O Pirata Zulmiro, personagem que há anos é tratado como uma lenda curitibana, pode estar ligado à criação de um dos vilões mais conhecidos da literatura mundial: o Capitão Gancho, das histórias de Peter Pan. É essa a nova hipótese investigada pelo pesquisador e escritor Marcos Juliano Ofenbock, que vai levar a Londres uma série de documentos e evidências históricas que ele encontrou e que aproximam a trajetória de Francis Hodder, identificado pela pesquisa como o pirata Zulmiro, ao vilão das histórias de Peter Pan.
Depois de mais de 22 anos pesquisando arquivos, jornais, mapas e registros familiares no Brasil e no Reino Unido, Ofenbock encontrou uma sequência de conexões que considera suficientemente relevante para levar a investigação ao ambiente acadêmico britânico.
Ele recebeu um convite do King’s College London, para fazer uma palestra no dia 15 de outubro e apresentar essas evidências. A programação, em parceria com a Anglo-Brazilian Society, terá palestra, lançamento de livro e perguntas do público.
Zulmiro x Gancho
A ligação entre o Pirata Zulmiro e o Capitão Gancho começa pelo Eton College, o mais tradicional colégio britânico, onde reis e outros nobres da história estudaram. Segundo a investigação, Francis Hodder, nome associado ao homem que passou a viver em Curitiba como João Francisco Inglez, estudou em Eton antes de aparecer no Brasil no século XIX.
Em Curitiba, viveu durante décadas na região do Pilarzinho, com o nome falso, e morreu em 1889. Essa trajetória foi reconstruída a partir de registros religiosos, censitários, municipais, funerários e jornais.
É aí que entram as coincidências com o Capitão Gancho. Em 1896, a história do chamado “pirata de Eton” já havia chegado à imprensa britânica. Os jornais locais já falavam da existência do pirata, um possível foragido da Marinha Britânica que tinha estudado em Eton.
Poucos anos depois, em 1904, J.M. Barrie, autor das histórias de Peter Pan, colocou Peter nos palcos de teatro e criou um Capitão Gancho, associado diretamente a um ex-aluno de Eton. Na cena final da peça, o pirata pronuncia “Floreat Etona”, lema do colégio britânico, que em tradução significa “Que Eton Floresça”. O próprio Eton College registra essa ligação na história do personagem.
Capitão Gancho e sua ligação com o Brasil

As referências ao Brasil tornam a hipótese ainda mais curiosa. Em Peter and Wendy, publicado em 1911, Barrie escreve que o golpe de espada preferido de Hook havia sido ensinado por um pirata no Rio. Décadas depois, em um discurso de 1927 intitulado Captain Hook at Eton, o escritor volta a colocar o personagem no Brasil ao mencionar parte de seus supostos tesouros como vindos de uma incursão em Manaus.
“Na época, quando falavam que o tesouro do pirata estava escondido numa floresta, os antigos automaticamente associavam à Floresta Amazônica. Mas hoje sabemos que o tesouro não está em Manaus. Os mapas mostram que ele possivelmente está na Ilha da Trindade, no litoral”, explica o pesquisador, Ofenbock
Nenhum desses elementos, isoladamente, prova que Barrie tenha conhecido a história de Francis Hodder. É justamente por isso que Ofenbock apresenta a descoberta como uma hipótese histórica documentada. O argumento está na combinação de cronologia, documentos, imprensa britânica, relação com Eton e referências geográficas ao Brasil. O próprio King’s College descreve a investigação nesses termos e ressalta que não se trata de uma identificação literária definitiva.
Da lenda curitibana para Londres
A nova pesquisa é um desdobramento da investigação que transformou Zulmiro de lenda em personagem histórico documentado. Durante anos, Ofenbock procurou registros que permitissem provar que o homem conhecido como Pirata Zulmiro realmente havia vivido em Curitiba. Em 2018, através de uma reportagem escrita pela Tribuna do Paraná, documentos encontrados pelo pesquisador estabeleceram a ligação do pirata com João Francisco Inglez, e a história passou a ganhar novos registros e personagens.
Em outubro de 2019, o então prefeito Rafael Greca reconheceu oficialmente os documentos apresentados pelo pesquisador sobre a passagem de Zulmiro pela cidade. Na ocasião, a Prefeitura destacou que a antiga lenda havia passado a integrar oficialmente a história de Curitiba.
Agora, a história volta ao Reino Unido, justamente ao território onde a nova investigação encontrou uma de suas pistas mais intrigantes. Segundo Ofenbock, a temporada londrina terá duas apresentações sobre a pesquisa, incluindo um contato com a comunidade britânica dedicada à história naval. A investigação também vem sendo divulgada pela Society for Nautical Research, uma das instituições tradicionais do país no estudo da história marítima.
O trabalho ganha ainda um novo produto: em Londres será lançado mundialmente o eBook The Pirate Treasure of Trinidad Island: The Documented History of the Largest Pirate Treasure in the World. Em tradução: O Tesouro de Pirata da Ilha da Trindade: A História Documentada do Maior Tesouro de Pirata do Mundo. A publicação reúne a trajetória de Zulmiro, a história do tesouro atribuído a ele, as expedições realizadas à Ilha da Trindade e as novas conexões investigadas entre o pirata e o universo de Peter Pan.
