Uma provocação política em sala de aula terminou em ameaça de registro policial, intervenção da direção e afastamento de um professor das atividades em um colégio estadual de Curitiba.
O episódio ocorreu no mês passado, no Colégio Estadual Dona Branca do Nascimento Miranda, no bairro Tingui, depois que estudantes exibiram um vídeo relacionado ao ex-presidente Jair Bolsonaro para provocar o professor Olívio Araújo Neto. O docente confirmou a existência de uma queixa-crime/ato infracional envolvendo o desentendimento com os alunos, mas informou que está afastado por questões médicas.
A ocorrência foi documentada em um relatório da escola, elaborado a partir de depoimentos de estudantes do segundo ano do curso Técnico em Desenvolvimento de Sistemas. Segundo o documento, alguns alunos colocaram na televisão da sala uma música ou vídeo de conteúdo político antes da chegada do professor. Parte deles reconheceu que a intenção era provocar o docente.
Ao entrar na sala e encontrar o conteúdo sendo exibido, Olívio teria reagido com irritação. Conforme os relatos, ele acessou a página da Polícia Civil no computador e começou a solicitar os nomes dos estudantes para registrar um boletim de ocorrência. A atitude provocou apreensão entre alunos que afirmaram não ter participado da provocação. Alguns relataram receio de que seus nomes fossem incluídos no registro apenas por estarem presentes na sala.
Ainda segundo o relatório, o professor teria solicitado que levantassem a mão os estudantes que não desejassem ser relacionados à ocorrência. A direção e a equipe pedagógica foram chamadas para intervir antes da conclusão do procedimento.
Durante a discussão, uma estudante questionou o professor sobre sua condição de advogado. Conforme os depoimentos, ele apresentou a carteira profissional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e teria elevado o tom de voz. A situação foi controlada após a intervenção da direção.
Procurado para comentar o episódio, Olívio Araújo Neto confirmou a existência de uma queixa-crime/ato infracional relacionada ao desentendimento, mas preferiu não detalhar o caso.
“Neste momento estou afastado por questões médicas. Não posso me manifestar para respeitar o devido processo legal. Realmente aconteceu uma queixa crime/ato infracional por um desentendimento com alunos, mas, inclusive para preservá-los, prefiro me manifestar apenas nos autos”, declarou.
Polícia Civil aguarda formalização da ocorrência
Em resposta sobre o andamento do caso, a PCPR informou que entregou ao professor uma requisição para obter os dados dos envolvidos, após ele comunicar o episódio à equipe policial.
A escola encaminhou posteriormente as informações solicitadas à delegacia. No entanto, segundo a corporação, o docente ainda não retornou para formalizar o boletim de ocorrência.
A Polícia Civil informou que fará contato com Olívio para dar início às investigações. Até o momento, não há confirmação de instauração de inquérito policial ou de responsabilização dos estudantes.
Estudantes relatam episódios anteriores
O relatório escolar também reúne reclamações sobre episódios anteriores envolvendo o professor. Segundo os alunos, ele teria manifestado apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a posições políticas de esquerda durante as aulas, provocando discussões entre estudantes com opiniões diferentes.
Há ainda relatos de ameaças de processos judiciais, supostos desafios para confrontos físicos e comentários considerados preconceituosos sobre religião e população indígena.
Os estudantes também afirmaram que parte das aulas seria dedicada a advertências e discussões sobre comportamento e questões jurídicas, em prejuízo dos conteúdos escolares, entretanto, as acusações não foram comprovadas durante a coleta dos depoimentos.
O relatório ressalta ainda que os episódios anteriores devem ser apurados separadamente, garantindo o direito de manifestação dos envolvidos.
Escola garante continuidade das aulas
Após o conflito, a direção ouviu estudantes individualmente e em diferentes momentos para reunir informações sobre o episódio. A turma passou a ser atendida por um professor substituto, com a continuidade do planejamento pedagógico.
A escola também informou que adotou medidas para evitar prejuízos ao aprendizado dos estudantes e realizou orientações sobre respeito e convivência no ambiente escolar. Nas considerações finais, o documento reconhece que alguns alunos participaram deliberadamente da provocação, mas ressalta que não é possível atribuir a mesma responsabilidade a todos os estudantes presentes.
A direção recomenda que as alegações referentes a episódios anteriores sejam analisadas em procedimentos próprios, caso necessário, garantindo a manifestação das partes. Também destacou que o relatório tem caráter administrativo e não estabelece responsabilidade definitiva do professor ou dos alunos.
