Aos 15 anos, Leonardo Scheffer já pensa nas árvores que vai colher no futuro. Nas visitas às fazendas e às florestas da família, acompanha o pai, o avô e o bisavô e observa uma atividade que começou muito antes de seu nascimento. Ele quer trabalhar na empresa, aprender com as gerações anteriores e, mais adiante, contribuir com as próprias ideias.
“Quero dar continuidade ao trabalho da minha família e cuidar das florestas que as próximas gerações vão colher”, diz Leonardo.
A frase resume o tempo particular da silvicultura: quem investe no plantio nem sempre será a pessoa responsável pela colheita. Na família Scheffer, a história teve início em 1974, quando Ferdinando Scheffer Júnior e o irmão Frederico começaram a plantar pinus em uma área de 24 hectares em Ipiranga, nos Campos Gerais do Paraná.
Mais de cinco décadas depois, a atividade está na origem da Águia Florestal, empresa familiar que, além do cultivo, atua no processamento industrial da madeira. Hoje, o negócio reúne 9.860 hectares de florestas próprias de pinus e cerca de 460 trabalhadores. Ao longo dos anos, a operação passou do plantio à indústria, acompanhou a mecanização da colheita e incorporou novas tecnologias de produção e manejo.
Uma herança plantada há cinco décadas
Quando o pai e o tio iniciaram o primeiro plantio, Álvaro Luiz Scheffer tinha 13 anos. Além do pinus, a família começou a produção de mudas de araucária para replantar áreas de onde havia sido retirada madeira para lenha.
Em 1976, Ferdinando e Frederico compraram uma propriedade de 121 hectares em Itaiacoca, distrito de Ponta Grossa, destinada ao cultivo de pinus. Como o pai e o tio mantinham empregos em uma fábrica, parte da responsabilidade pela operação ficou com Álvaro, ainda adolescente.
Às quartas-feiras, ele saía da escola para ir à propriedade e voltava à noite. Às sextas, retornava à fazenda depois da aula e permanecia até sábado à tarde. A rotina incluía compras, contratação de trabalhadores, medição de serviços e pagamentos.
Aos 18 anos, Álvaro foi para Curitiba estudar Engenharia Florestal. A família contratou um gerente para acompanhar as atividades durante sua ausência, mas a formação ajudou a consolidar a relação do herdeiro com o setor.
No entanto, diante de um cenário econômico difícil, a família precisou interromper as atividades florestais em 1982, e Álvaro passou a trabalhar em uma empresa metalúrgica, primeiro na área comercial e depois como diretor comercial. O plantio só foi retomado em 1987.
Em 6 de fevereiro de 1993, a família lançou a operação da Águia Florestal Indústria de Madeira, avançando para uma nova etapa do negócio: transformar a matéria-prima cultivada nas propriedades em produtos industrializados.
Da madeira transportada por animais à colheita mecanizada
No princípio, os operadores precisaram aprender a derrubar as árvores com motosserras e a separar a madeira conforme o tamanho e a destinação. As toras mais grossas seguiam para serrarias; as mais finas e as ponteiras eram cortadas em segmentos de 1,2 metro, descascadas manualmente e deixadas para secar durante 90 dias.
A transformação se intensificou com a entrada na empresa de Álvaro Luiz Scheffer Júnior, filho de Álvaro. Engenheiro florestal como o pai, ele começou a trabalhar no negócio há cerca de duas décadas e trouxe propostas de modernização.
“Saímos de uma operação de colheita 100% manual e com tração animal para máquinas de última geração”, afirma Álvaro Júnior.
A mecanização permitiu reorganizar o trabalho e, segundo ele, reduzir custos operacionais e riscos de acidentes, além de elevar a produtividade. Hoje, máquinas especializadas podem realizar o corte e o processamento das árvores, enquanto equipamentos de transporte florestal retiram a madeira do interior do povoamento.
