Saúde

Da visão embaçada à espera de anos: pacientes encaram saga por exames e óculos no Paraná

Fila por um óculos no Paraná ainda é grande. Foto: Deposit Photos

Enxergar o mundo de forma nítida tornou-se um desafio diário que exige paciência e resiliência para milhares de paranaenses dependentes da rede pública de saúde. Segundo dados oficiais da Secretaria de Estado da Saúde, no Paraná atualmente 18.158 pessoas estão na fila por consultas em oftalmologia e 4.255 aguardando por cirurgias eletivas na área

Por trás dos números das centrais de regulação do Sistema Único de Saúde (SUS), o tempo de espera para conseguir uma consulta com oftalmologista, a confecção de óculos de grau ou uma cirurgia corretiva transformam a rotina dos pacientes, que precisam encarar uma vida de limitações que afetam a autonomia, o trabalho e a própria segurança.

Para o vigilante Pedro Carlos Ferreira dos Santos, a busca por novos óculos de grau já dura anos. Após passar por uma consulta no Hospital de Olhos encaminhada pelo posto de saúde do seu bairro em Curitiba — onde faz o acompanhamento anual de rotina com o clínico geral —, ele tentou obter a armação e as lentes por meio da unidade básica.

“Acho que estou esperando de dois a três anos. Fui no postinho e perguntei se tinha como pedir por eles, deixei os graus que precisava e falaram que demora. Enquanto espero, eu uso o meu velho, só que a visão está ficando ruim, fosca”, relata Kulitch. Sem atualizações no aplicativo “Saúde Já”, onde constam apenas os atendimentos anteriores na unidade local, o vigilante precisa adaptar a rotina à perda progressiva da nitidez visual.

A espera prolongada também faz parte do cotidiano de quem precisa de intervenção cirúrgica. A aposentada Alzira Ramires, de 68 anos, aguarda há um ano e meio pela chamada para operar a catarata. Nas consultas de acompanhamento, a justificativa recebida é constante: a alta demanda de pacientes.

“Eu tenho catarata, não posso pagar médico. Sou aposentada, e o que vem no pagamento vai para os meus remédios e para as contas da casa”, relata Alzira.

Riscos médicos e perda de autonomia

O tempo entre os primeiros sintomas e o atendimento efetivo carrega implicações médicas severas. De acordo com o médico oftalmologista Juliano Palmiro Cunha, coordenador da Câmara Técnica de Oftalmologia do Conselho Regional de Medicina do Paraná, a demora nas filas do SUS vai além de um entrave burocrático e pode acarretar sequelas definitivas.

“Em muitos casos, ela leva à perda visual permanente, redução da independência funcional, aumento do risco de acidentes e piora significativa da qualidade de vida”, explica o médico.

No caso da catarata, condição enfrentada pela aposentada Alzira, embora a cirurgia costume restaurar a visão, a espera prolongada acarreta a redução da acuidade visual, o aumento do isolamento social e um risco elevado de acidentes domésticos.

“Aumentam as quedas, especialmente em idosos, crescendo o risco de fraturas de quadril e traumatismos. O paciente perde autonomia para dirigir, ler, trabalhar e realizar atividades diárias”, detalha Cunha, ressaltando que quadros mais avançados de catarata também tornam o procedimento cirúrgico mais complexo.

O cenário é ainda mais crítico para doenças como o glaucoma, cuja perda do campo visual é irreversível. Por se tratar de uma doença em grande parte assintomática até estágios mais severos, o atraso em exames ou cirurgias resulta na destruição progressiva das células do nervo óptico. “Um paciente que perde fibras do nervo óptico enquanto aguarda atendimento pode nunca recuperar essa função visual”, adverte o especialista.

Onde está o gargalo da saúde ocular?

A análise do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) indica que a origem das filas não é da falta de médicos especialistas ou na ausência de infraestrutura hospitalar no Estado. Segundo a entidade, o Paraná possui profissionais qualificados e instalações adequadas, mas enfrenta limitações na integração desses serviços à rede pública.

