História

Pesquisador de Curitiba encontra em Londres nova pista sobre o Pirata Zulmiro

Pirata Zulmiro
A ida de Marcos Juliano Ofenbock ao Eton College, em Londres, permitiu consultar livros de assinaturas de antigos alunos da instituição e permitiu verificar que a assinatura do antigo aluno Francis Hodder é muito parecida com a que Zulmiro usava em Curitiba, onde ele supostamente usava o nome de João Francisco Inglez. (Crédito: Arquivo pessoal / Marcos Juliano Ofenbock)

Uma assinatura feita há mais de 200 anos, em um antigo livro de alunos de um dos colégios mais tradicionais da Inglaterra, pode ajudar a esclarecer um mistério histórico que passa por Curitiba, pelo tesouro da Ilha da Trindade e até pelo Capitão Gancho, personagem de Peter Pan.

O pesquisador curitibano Marcos Juliano Ofenbock encontrou, durante uma visita ao Eton College, um registro de 1811 com a assinatura de Francis Hodder, nome que ele investiga como possível verdadeira identidade do homem conhecido como Pirata Zulmiro.

A descoberta ocorreu no dia 13 de outubro, durante uma viagem à Inglaterra na qual Ofenbock apresentou os resultados de 22 anos de pesquisas sobre o personagem. O registro encontrado em Eton foi comparado a outro documento histórico, de 1829, preservado em Curitiba.

Para o pesquisador, as semelhanças entre as assinaturas representam uma nova pista na tentativa de descobrir quem realmente foi o homem que viveu na capital paranaense sob o nome de João Francisco Inglez.

Uma assinatura de 1811 e um mistério de Curitiba

A história do Pirata Zulmiro é investigada há mais de duas décadas por Ofenbock, que reuniu documentos históricos, registros religiosos, jornais antigos e outras fontes para reconstruir a trajetória do personagem. Uma das hipóteses centrais da pesquisa é que o homem conhecido em Curitiba como João Francisco Inglez teria utilizado anteriormente o nome Francis Hodder.

Foi justamente esse nome que o pesquisador encontrou no registro de estudantes de Eton College, instituição fundada em 1440. O documento, datado de 1811, contém uma assinatura que Ofenbock colocou lado a lado com outra encontrada em um registro de batismo da Igreja Matriz de Curitiba, de 31 de janeiro de 1829.

Segundo o pesquisador, há semelhanças na maneira como foram escritas as palavras “Francis” e “Francisco”, especialmente na sequência de letras “rancis”. A comparação, entretanto, ainda não permite afirmar que as duas assinaturas pertençam à mesma pessoa.

O achado é considerado um indício que deverá ser analisado em conjunto com os demais documentos reunidos ao longo da investigação. Se a ligação entre os nomes for confirmada, o registro poderá contribuir para esclarecer a origem e a trajetória do homem que ficou conhecido como Pirata Zulmiro.

O que o Pirata Zulmiro tem a ver com o Capitão Gancho?

A visita a Eton também trouxe um componente curioso à investigação. O colégio inglês tem uma ligação literária com o Capitão Gancho, o famoso vilão criado pelo escritor escocês J. M. Barrie para a história de Peter Pan.

Em 7 de julho de 1927, Barrie esteve em Eton para apresentar uma palestra intitulada Captain Hook at Eton (Capitão Gancho em Eton). Na ocasião, desenvolveu uma narrativa sobre o passado escolar do personagem, associando-o à tradicional instituição britânica.

Quase um século depois, foi a vez de um pesquisador de Curitiba apresentar naquele mesmo colégio uma investigação sobre um pirata cuja história, conforme Ofenbock, guarda paralelos intrigantes com a criação de Barrie.

Entre as semelhanças apontadas estão a identidade cercada de mistério e a alegação de que o pirata teria estudado em Eton. O pesquisador também destaca referências ao Brasil presentes nas histórias de Gancho. No romance Peter and Wendy, de 1911, por exemplo, o personagem utiliza um golpe de espada que teria aprendido com um pirata no Rio de Janeiro.

Já na palestra apresentada em Eton, em 1927, Barrie incluiu referências a um tesouro em Manaus e a um testamento enviado do Rio de Janeiro para a Inglaterra. Para Ofenbock, esses elementos merecem ser investigados porque a história de Zulmiro também chegou à imprensa londrina no século XIX, antes da criação do Capitão Gancho.

Apesar das coincidências, ainda não existe comprovação documental de que J. M. Barrie conheceu a história de Zulmiro ou tenha se inspirado nele para criar o personagem. A possível conexão permanece como uma hipótese de pesquisa, e não como uma conclusão histórica.

