaltou. O salário mínimo regional no Paraná é o maior do país, fixado em R$ 1.383,80 pelo Conselho Estadual do Trabalho.

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Para ele, as melhores condições econômicas, ações do governo para “injetar” dinheiro na economia e os juros mais baixos, definidos pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em 4,5% ao ano em dezembro de 2019, facilitam o acesso da população ao crédito e causam um aumento do consumo, o que reflete no endividamento. “O custo do crédito fica mais baixo e motiva as pessoas a buscarem, principalmente, o financiamento de bens duráveis. Construir patrimônio, esse tipo de endividamento é saudável e esse momento motiva isso. As ações como o saque do FGTS, das contas inativas por exemplo, ajudam também a quitar dívidas, a limpar o nome e possibilitam a volta ao credito e ao consumo”.

Paraná x Brasil

Percentualmente, os números paranaenses são maiores do que os brasileiros. Além do total de famílias endividadas, a inadimplência paranaense chega aos 11,87%, enquanto a média nacional é de 10,2%.

Porém, a comparação dos números mostra que o paranaense é mais consciente do que a maioria dos brasileiros ao assumir uma dívida. São 90% das famílias endividadas e 27,84% delas não conseguem pagar suas dívidas, ou uma a cada três, no Paraná. Em âmbito nacional, 65,6% dos lares possuem dívidas, e a inadimplência chega a 24,5%, o que representa cerca de duas a cada três. “Proporcionalmente, a gente consegue quitar mais que a média nacional. Dá pra entender como um endividamento mais consciente”, destacou.

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O diretor ressalta que o problema está quando o consumidor não consegue honrar o compromisso assumido. “O comprometimento de renda futura, se a família conseguir pagar, sem comprometer o orçamento, não é ruim. É importante ressaltar que isso é quando é feito com planejamento e consciência. O problema é quando começa a atrasar”, destacou.

Investimento e cartão de crédito

O maior acesso ao crédito também impulsiona o movimento de outros setores da economia, como o imobiliário, o de eletrodomésticos e o automotivo. Assim, o endividamento cria possibilidades para as famílias construírem seu patrimônio, não só consumir de forma imediata. “Juros mais baixos motivam as pessoas a buscarem principalmente financiamento de bens duráveis, automóveis, imóveis, produtos da linha branca. Construir patrimônio, esse tipo de endividamento é saudável”. São classificados como “linha branca” os eletrodomésticos com finalidade de atender necessidades básicas de uma residência, como geladeira, fogão, forno, entre outros.

Em relação ao uso do cartão de crédito ser o principal concentrador de dívidas da população, Rosalem afirma que a prática de agregar as contas é a principal motivação para esse hábito. “O cartão até pode ser usado pra comprar bens duráveis, mas uma prática comum aqui no Paraná é o uso do cartão de crédito para pagar contas do dia a dia. Ao invés de pagar as contas de forma separada, pagam com o cartão de crédito e depois quitam uma só fatura”, sentenciou.