A modernização também chegou às mudas e à genética. Os recipientes simples utilizados no início deram lugar a tubetes de plástico com substratos adequados ao desenvolvimento das plantas. A empresa passou a trabalhar com clones e variedades diferentes, participar de iniciativas de pesquisa e desenvolver um pomar próprio de sementes.
Nem tudo, entretanto, pode ser automatizado. Em terrenos íngremes, o plantio continua manual, e algumas operações de controle da vegetação ainda dependem do trabalho humano. O relevo interfere na escolha dos equipamentos e no custo de produção.
Uma poupança que leva anos para ser resgatada
Diferentemente de boa parte das culturas agrícolas, o retorno do investimento florestal no pinus pode levar muitos anos para chegar. Segundo Breno Campos, diretor do Departamento de Florestas Plantadas (Deflop) da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Seab), o ciclo de produção pode variar de 12 a 20 anos, conforme o sistema de manejo e a finalidade da madeira.
Breno define o pinus como uma espécie de “poupança verde”. Em algumas propriedades, a floresta funciona como reserva patrimonial para financiar a compra de máquinas e terras, custear a educação dos filhos ou complementar a aposentadoria. O cultivo também pode diversificar a renda de produtores expostos às oscilações de preços e às condições climáticas das culturas anuais.
Para Álvaro Scheffer, a atividade exige recursos que ficam comprometidos por um período longo. A família mantém negócios em outros segmentos, entre eles sistemas de armazenagem, com ciclos financeiros diferentes dos florestais. “A atividade florestal é um lastro de liquidez, uma garantia de futuro e uma paixão”, afirma.
Álvaro Júnior ocupa a diretoria florestal e acompanha áreas plantadas no início de sua trajetória profissional, que já passaram por dois desbastes e se aproximam do corte final. “Nós sempre pensamos que o que plantamos será para outras gerações e queremos deixar o melhor produto, que é a floresta, para os que virão”, diz.
Para o engenheiro florestal, a possibilidade de preparar uma área para o próximo ciclo faz parte da lógica do negócio. Isso ocorre porque, quando uma floresta é colhida, abre-se espaço para um novo plantio, que pode incorporar avanços genéticos e técnicas mais recentes.
O papel que o pinus desempenha na economia paranaense
A história da empresa familiar está inserida em uma cadeia que tem peso na economia paranaense. Segundo dados preliminares do Departamento de Economia Rural (Deral), órgão da Seab, o setor de produtos florestais movimentou R$ 9,7 bilhões em 2025, equivalente a 4,5% do Valor Bruto da Produção (VBP) estadual. Desse total, R$ 3,8 bilhões corresponderam à madeira em tora de pinus destinada à serraria e laminação.
A importância econômica do setor aparece também na distribuição territorial. General Carneiro liderou o VBP florestal municipal, com R$ 790 milhões, seguido por Cruz Machado, com R$ 589 milhões; Telêmaco Borba, com R$ 572 milhões; Bituruna, com R$ 526 milhões; e Inácio Martins, com R$ 360 milhões. Juntos, os cinco municípios responderam por 29,3% do VBP florestal do estado.
Dados da Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal (APRE), referentes a 2025, indicam aproximadamente 1,16 milhão de hectares de florestas plantadas no Paraná, dos quais cerca de 713 mil hectares são de pinus.
O estado também ocupa posição de destaque nas exportações brasileiras de produtos de madeira. Segundo os dados apresentados por Breno Campos, o Paraná responde por 68% das exportações de compensado de pinus e por 62,5% das exportações de molduras de madeira.
A cadeia inclui grandes empresas, pequenos e médios produtores, propriedades familiares, produtores fomentados e arrendatários. O setor tem peso na geração de empregos. Dados do Programa de Disseminação das Estatísticas do Trabalho (PDET), do Ministério do Trabalho e Emprego, citados por Breno, indicam cerca de 109 mil trabalhadores no setor florestal paranaense em 2022.
