Grande Curitiba

De 7 ônibus a 4 horas no trânsito: o desafio de trabalhar em Curitiba e morar na RMC

BUD, que circula entre PIraquara e Pinhais. Foto: Átila Alberti / Tribuna do Paraná

Morar em uma cidade da Região Metropolitana e trabalhar em Curitiba faz parte da rotina de pelo menos 290.644 pessoas, segundo dados de 2022 do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Necessário diariamente, o deslocamento pesa nessa conta.

No transporte metropolitano, os municípios com os maiores fluxos de passageiros em direção a Curitiba são Colombo, Pinhais, São José dos Pinhais, Almirante Tamandaré e Fazenda Rio Grande, segundo informações da Agência de Assuntos Metropolitanos do Paraná (Amep). Entre as linhas de Fazenda Rio Grande listadas pela agência, os tempos médios de viagem nos horários de pico variam de 45 minutos a 1h25, conforme o trajeto.

A necessidade de morar em uma cidade e trabalhar em outra depende de diversos fatores. A distribuição dos empregos é um deles. Em 2025, Curitiba registrava 1.026.150 vínculos ativos de emprego formal, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) encaminhados pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes). Já São José dos Pinhais tinha 141.275 vínculos e Fazenda Rio Grande, 26.927.

O diretor de Estatística do Ipardes, Marcelo Antônio, relaciona essa atração à diversidade econômica da capital. “Curitiba detém um significativo parque industrial, comércio diversificado e uma ampla oferta de serviços públicos e privados que atraem trabalhadores de toda a região metropolitana.”

Outro fator está relacionado ao preço de morar na capital paranaense. Segundo o Índice FipeZAP de Locação Residencial, desenvolvido pela Fipe em parceria com o Grupo OLX, o preço médio anunciado para aluguel em Curitiba chegou a R$ 49,44 por metro quadrado em setembro de 2026, com base em uma amostra de 4.477 anúncios. Em 12 meses, os valores subiram 8,94%. O levantamento considera apartamentos anunciados para novos contratos de locação.

O professor de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) Anderson Dias de Almeida Proença explica que a procura por imóveis próximos ao trabalho, ao comércio e aos serviços contribui para a valorização das áreas.

“As pessoas vão buscar moradia onde elas conseguem pagar”, afirma. Na avaliação do professor, isso leva parte da população a comprar ou alugar em municípios metropolitanos, que são mais baratos, mesmo quando o emprego continua em Curitiba.

Além dos quilômetros

Analisando o deslocamento, para o especialista, trajetos relativamente curtos podem virar viagens demoradas pela combinação de fatores como a baixa frequência dos ônibus e a organização da rede de transporte.

Proença destaca um modelo que direciona muitas viagens metropolitanas ao Centro de Curitiba. Quem precisa chegar a outros bairros pode depender de novas conexões, ampliando o tempo e a distância percorrida. “De modo geral, o transporte das cidades da região metropolitana leva até o Centro de Curitiba, e de lá o usuário precisa tomar outro ônibus para chegar ao seu local de destino”, explica.

Segundo Proença, esse modelo pode fazer com que o passageiro percorra trechos desnecessários apenas para conseguir realizar uma conexão. Ele acrescenta que o problema não termina quando o trabalhador chega ao destino. “Quando as pessoas passam muito tempo no seu deslocamento diário, elas deixam de estar com suas famílias, deixam de estar em atividades de lazer, deixam de ter tempo para estudar.”

Sete ônibus e quatro horas no caminho

Graziela Weber de Azevedo, de 28 anos, é analista administrativa. Ela mora em Fazenda Rio Grande e trabalha no bairro Xaxim, em Curitiba. Há cerca de cinco anos, faz esse trajeto cinco vezes por semana.

Graziela conta que sai de casa por volta das 5h15. São aproximadamente duas horas até o trabalho e outras duas na volta. Na ida, pega quatro ônibus. No retorno, mais três. Em um mês de 20 dias úteis, são cerca de 80 horas de deslocamento, o equivalente a dez jornadas de trabalho de oito horas.

