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Dom Pedro Fedalto faz 100 anos: a história do homem que mudou a Igreja em Curitiba

Dom Pedro Antônio Marchetti Fedalto, arcebispo emérito de Curitiba, completará 100 anos no próximo dia 11 de agosto. Foto: José Fernando Ogura/SMCS
Dom Pedro Antônio Marchetti Fedalto, arcebispo emérito de Curitiba, completará 100 anos no próximo dia 11 de agosto. Foto: José Fernando Ogura/SMCS

Dom Pedro Antônio Marchetti Fedalto, arcebispo emérito de Curitiba, completará 100 anos no próximo dia 11 de agosto. Homem de hábitos simples, voltado à oração, não esperava ser arcebispo de Curitiba. Mas aceitou o desafio com fé e perseverança por mais de 30 anos, deixando enormes legados para a fé na capital paranaense.

O ano era 1971. Dom Fedalto assumiu como arcebispo em tempos “convulsivos”.

“Grandes transformações estavam ocorrendo na história, na cultura, na ciência. E na Igreja houve o Concílio Vaticano II, que superou dezenas de estruturas já envelhecidas”, relata o atual arcebispo de Curitiba, Dom Antônio Peruzzo. “Isso trazia muitas certezas por parte de todos, mas não se sabia bem como lidar com o novo. Dom Fedalto ajudou a diocese a avançar, mas também a se manter equilibrada em tempos exigentes e desafiadores”.

Menino da colônia

Mas para entender o homem que conduziu a Arquidiocese de Curitiba por mais de três décadas (de 1971 a 2003), é preciso voltar muito antes da mitra, dos títulos e das cerimônias. Voltar à Colônia Antônio Rebouças, em Campo Largo, onde nasceu o primeiro filho de uma família de agricultores descendentes de italianos.

Segundo o sobrinho Pedro Jacob Fedalto, o Pedrinho, Dom Pedro teve uma infância simples, estudando e ajudando os pais nos afazeres da propriedade. O destino, porém, mudou quando um professor de catequese percebeu algo diferente naquele menino. “Foi o professor Luiz Lorenzi quem disse que iria conversar com os pais dele para colocá-lo no seminário”, conta.

Em 1940, aos 13 anos, Pedro Fedalto ingressou no Seminário São José, em Curitiba. A adolescência foi vivida entre estudos, oração e silêncio. Depois foi para o Seminário Central da Imaculada Conceição do Ipiranga, em São Paulo, onde cursou Filosofia e Teologia. Quando retornava para visitar a família durante as férias, já demonstrava sinais da vocação que marcaria sua vida. “Ele subia em cima dos montes de milho no paiol e reunia irmãos e vizinhos para fazer sermões”, recorda Pedrinho.

Do Seminário direto para a arquidiocese

Ordenado sacerdote em dezembro de 1953, pelo arcebispo metropolitano Dom Manuel da Silveira D’Elboux, sua trajetória seguiu um caminho incomum. Enquanto a maioria dos novos padres assumia paróquias, Fedalto foi escolhido para atuar diretamente ao lado do então arcebispo Dom Manuel da Silveira D’Elboux.

Tornou-se secretário pessoal do arcebispo, depois chanceler da Cúria, vigário-geral e bispo auxiliar. Nunca chegou a ser pároco. Chegou a ser cotado para ser arcebispo de Palmas. Mas D´Elboux interviu, pois queria Fedalto como seu auxiliar em Curitiba.

“Ele conhecia profundamente a Arquidiocese e as comunidades. Isso teve muito peso quando foi escolhido para suceder Dom Manuel”, explica o sobrinho.

A nomeação para arcebispo, feita pelo Papa Paulo VI, foi recebida com surpresa. “Não era pretensão dele. Mas, depois de refletir e consultar pessoas próximas, aceitou a missão e procurou exercê-la da melhor maneira possível”, afirma Pedrinho.

A partir dali, começou uma das gestões mais longas da história da Igreja em Curitiba. Dom Pedro criou 11 novas pastorais, ampliou a presença da Igreja nos bairros (74 novas paróquias), promoveu missões populares e incentivou vocações sacerdotais (ordenou 74 padres e acolheu diversas congregações religiosas femininas e masculinas).

