Em 2024, os paranaenses entraram na lista dos principais viajantes do país, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua – Turismo, os moradores do estado realizaram 1,52 milhão de viagens, um aumento de 12,9% em relação ao ano anterior (1,35 milhão). O Paraná ficou em 4º lugar no ranking nacional de estados cujos residentes mais viajaram, representando 7,4% do total de viagens no Brasil. Com a chegada do fim de ano, a expectativa é de que o número de deslocamentos cresça novamente, especialmente rumo ao Litoral do Paraná e de estados vizinhos, destino preferido das férias de verão.
Mas nem tudo é descanso. Junto com a empolgação das malas prontas e das revisões no carro antes de pegar a estrada, cresce também o número de golpes envolvendo hospedagens. Só no ano passado, fraudes do tipo causaram um prejuízo de R$ 2,4 bilhões em todo o país, segundo a Federação de Hotéis, Restaurantes e Bares do Estado de São Paulo (FHORESP).
Os golpes são diversos, mas um dos mais frequentes é o anúncio duplicado, comum em sites de hospedagem e redes sociais. O delegado da Polícia Civil do Paraná (PCPR) Emmanoel David explica que os golpistas copiam fotos e descrições reais de imóveis legítimos e criam anúncios paralelos. “Quando a vítima faz contato, o criminoso solicita pagamento antecipado para garantir a reserva. Depois disso, desaparece”, detalha o delegado.
Muitos viajantes só percebem o golpe ao chegar ao destino, quando descobrem que não há reserva em seu nome. Segundo o delegado, não existe um perfil específico de vítima ou de local, mas cidades litorâneas e turísticas tendem a concentrar mais ocorrências. “Os criminosos se aproveitam do aumento da demanda e da pressa em garantir um local de veraneio no fim do ano. É aí que entram as técnicas de engenharia social”, explica o delegado.
Para evitar prejuízos e dores de cabeça, a Tribuna do Paraná preparou quatro dicas para identificar hospedagens seguras e reconhecer potenciais golpes. Confira a seguir:
1- Bom demais para ser verdade
Mais perto da praia ou ao lado de um ponto turístico por uma pechincha? É nesse tipo de promessa irresistível que pessoas acabam caindo em golpes de hospedagem. Quando o preço parece bom demais para ser verdade, o sonho de um fim de ano tranquilo pode virar uma grande dor de cabeça.
Entre as principais táticas de criminosos, especialmente nos anúncios duplicados, estão as ofertas de casas e apartamentos em áreas nobres ou muito movimentadas com valores bem abaixo do mercado. “O golpe se aproveita da pressa das pessoas em fechar o aluguel e da empolgação de encontrar um preço atrativo com desconto. Nesses momentos, o consumidor acaba deixando de verificar a autenticidade do anúncio”, explica o delegado Emmanoel David.
Para evitar cair nesse tipo de fraude, a orientação é simples: desconfie sempre. Verifique a origem do anúncio, o histórico de avaliações e o contato do anfitrião. “Se é alta temporada e o preço está muito abaixo dos outros anúncios, tem que desconfiar”, reforça o delegado.
2- Pagamentos fora de plataformas oficiais
Outro golpe comum é o pagamento fora das plataformas oficiais. Em sites confiáveis como Airbnb e Booking, os valores podem ser pagos antecipadamente com cartão de crédito ou débito diretamente na plataforma. Em alguns casos, também é possível pagar direto no local da hospedagem.
Quando o anúncio é fraudulento, os criminosos costumam pedir depósitos antecipados por fora. “Se você está usando uma plataforma dessas, o golpista vai tentar tirar a negociação de lá. Em reservas feitas por marketplaces, é comum que enviem links de pagamento externos por WhatsApp ou solicitem depósito em conta física”, alerta o delegado.
A tática de oferecer descontos ou preços reduzidos em troca de pagamentos via WhatsApp, fora da plataforma oficial, é um sinal de alerta. Nesses casos, a recomendação é simples: mantenha toda a negociação e o pagamento dentro das plataformas oficiais, que oferecem segurança e registro da transação.
3- Perfis suspeitos
Ao reservar uma hospedagem, os consumidores devem ficar atentos ao perfil de quem anuncia. “Outro indicativo de anúncios falsos são perfis recém-criados, sem avaliações ou com comentários muito genéricos”, aponta o delegado Emmanoel David.
Nesses casos, é possível verificar nas próprias plataformas há quanto tempo o perfil do anunciante está ativo. Um outro sinal de alerta é quando um mesmo perfil divulga diversos anúncios com preços inconsistentes entre si.
Para evitar problemas, vale conferir se as descrições do anfitrião são detalhadas e se o endereço informado corresponde à localização real do imóvel em ferramentas de mapas. Solicitar fotos adicionais também é recomendado, mas atenção: imagens “perfeitas demais” podem indicar fraude.
4- Local dos sonhos
Fotos sem imperfeições, que parecem geradas por inteligência artificial ou até manipuladas digitalmente, são frequentemente usadas em anúncios falsos. “Uma busca reversa de imagens pelo Google, por exemplo, ajuda a descobrir se a foto foi retirada da internet”, orienta o delegado.
Além de golpes financeiros, essa prática pode caracterizar propaganda enganosa. O viajante só percebe a diferença ao chegar no local, constatando que a hospedagem é inferior ou diferente do anunciado. Nesses casos, o consumidor tem respaldo no Código de Defesa do Consumidor (CDC) para formalizar reclamações.
Quando entrar em contato com a Polícia?
Ao se deparar com anúncios ou ofertas de hospedagens suspeitas, os consumidores devem, primeiro, denunciar diretamente na plataforma de divulgação, seja pelo próprio site ou pelo perfil do anunciante. Cabe às plataformas analisar a denúncia e, caso confirme a suspeita, remover o anúncio.
A atuação da Polícia Civil ocorre quando há tentativa ou efetivação do golpe. “Para que a polícia possa intervir, é necessário que a pessoa seja vítima, seja pela tentativa de fraude ou pelo prejuízo efetivo decorrente do crime”, explica o delegado Emmanoel David.
Nos casos de prejuízo financeiro, a polícia consegue rastrear o destino do valor. “Realizamos a rastreabilidade das transferências bancárias, podendo oficiar instituições de pagamento ou solicitar quebra de sigilo bancário. Para pagamentos via PIX, por exemplo, é possível acionar o MED (Mecanismo de Devolução Especial) para tentar bloquear os valores transferidos”, detalha o delegado.
Com o boletim de ocorrência registrado, iniciam-se as investigações, e os valores podem ser bloqueados. No entanto, a forma mais eficiente de evitar problemas durante o fim de ano ainda é preventiva: pesquisa e planejamento. Verificar a autenticidade dos anúncios e dos perfis diminui as chances de cair em golpes. “A pressa é sempre a maior aliada do golpista. O golpe não se revela pela aparência, mas pelo método, e esse se repete constantemente”, conclui o delegado.