Pirata Zulmiro
O pesquisador Marcos Juliano Ofenbock (à esquerda) e o jovem Lucas Cornelsen, curitibano que abriu caminho para o pesquisador em Eton College. (Crédito: Arquivo pessoal / Marcos Juliano Ofenbock)

Convite de estudante com raízes em Curitiba levou pesquisador a Eton

A apresentação de Ofenbock à Sociedade de História do Eton College aconteceu a convite de Lucas Cornelsen, estudante da Villiers House, uma das casas estudantis da instituição. A história tem uma coincidência curiosa: o bisavô de Lucas nasceu em Curitiba, cidade onde João Francisco Inglez viveu no século XIX.

Outra particularidade chamou a atenção do pesquisador. O emblema da Villiers House é uma bandeira pirata, com caveira e ossos cruzados. Foi justamente nessa casa que a comitiva brasileira participou de um jantar com estudantes e representantes da instituição.

Recebido pelo professor Andrew Robinson, Ofenbock também conheceu espaços históricos do colégio, como a capela e a Lower School, construção do século XV descrita pela instituição como a sala de aula mais antiga da Europa.

A palestra apresentou aos estudantes britânicos a trajetória da investigação, os documentos encontrados no Brasil e as hipóteses que relacionam o Pirata Zulmiro ao universo literário do Capitão Gancho. O encontro também abriu espaço para perguntas sobre a história do personagem e a pesquisa desenvolvida em Curitiba.

Pesquisa sobre pirata de Curitiba desperta interesse de especialistas britânicos

A viagem não ficou restrita ao Eton College. No dia 14 de outubro, Ofenbock esteve na University of Reading, onde se reuniu com o historiador Richard Blakemore, especialista em história marítima e pirataria.

Durante o encontro, o pesquisador apresentou os resultados de sua investigação e discutiu as próximas etapas da Expedição Arqueológica Ilha da Trindade, projeto que pretende investigar locais mencionados em documentos históricos relacionados ao suposto tesouro do pirata.

Conforme Ofenbock, Blakemore demonstrou interesse em participar da iniciativa. Também foi discutida a possibilidade de uma futura parceria institucional com a universidade, embora ainda não exista um acordo formalizado.

A agenda incluiu uma visita ao British Museum, em Londres, onde o pesquisador se reuniu com Danny Zborover, responsável pela seção das Américas. O encontro foi dedicado à apresentação dos objetivos da expedição arqueológica e das possibilidades de investigação dos locais descritos nas fontes históricas.

Pirata Zulmiro
O pesquisador Marcos Juliano Ofenbock, que descobriu a história do Pirata Zulmiro em Curitiba, deu uma palestra em Eton College, em Londres, escola onde teria Zulmiro teria estudado antes de se tornar pirata. (Crédito: Arquivo pessoal / Marcos Juliano Ofenbock)

Livro sobre Pirata Zulmiro é lançado em Londres

A passagem pela Inglaterra terminou com mais um marco para a pesquisa. No dia 15 de outubro, Ofenbock apresentou uma palestra no King’s College London e realizou o lançamento internacional do livro digital The Pirate Treasure of Trinidad Island (O Tesouro Pirata da Ilha da Trindade).

O evento teve apoio da Anglo-Brazilian Society e do Departamento de Estudos de Guerra do King’s College London, reunindo interessados em história marítima e na investigação desenvolvida pelo curitibano.

Entre os participantes estava Bill Lindsay, integrante da Society for Nautical Research e editor da revista Topmasts, especializada em história marítima. Segundo Ofenbock, Lindsay o convidou a escrever um artigo sobre a pesquisa para a publicação e manifestou interesse na expedição arqueológica.

O lançamento e os encontros com especialistas britânicos ampliam as possibilidades de circulação internacional de uma história que, durante muitos anos, esteve associada principalmente a documentos e personagens da memória de Curitiba.

Depois de 22 anos de investigação, Ofenbock retorna da Inglaterra com novos contatos e, principalmente, uma pista documental que poderá ajudar a responder uma das perguntas centrais de sua pesquisa: quem era, afinal, o homem que ficou conhecido como Pirata Zulmiro?

A resposta ainda depende de novas análises e do cruzamento de fontes históricas. Mas a assinatura encontrada em um registro escolar de 1811 acrescenta mais uma peça ao quebra-cabeça de uma história que começou a ser desvendada em Curitiba e agora ganha novos capítulos do outro lado do Atlântico.

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