Para Peruzzo, o maior legado não está apenas nas obras ou estruturas criadas. “O maior testemunho de Dom Pedro é sua fidelidade à vocação. Ele tinha uma paixão imensa pelo serviço de padre e de bispo. Era um homem profundamente identificado com sua missão”, afirma.

Executivo da igreja

Essa combinação entre proximidade humana e capacidade administrativa também marcou a visão do ex-prefeito e historiador Rafael Greca.

“Dom Pedro foi um executivo da Igreja. Multiplicou o acesso das pessoas à vida religiosa. Ele mesmo buscava entender o crescimento da cidade para saber onde seria necessário criar novas comunidades. Foi no IPPUC para ver quais eram os novos bairros e onde levaria novas igrejas”, recorda Greca, que teve em Fedalto um incentivador e padrinho para seu casamento com Margarita Sansone.

Ao longo dos anos, Dom Fedalto tornou-se também uma referência moral para Curitiba. Manteve diálogo com diferentes governos, sem abrir mão de suas convicções. Até mesmo na venda da Copel, na época do governo Jaime Lerner, ele interviu.

“Ele foi sempre muito equilibrado, muito moderado, mas nunca cedeu nas suas opiniões”, resume Greca.

“João Paulo II jamais viria a Curitiba se não fosse por Dom Pedro Fedalto”

Entre os muitos capítulos de sua trajetória, um permanece vivo na memória dos curitibanos: a visita do Papa João Paulo II, em 1980. Os preparativos começaram mais de um ano antes e envolveram Igreja, autoridades e milhares de voluntários. O pontífice chegou a ficar hospedado na residência do arcebispo.

“O Papa jamais viria a Curitiba se não fosse Dom Pedro Fedalto, com a ajuda de Dom Jerônimo Mazzarotto e com o nosso apoio através do IPPUC e também dos padres da missão católica polonesa no Brasil, através do saudoso padre Benedito Grinkoski. Eles convenceram o Episcopado brasileiro a trazer o Papa para a mais eslava das províncias do Brasil, qual seja o Paraná, terra de polacos e de ucranianos e de muitos imigrantes estrangeiros”, afirma Greca.

Dom Pedro Fedalto durante encontro com o Papa João Paulo II. Foto: Arquivo pessoal

Apesar da relevância pública, familiares e amigos insistem que o verdadeiro Dom Pedro sempre esteve longe dos holofotes. Nunca foi exigente com comida, preferia uma rotina simples, andava de ônibus quando o sobrinho Pedrinho não podia levá-lo, gostava de estar cercado por pessoas e mantinha um vínculo permanente com a família.

“Ele sempre foi o guardião da família. Queria saber notícias de todos e fazia questão de estar presente”, conta Pedrinho. Hoje, por limitações de mobilidade e saúde, a família reúne-se mensalmente para rezar o terço com Fedalto, no Seminário São José, onde ele preferiu morar na velhice para manter-se sempre em contato com muitas pessoas e em movimento.

Dom Pedro Fedalto encontra familiares para rezar o terço. Foto: Arquivo pessoal

Dom Peruzzo acredita que, talvez por isso, ao completar um século de vida, seu legado seja lembrado tanto pelas grandes realizações quanto pelos gestos discretos. Discretos, mas nunca sem grandes reflexões. Dom Fedalto possui uma coleção com aproximadamente 160 cadernos e diários, onde todos os dias à noite, antes de dormir, registrava os acontecimentos e desafios do dia, enquanto esteve à frente da arquidiocese.

“Dom Pedro deve ser recordado como um homem da simplicidade e do essencial. Acessível e de diálogo espontâneo, tinha paixão imensa pelo serviço de padre e de bispo, amor à igreja, sua profunda consciência vocacional de pertença a Deus e o elevado senso de missão e de responsabilidade. É um testemunho que para mim soa forte até mesmo no silêncio”, analisa Peruzzo.

Aos 100 anos, o menino da Colônia Antônio Rebouças que entrou cedo no seminário, sem imaginar o futuro que o aguardava, permanece como uma das figuras mais importantes da história religiosa de Curitiba — não apenas pelo que construiu, mas pela forma como viveu.

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