Tendência mundial, a ameaça da extinção da profissão de cobrador de ônibus tem gerado muita polêmica em Curitiba. Em reunião com vereadores no último dia 15 de fevereiro, o presidente da Urbanização de Curitiba S/A (Urbs), José Antônio Andreguetto, afirmou que a prefeitura estuda reduzir o número de cobradores com o objetivo de baixar custos de operação e, consequentemente, baratear a tarifa, já que os salários de motoristas e cobradores correspondem a 53% da planilha do transporte coletivo. Desde 2014, as 66 linhas de micro-ônibus circulam somente com o motorista e aceitam só pagamento com cartão transporte. Hoje, a lei só permite que estes ônibus operem sem cobradores.

Milena paga em dinheiro e não tem cartão. Ela duvida que baixe. Foto: Felipe Rosa
Milena paga em dinheiro e não tem cartão. Ela duvida que baixe. Foto: Felipe Rosa
Hamilton teme desemprego, mas apoia se a passagem baratear. Foto: Felipe Rosa
Hamilton teme desemprego, mas apoia se a passagem baratear. Foto: Felipe Rosa

 

Entre usuários do sistema, as opiniões se dividem. “Na minha opinião, deveriam manter os cobradores, eles precisam de trabalho. Retirar eles dos ônibus aumentaria muito o número de gente sem emprego. Por outro lado, se ficar mais barata a passagem, isso pode ser bom para a população”, diz o jardineiro Hamilton Souza de Oliveira, 74 anos. Já a manicure e cabelereira Milena Veiga, 18, duvida que a passagem baixe. “Barato, acho que não fica. Eu pago em dinheiro e não tenho cartão. Mas se ficasse R$ 1 mais barato compensaria, seria melhor, mesmo sem o cobrador”.

Ajuda ou não?

Especialistas consultados pela Tribuna do Paraná divergem do impacto da retirada dos cobradores. “É uma boa iniciativa passar a utilizar somente o cartão, sem o motorista ter que dar troco. Tudo isto gera desemprego, mas se os cobradores fizerem cursos, se eles se modernizarem, o impacto pode ser menor”, avalia o professor Eduardo Ratton, do Departamento de Transportes da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

“A retirada anterior dos cobradores, das linhas operadas pelos micro-ônibus, não impactou em nada na redução da tarifa. Eles foram retirados e a passagem não diminuiu. Esta medida só aumenta o lucro das empresas e ajuda a recompor o FUC – Fundo de Urbanização de Curitiba -, gerenciado pela Urbs e que há anos apresenta déficit. E ainda há o desemprego”, afirma o doutor em desenvolvimento econômico e membro da Plenária Popular do Transporte, professor Lafaiete Neves.

Sentindo na pele

O Sindicato dos Motoristas e Cobradores de Ônibus de Curitiba e Região Metropolitana (Sindimoc) defende a manutenção dos postos de trabalho. Segundo o presidente da entidade, Anderson Teixeira, Curitiba tem cerca de 6 mil cobradores que, de acordo com a proposta, perderiam seus empregos e deixariam de gastar na cidade, afetando a economia local.

“Se retirarem os cobradores, não acreditamos que eles serão colocados em outra função nas empresas, até porque esta medida não teria impacto nenhum na tarifa. Em 40 cidades onde retiraram os cobradores, o grande prejudicado foi o cobrador. O percentual de recolocação chega a 5%, quando muito, a 10%. Em Curitiba, daria 600 trabalhadores, no máximo. Para melhorar o sistema, poderíamos ter outras medidas mais eficazes, como uma reprogramação de veículos e linhas”, argumenta.

Há cinco anos trabalhando nesta função, o cobrador Mauricio*, 28, é contrário à medida. “É um absurdo, muitas linhas precisam do cobrador, já que muita gente não têm os cartões, que demoram para ser tirados. Saindo o cobrador também vai ficar mais difícil a fiscalização, para ver se é o titular do cartão quem está embarcando. E não vai evitar os assaltos, já que os assaltantes vão diretamente nos passageiros, fazendo um arrastão dentro do ônibus, tendo ou não cobrador”.

Para a cobradora Lúcia*, 54, que há 29 anos atua atrás das catracas, a presença do profissional é fundamental. “Isso vai deixar muitas pessoas desempregadas. Somos importantes, damos informação para as pessoas e ajudamos o usuário. Além disso, tem gente que não tem cartão, tem bastante gente que ainda prefere pagar com dinheiro, gente que tem medo de perder o cartão e ficar sem as passagens. A ideia do prefeito é fazer como fizeram em São José dos Pinhais. Lá, mandaram bastante gente embora”.

*Nomes fictícios, alterados para preservar a identidade dos entrevistados.

“Não vai baixar a tarifa”

O vereador Rogério Campos (PSC) reapresentou, no início de fevereiro, um projeto de lei protocolado em 2013 visando garantir a presença de cobradores no transporte público da capital. “A Urbs está afastando o usuário do transporte com a desculpa de ter que fazer o sistema funcionar. A falta dos cobradores diminui a qualidade do serviço. Fica ruim para o usuário, que deixa de ter uma pessoa que pode dar informações e que passa a usar ônibus menores e mais cheios. Também piora para o motorista, que perde a ajuda para manobrar ou para socorrer quem esteja passando mal. Pior ainda para os cobradores, que perdem seus empregos, muitos deles, pouco antes de se aposentarem. Mas infelizmente esta é uma tendência mundial, que não deve fazer a tarifa baixar. Não baixou em 2014 e não vai baixar agora”, opina.

Empresas de ônibus apoiam

Em nota, o Sindicato das Empresas de Ônibus de Curitiba e Região Metropolitana (Setransp) se diz favorável a todas as iniciativas que busquem trazer mais passageiros para o sistema e diminuir os custos da operação, desde que observado o equilíbrio econômico-financeiro dos contratos de concessão. “Uma das medidas para se reduzir despesas é a diminuição dos cobradores nos ônibus, uma tendência no Brasil – o prefeito de São Paulo, João Doria, está testando ônibus sem esse profissional – e uma realidade nos sistemas mais eficientes e admirados do mundo. Se o poder público resolver trilhar esse caminho, as empresas estudariam a recolocação desses profissionais em outras funções”.

Urbs: nada imediato

A Urbs já divulgou que admite a possibilidade de mudanças serem feitas na legislação municipal para poder ampliar o número de linhas de ônibus nas quais não há cobradores. Mas antes, é necessário aumentar os pontos de venda do cartão transporte, mudar a legislação e implantar qualquer mudança com um cronograma, de forma gradual, “para não prejudicar uma categoria estabelecida”. Em audiência durante a última greve dos motoristas e cobradores, o presidente da Urbs esclareceu que qualquer decisão sobre a diminuição do número de cobradores deve levar pelo menos um ano, pois será preciso mexer na bilhetagem.

Custo baixou na RMC

Implantado em São José dos Pinhais em 2011, o cartão de transporte VEM é obrigatório em 100% das linhas urbanas e rurais desde dezembro de 2015, quando foram retirados todos os cobradores. De acordo com a prefeitura, com o uso do cartão, o usuário tem o embarque facilitado na liberação automática da catraca, o que aumenta a segurança, já que não há circulação de dinheiro. A administração municipal também cita como vantagem o preço da tarifa (R$ 3,70 – contra R$ 4,25 na capital) e a integração em 100% das linhas que utilizam o cartão, no intervalo de uma hora após descer do primeiro coletivo, em qualquer ponto. A cidade conta com cerca de 50 pontos de recarga.