Quem passa pela Avenida Marechal Deodoro em direção à Praça Zacarias, ou mesmo pela travessa da Lapa ou Rua José Loureiro, ao levantar os olhos, encontra uma cena curiosa. Na lateral direita do Edifício Maurício Caillet, há uma janela “filha única“. Solitária, no 14º andar, hoje ela pertence à sala de reuniões do Sistema FAEP (Federação da Agricultura do Estado do Paraná).
Registrado na 4ª Circunscrição de Imóveis em 23 de abril de 1969, o prédio é um marco da Marechal. São 21 andares e mais de 160 salas comerciais. Na época da inauguração, chegou a figurar entre os edifícios mais altos de Curitiba, símbolo da verticalização que começava a transformar a cidade.
Apesar da tradição, o edifício nunca deixou de se adaptar ao tempo. Já passou por uma série de reformas: a fachada de pastilhas virou textura, o lambril dos elevadores cedeu lugar ao grafiato e a recepção escura deu espaço a um ambiente mais claro e moderno.
Entre essas mudanças, a janelinha no alto da lateral ganhou seu lugar no centro das atenções. Diferente das demais aberturas, não foi planejada na planta original. Surgiu depois que o prédio já estava concluído, para resolver um problema bem prático. “Havia uma sala que não recebia muito sol. Quem ocupava resolveu abrir uma janela ali, para ter ventilação e iluminação”, explica o síndico Wilson Barboza.
Homenagem de família
Além da janelinha, outro detalhe chama atenção dos atentos que circulam pela Marechal: dois prédios com sobrenomes iguais, um de frente para o outro. De um lado, o Edifício Maurício Caillet. Do outro, o Edifício Nerina Caillet. Não é coincidência: trata-se de uma homenagem da família.
Maurício Caillet, descendente de franceses, foi industrial e produtor de erva-mate. Em Curitiba, fundou o luxuoso Grande Hotel Moderno, na Rua XV de Novembro. O espaço, famoso pelo requinte, tinha tapetes persas, lençóis de linho e travesseiros de penas de pato, recebeu hóspedes ilustres, entre eles o presidente Getúlio Vargas, o ator Henry Fonda e o inventor Santos Dumont.
Sua esposa, Nerina Gavazzoni — que depois adotou o sobrenome Caillet — foi mãe dos seis filhos do casal. Uma das filhas, Margarina Caillet, junto ao marido Oscar Ferreira dos Santos, adquiriu os dois edifícios e decidiu nomeá-los em homenagem ao pai e à mãe. Para reforçar a união do casal, mesmo em lados opostos da rua, os prédios receberam o mesmo desenho estrutural, como se dialogassem silenciosamente um com o outro.
Futuro à porta
Em conjunto, os edifícios Maurício e Nerina vão integrar um dos projetos urbanos mais ousados da Prefeitura de Curitiba: a chamada “Times Square curitibana”. A proposta prevê revitalizar 592 metros da Rua Marechal Deodoro, no trecho entre a Travessa da Lapa e a Rua Desembargador Westphalen, englobando também o entorno da Praça Zacarias.
No edifício Maurício Caillet, o contrato para a instalação de um grande painel de LED na fachada já está assinado, segundo o síndico Wilson Barboza. A ideia é transformar a via em um corredor vibrante de luzes, inspirado no modelo nova-iorquino. O avanço do projeto ainda é gradual, mas a expectativa é de que a obra seja entregue até o fim da gestão do atual prefeito Eduardo Pimentel.