“O que falta é a possibilidade efetiva de esses médicos e serviços se credenciarem ao SUS, diante da insuficiência de oferta de processos de credenciamento e contratação”, aponta a Câmara Técnica do CRM-PR.

Para a entidade médica, a ampliação dos editais de credenciamento permitiria absorver a demanda represada utilizando a estrutura já instalada na rede privada e filantrópica.

Além disso, o Conselho defende o fortalecimento do rastreio na Atenção Primária e a adoção de critérios de prioridade clínica no sistema de regulação. “Fila em oftalmologia não é apenas uma questão de tempo de espera; é uma questão de risco à saúde visual. O objetivo não deve ser simplesmente diminuir o tamanho da fila, mas diminuir o tempo que um paciente com necessidade médica permanece esperando”, sintetiza o CRM-PR.

O que diz a SESA

Procurada pela Tribuna do Paraná, a Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (SESA) informou que, segundo dados da Central de Acesso à Regulação do Paraná (CARE), o Estado registra atualmente 18.158 pessoas na fila por consultas em oftalmologia e 4.255 aguardando por cirurgias eletivas na área. A maior demanda represada para procedimentos cirúrgicos é justamente para a correção de catarata.

A SESA ressalta que esses números correspondem apenas aos serviços prestados em unidades sob gestão direta do Estado ou conveniadas. O levantamento não reflete a totalidade do Paraná, já que os municípios com gestão plena da saúde possuem sistemas próprios de regulação e controle de suas listas de espera.

A pasta reitera que o tempo médio para a realização de cirurgias eletivas em unidades estaduais e contratualizadas — incluindo a área oftalmológica — é de 57 dias, destacando que as cidades com gestão própria podem apresentar prazos diferentes.

Em relação ao volume geral de atendimentos, a secretaria informou que foram efetuados 577 mil procedimentos oftalmológicos no Paraná entre 2023 e 2026 nas unidades estaduais e contratadas. Somente no primeiro semestre de 2026, foram 101 mil atendimentos realizados.

Situação em Curitiba

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) informou em nota que desde o início da gestão do prefeito Eduardo Pimentel houve redução de quase 40% no total de pacientes na fila de especialidades — de 201.578 pessoas em dezembro de 2024 para 126.802 em setembro de 2026.

Na Oftalmologia, especificamente, a queda chega a 99%: em janeiro de 2025, 47.780 pacientes aguardavam consulta na especialidade; em setembro de 2026, esse número caiu para 557, com tempo médio de espera atual de apenas seis dias.

De acordo com a SMS, cabe à pasta a gestão da fila de encaminhamento dos pacientes da atenção primária aos prestadores de serviço do SUS para consultas especializadas, sendo que cada prestador recebe pacientes conforme a capacidade informada e o que está contratualizado entre as instituições.

Já o encaminhamento interno para acompanhamento ambulatorial, cirurgia ou outros procedimentos e exames é responsabilidade de cada hospital, conforme avaliação do médico especialista e os protocolos clínicos, a situação de cada paciente e a organização interna da instituição.

Pacientes que já estão em acompanhamento nos hospitais prestadores de serviço podem recorrer à Ouvidoria da própria instituição para esclarecer dúvidas. Outro canal disponível é a Ouvidoria do SUS Curitibano, pelo telefone 0800-644-0041 — ligação gratuita, das 8h às 18h, de segunda a sexta-feira.

Sobre a oferta de óculos, a Prefeitura de Curitiba lançou o programa Olhar que Transforma, que prioriza crianças em idade escolar. Com investimento de R$ 8 milhões, cerca de 80 mil estudantes das 188 escolas municipais de Ensino Fundamental estão passando por avaliação oftalmológica, e todos que precisarem vão receber óculos sem custo.

Para as demais faixas etárias, a SMS informou que trabalha atualmente em estratégias para ampliar o credenciamento de serviços que ofertem óculos aos pacientes já inseridos na fila — demanda que cresceu justamente após a redução das filas de consultas oftalmológicas.

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