A comissária de bordo Amália Tortato está desembarcando da Latam, companhia aérea em que trabalhou nos últimos 14 anos em voos nacionais e internacionais. Seu próximo destino é a Câmara Municipal de Curitiba, onde inicia o mandato de vereadora a partir de 2021 pelo partido Novo. De viés liberal, decidiu entrar na política com a intenção de ajudar a desburocratizar os serviços públicos, inspirada no modelo de países que conheceu viajando o mundo.

Nascida em 1984, em Telêmaco Borba, na região dos Campos Gerais, onde foi capitã do time de vôlei da cidade, Amália chegou a Curitiba em 2002, aos 18 anos, para estudar engenharia mecânica na Universidade Federal do Paraná (UFPR), seguindo os passos do pai. Chegou a estagiar na área, no centro de pesquisas Lactec, mas não exerceu a profissão. Ainda antes de se formar, decidiu fazer o curso de comissária de bordo, realizando um sonho que tinha desde a infância.

Em 2006 entrou para os quadros da então TAM Linhas Aéreas, inicialmente fazendo voos domésticos e, a partir de 2008, também rotas para Estados Unidos e países da Europa e da América do Sul. Conhecendo outras realidades, cogitou morar fora do Brasil, atrás de mais qualidade de vida. “Mas não adiantava ir embora do país, porque minha família ia continuar aqui”, diz. “Então decidi que ficaria, mas que faria alguma coisa para mudar a nossa realidade.”

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A vontade de participar da construção de políticas públicas vem também de outra experiência. Em 2011, em sociedade com a mãe e o irmão mais velho, Amália abriu uma empresa, a Cabide Dourado. Tratava-se de um conceito novo, uma loja móvel de roupas, que funcionava em uma van. A ideia era que o veículo percorresse a cidade, levando o negócio ao encontro dos clientes.

A legislação municipal, no entanto, frustrou a iniciativa. Como não existe uma regulamentação para esse tipo de loja, a empresa foi enquadrada nas regras dos comércios ambulantes, que têm dia, horário e local fixo para funcionar, o que ia contra o conceito idealizado por ela. “A gente só poderia parar dentro de condomínios ou de estacionamentos de estabelecimentos privados, mas não na rua, como era a ideia.” Depois de cerca de um ano, a empresa foi fechada.

Essa frustração, conta, acendeu nela o desejo de lutar pela mudança nos processos para funcionamento e incentivo aos diferentes tipos de negócios na cidade. Nos anos seguintes, a vontade de ingressar no poder público seria alimentada ainda pela indignação com a crise institucional que o país atravessaria, com as manifestações de rua iniciadas em 2013, as denúncias de corrupção levantadas pela força-tarefa Lava-Jato e o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).

Identificada com os valores do Novo, que tem como principal bandeira o liberalismo econômico, em 2018 decidiu participar do processo que a legenda exige para selecionar candidatos. “É um filtro para garantir que quem vai concorrer pelo partido saiba o que está fazendo, esteja alinhado ideologicamente e saiba também se expressar em público, comunicar suas ideias”, explica. O processo envolve prova sobre legislação, entrevistas, reuniões e atividades práticas, como apresentar as ideias do partido para outras pessoas.

Amália, com o presidente do Novo, João Amoêdo, candidato à presidência em 2018. Foto: Reprodução / Facebook

Selecionada, disputou o cargo de deputada federal, mas fez apenas 7.660 votos – o partido não conseguiu nenhuma cadeira na Câmara dos Deputados pelo Paraná naquela eleição. Passou então a investir em capacitação para disputar a eleição seguinte. Participou dos cursos de formação dos movimentos Livres, que defende a causa liberal, RenovaBR, de renovação política, Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps), que tem como missão “a construção de um país mais justo e sustentável”, e Ladies of Liberty Alliance (Lola), que reúne líderes femininas de pensamento liberal de todo o mundo.

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Em 2020, sem utilizar recursos do fundo eleitoral – um dos princípios do Novo –, arrecadou R$ 12,9 mil de contribuições espontâneas para a campanha. Acabou eleita, com 3.092 votos, para a segunda cadeira da sigla na Câmara Municipal, onde inaugurará a bancada do partido com Indiara Barbosa, a mais votada nessas eleições.

As duas pretendem ter um posicionamento independente no Legislativo municipal. “É importante ter essa posição, uma vez que a principal função do vereador é fiscalizar o Executivo”, diz. “O Novo tem mostrado nas outras Casas onde já tem parlamentares eleitos que tem um trabalho independente. As pautas que vêm do Executivo e que coincidem com o que a gente acredita, como foi o caso da reforma da previdência, no Congresso, a gente apoia. E vamos atuar da mesma maneira aqui em Curitiba”, afirma. “Já as pautas que não forem condizentes com o que acreditamos, vamos criticar, vamos colocar nossa posição.”

Amália vai dar prioridade a quatro áreas em seu mandato. Na educação infantil, seu principal foco, quer propor a ampliação da parceria do município com a rede privada, ampliando o número de vagas em creche; a abertura de creches durante as férias; e a discussão sobre a educação domiciliar, o chamado homeschooling. Na pauta da desburocratização, vai defender a revogação de leis que considera atrapalharem a vida do curitibano e propor uma modernização do ISS Tecnológico, criando faixas por faturamento para facilitar o acesso ao imposto diferenciado.

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No âmbito da fiscalização, pretende propor a criação da Lei de Metas, para poder cobrar legalmente o cumprimento de promessas eleitorais do prefeito. Por fim, na área ambiental, quer direcionar parte dos recursos da coleta de lixo para projetos inovadores de gestão de resíduos sólidos.

Ainda na campanha comprometeu-se a não contratar o número máximo de servidores comissionados permitido para o gabinete, não fazer qualquer indicação para cargos na prefeitura e abrir mão do carro oficial e dos 200 litros de combustível, dos R$ 2,7 mil para gastos com correio e das 4 mil impressões a que cada vereador tem direito de usar todo mês. Seguindo o modelo do partido, anunciou ainda que preencherá vagas de assessores por meio de processo seletivo.

Na campanha em que saiu vitoriosa, dividiu o tempo nas ruas com os cuidados com a filha, Giovanna, nascida em dezembro de 2019 do casamento com Rodrigo, piloto da Latam que conheceu em uma das viagens como aeromoça. Um motivo a mais, segundo ela, para querer construir um país melhor.