Curitiba tornou-se a nova Miami, mas não pelas praias, outlets ou pela agitada vida noturna. A intensa capital da Flórida, que por muitos anos recebeu imigrantes e influência cubana, já não é mais o destino preferido de quem quer sair da ilha caribenha, principalmente pelas mudanças das políticas migratórias dos EUA. Desde o fim da pandemia da Covid-19, a capital paranaense tornou-se a cidade que mais atrai cubanos de todo o país.

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Os números do Observatório Regional de Governança Migratória do Paraná confirmam o aumento do fluxo migratório para Curitiba. Hoje, o Paraná é o estado que mais recebe refugiados de Cuba de todo o país. Se em 2021, foram registrados 104 solicitações de refúgio de cubanos em todo o Paraná, em 2022 os registros chegaram a 853, e a 3.073 em 2023. Os números continuam subindo, e atingiram um pico em 2025: foram no ano passado 3.695 pedidos de refúgio.

Em apenas três meses de 2026, 711 cubanos pediram refúgio no Paraná. Curitiba lidera as solicitações. Do total de 11.858, 73% (ou 8.706) dos refugiados estão na capital.

Para o superintendente-geral de Governança Migratória do Paraná, Gil Souza, o número de refugiados de Cuba não para de crescer em Curitiba. “O perfil da imigração cubana, que era antes do programa Mais Médicos, mudou. Hoje famílias inteiras estão vindo para cá, jovens, diante das incertezas. Muitos deles com formação, Ensino Superior, que buscam uma oportunidade aqui para fugir dos problemas políticos e sociais de Cuba.

O que acontece em Cuba?

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A Revolução Cubana, liderada por Fidel Castro no final da década de 1950, levou uma política nacionalista, anti-imperialista e popular. Em busca de uma soberania, o país se aliou à União Soviética e adotou o socialismo como modelo econômico e social – em que o estado assume o controle total da economia.

“Cuba foi um país próspero, numa época que exportava itens básicos. Mas, de 1959 para cá, a deterioração foi acontecendo e isso não pode ser romantizado. Cuba parou diante de um modelo falido de socialismo. É errado dizer que apenas as sanções dos Estados Unidos sobre a ilha provocaram a crise, foram também todas as escolhas políticas do país que acabaram freando o crescimento”, explica o professor de geopolítica e pesquisador em negócios internacionais da PUC-PR João Alfredo Nyegray.

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Após a pandemia da Covid-19, a situação se agravou consideravelmente. “Há crises, a situação energética é grave, há interrupção de serviços essenciais e escassez de combustível, que só tem agravado nos últimos cinco anos. Não é um colapso gradual, é uma economia que gera escassez, que gera mais crise, mais controle. Há uma baixa capacidade de melhorar a situação”, pontua o professor.

Liberdade!

Se na teoria geopolítica os motivos são políticos, na prática, o que move quem atravessa o continente é a busca por algo subjetivo: a liberdade. Ao encontrar boas condições de trabalho e de vida em Curitiba, os cubanos daqui avisam amigos e familiares, que também procuram migrar e buscar refúgio na capital.

Dianelis Paret, de 38 anos, era cabeleireira em Cuba e mudou-se há poucos meses para Curitiba. Viu no Brasil uma oportunidade para cuidar da saúde. Diante das crises de asma, a falta de medicamento em Cuba fortaleceu a ideia de sair do país definitivamente – mesmo que para isso precisou enfrentar dias de viagem. Entrou no Brasil por Boa Vista (RR) e veio até Curitiba de ônibus – um total de 9.800 km, quase cinco dias de estrada.

Equipe do restaurante Avenida Paulista, formada por imigrantes cubanos. Foto: Eloá Cruz / Tribuna do Paraná.

Uma longa viagem, tensa e cansativa, mas que valeu a pena. “A minha família não vivia bem. E depois da Covid-19, ficou tudo muito pior. Sem alimentos, sem medicamentos. Com o racionamento de energia, temos apenas duas horas de luz em casa por dia. Você precisa fazer tudo que precisa nesse tempo: celular, internet, banho”.

Em Curitiba, ela garantiu atendimento médico, iniciou o tratamento da asma, pôde comprar alimentos, roupas. A primeira compra no supermercado ao chegar aqui? Ovos. Na ilha caribenha, há limite de 5 unidades de ovo por pessoa.

Muitos dos cubanos que chegam na capital possuem bom nível de escolaridade, mas enfrentam barreiras para poder revalidar os diplomas por aqui. A médica generalista Aime Dager, de 34 anos, trabalha como auxiliar de cozinha na pizzaria Avenida Paulista, mas sonha em trabalhar na sua área de formação.

Em Cuba, diante da desvalorização da moeda e inflação, seu salário como médica ficava em torno de R$ 100 por mês, na conversão. A situação é mais precária ainda para quem é aposentado ou pensionista, o salário mensal fica em apenas R$ 15 – cobrindo muito pouco as despesas gerais domésticas, alimentação e saúde.

Por isso, uma vida no Brasil é tão atraente. Os imigrantes daqui conseguem se sustentar e ainda enviar dinheiro para a família.

Por que Curitiba chama tanto a atenção dos cubanos?

Mais que um clima agradável e uma cidade bem arborizada e esteticamente bonita, Curitiba oferece ao imigrante a chance de uma boa vaga de trabalho, custo de vida baixo em relação a outras capitais, baixos índices de violência, boa mobilidade urbana. “Um ponto interessante é que aqui estamos num momento econômico com muitas vagas em aberto, que não estão se fechando. É muita oferta de emprego. É um excelente lugar para um recomeço”, salienta o superintendente Gil Souza.

A população de imigrantes tem contribuído para o desenvolvimento do Estado, garante Gil. “Ele não ocupa o lugar de um brasileiro, porque tem funções que o brasileiro não está mais disposto a realizar. Nesse momento, a vinda dos imigrantes tem sido uma bênção para o Paraná, eles vêm de encontro com a oportunidade”.

Proprietário do restaurante Avenida Paulista, Roberto Magnani, viu na contratação de cubanos esta oportunidade. Há mais ou menos 2 anos, o empresário passou a acolher os imigrantes, com ensino e treinamento. “Focamos em completar o quadro de trabalho, focando na dignidade. Formamos vários profissionais na área da gastronomia, ao ponto que hoje temos três líderes cubanos na casa. O pessoal vai ascendendo”, revela. Hoje o restaurante conta com um staff de sete cubanos.

Well Ferreira, chef de cozinha, realizou o recrutamento de perto e é satisfeito com a equipe. “Não se tem atestado, nem faltas, nunca me deixaram na mão. Existe uma relação de cumplicidade. Eles hoje fazem parte de uma história que eu construí na Avenida Paulista. Não existe chef Well sem os cubanos”.

Agência do Migrante

Em Curitiba, a Agência do Migrante, é a primeira estrutura pública estadual do país que oferece atendimento a imigrantes, refugiados e apátridas. Inaugurada em novembro do ano passado, ela oferece auxílio com documentação, encaminhamento para vagas de emprego, atendimento psicossocial, acesso a políticas públicas como escola e encaminhamento para assistência médica gratuita.

Funciona na Avenida Marechal Deodoro, 806, de segunda a sexta-feira, das 8 às 17 horas.