Pinus amplia potencial econômico com novas aplicações industriais
A próxima etapa da Águia Florestal é uma nova serraria voltada à produção de madeira estrutural. O investimento acompanha a busca por aplicações de maior valor agregado, especialmente na construção civil.
Entre as possibilidades estão as chamadas madeiras engenheiradas, como a madeira laminada cruzada (CLT, na sigla em inglês) e a madeira laminada colada ou glulam. Álvaro Scheffer vê a ampliação desse uso como um objetivo pessoal.
Para o setor, o desafio será converter o potencial de produção em demanda estável. Isso depende da capacidade industrial, de mão de obra qualificada, de projetos arquitetônicos, de normas técnicas e de canais de comercialização.
Investimento de longo prazo expõe produtor a pragas e incêndios

Quando o retorno depende de árvores que crescem durante anos, pragas, incêndios e dificuldades logísticas podem comprometer parte do investimento. Entre os desafios apontados por Breno estão a vespa-da-madeira, que pode danificar ou matar árvores, e os prejuízos provocados por macacos-prego.
Incêndios florestais também preocupam, sobretudo em períodos de estiagem e condições meteorológicas favoráveis à propagação do fogo. O manejo exige monitoramento, medidas fitossanitárias e prevenção. A manutenção de estradas e aceiros pode facilitar o acesso às áreas e as operações de combate a incêndios.
A logística é outro fator relevante. Segundo Breno, toras deixadas no campo após a colheita podem sofrer manchas azuladas causadas por fungos e danos associados a insetos. A degradação tende a reduzir o valor comercial de parte da madeira. Estradas rurais em más condições também elevam as dificuldades de transporte.
Na dimensão ambiental, as florestas plantadas fornecem matéria-prima renovável e contribuem para diversificar a produção rural. Os benefícios dependem, no entanto, do planejamento e do manejo de cada área, incluindo a proteção de remanescentes nativos e dos recursos hídricos.
Plantar para quem ainda vai colher
A história dos Scheffer atravessou mudanças econômicas e tecnológicas. O primeiro plantio, de 24 hectares, deu origem a uma empresa com 9.860 hectares de florestas próprias de pinus.
Para Álvaro Júnior, a continuidade do negócio depende de preparar a empresa para quem virá depois. Ele conta que cada área tem lembranças ligadas à família e aos trabalhadores, mas também representa uma etapa de um ciclo produtivo que ainda não terminou.
Leonardo Scheffer já se imagina nesse futuro. Para o adolescente, as árvores que vê crescer hoje podem ser as que ele ajudará a colher amanhã. Para a família, o desafio é fazer com que esse futuro também mantenha de pé o negócio construído pelas gerações anteriores.
Aos 15 anos, Leonardo Scheffer já pensa nas árvores que vai colher no futuro. Nas visitas às fazendas da família, acompanha o pai, o avô e o bisavô e observa uma atividade que começou muito antes de seu nascimento. Ele quer trabalhar na empresa, aprender com as gerações anteriores e, mais adiante, contribuir com as próprias ideias.
“Quero dar continuidade ao trabalho da minha família e cuidar das florestas que as próximas gerações vão colher”, diz Leonardo.
A frase resume o tempo particular da silvicultura: quem investe no plantio nem sempre será a pessoa responsável pela colheita. Na família Scheffer, a história teve início em 1974, quando Ferdinando Scheffer Júnior e o irmão Frederico começaram a plantar pinus em uma área de 24 hectares em Ipiranga, nos Campos Gerais do Paraná.
Mais de cinco décadas depois, a atividade está na origem da Águia Florestal, empresa familiar que, além do cultivo, atua no processamento industrial da madeira. Hoje, o negócio reúne 9.860 hectares de florestas próprias de pinus e cerca de 460 trabalhadores. Ao longo dos anos, a operação passou do plantio à indústria, acompanhou a mecanização da colheita e incorporou novas tecnologias de produção e manejo.