A analista recebe vale-transporte e relata um desconto médio de R$ 200 por mês no salário pelo benefício. Para ela, o que mais pesa na rotina é tempo e cansaço. “Você já chega cansado para trabalhar e mais cansado ainda em casa”, conta. A rotina também dificulta atividades fora do trabalho, como a academia. “De manhã cedo não dá tempo e, de noite, o que mais quero é chegar em casa logo.”

A escolha de morar em Fazenda Rio Grande passou pelo preço dos imóveis e pela busca por segurança. Graziela conta que, quando se mudou, as casas nessa região eram mais acessíveis ao orçamento da família.

De carro, o peso aparece no bolso

Rafaela de Aguilar, de 39 anos, percorre cerca de 32 quilômetros diariamente. Ela mora em São José dos Pinhais e trabalha no Centro Cívico, em Curitiba, há 14 anos. Atualmente, ela vai presencialmente ao serviço duas ou três vezes por semana.

No trajeto de ida, Rafaela conta que costuma levar 40 minutos. No retorno, por volta das 18h, o percurso chega a 1h10 e pode alcançar 1h30. Além do tempo de deslocamento, ela calcula que gasta cerca de R$ 600 por mês com combustível.

O caminho contrário

O movimento não acontece apenas da Região Metropolitana para Curitiba. Hagata Santos da Silva, de 28 anos, mora no Centro da capital paranaense e trabalha em São José dos Pinhais cinco vezes por semana. Gerente de logística, normalmente utiliza aplicativos de corrida e gasta entre R$ 70 e R$ 80 por dia.

Na ida, leva cerca de 40 minutos. Na volta, aproximadamente uma hora. “Principalmente quando pego ônibus, o cansaço é pior”, conta.

A assessora jurídica Daniele Pereira de Oliveira Moreira faz o mesmo sentido entre os municípios, mas vive uma situação diferente. Mora em Curitiba, trabalha em São José dos Pinhais e divide o mês entre trabalho presencial e remoto. Nos dias em casa, percebe o ganho do tempo que seria usado no deslocamento.

Quando morar perto devolve tempo

Há casos em que o local de trabalho se torna decisivo para determinar o local de moradia. Ana Bárbara Gross, de 52 anos, fez da proximidade com o trabalho uma meta.

Servidora pública do Poder Judiciário, antes caminhava cerca de 40 minutos até o trabalho, no Centro Cívico. Depois, comprou um apartamento próximo ao Tribunal e atualmente está a cerca de cinco minutos de carro. “Passei a dormir mais, a levantar com mais calma, pude inserir o exercício físico regular na minha vida”, conta.

Para ela, a mudança transformou também a relação com o tempo. “Minha mudança de endereço me rendeu mais tempo para viver, me deu mais saúde e tranquilidade.”

O que pode encurtar o caminho?

Para o especialista e professor da UTFPR, melhorar o trajeto coletivo passa por diferentes investimentos. Uma das prioridades defendidas por Proença é ampliar as possibilidades de integração tarifária, permitindo conexões mais convenientes e reduzindo percursos feitos apenas para alcançar os locais onde a integração está disponível.

Ele também defende a extensão de canaletas e faixas exclusivas para ônibus nas principais ligações metropolitanas e o planejamento de transporte ferroviário de passageiros no longo prazo.

“É muito importante trazer essa multimodalidade porque o transporte público de qualidade não se baseia em um modal só”, afirma.

Questionada pela Tribuna do Paraná sobre o que deve mudar nos próximos anos, a Amep informou que contratou estudos e anteprojetores para corredores exclusivos nas ligações de Curitiba com Fazenda Rio Grande e Colombo, no BRT Norte-Sul Metropolitano.

A agência também citou intervenções na ligação entre Mandirituba e São José dos Pinhais e no corredor metropolitano entre Araucária e Curitiba, pela PR-423.

Além das obras, a Amep afirma que há um trabalho de planejamento para a descentralização de indústrias e serviços, com geração de empregos nas cidades metropolitanas e redução da dependência dos postos de trabalho da capital.

Esse planejamento atua na outra ponta do problema descrito por Proença: aproximar as oportunidades de trabalho de onde as pessoas moram.

Para quem passa horas entre casa e trabalho, melhorar a mobilidade vai muito além de chegar alguns minutos mais cedo. É tempo que pode voltar para o sono, os estudos, a família, uma atividade física. Ou simplesmente para chegar em casa sem sentir que o dia terminou no caminho.

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