Quando montou a loja de lembranças de Curitiba no Aeroporto Internacional Afonso Pena há três anos, o comerciante Cristiano Bertoli Scarante, 45 anos, nunca pensou que chegaria o dia em que abriria às 6h e só iria receber o primeiro cliente dez horas depois, por volta das 16h. Isso foi na quarta-feira (26), uma rotina de vendas baixíssimas desde que a pandemia de coronavírus chegou na metade de março.

O comerciante não é o único a sentir os efeitos da falta de passageiros. Com voos reduzidos e o medo do contágio, o normalmente movimentado saguão do aeroporto de São José dos Pinhais, na região metropolitana, está vazio. De acordo com a Infraero, empresa estatal que administra os aeroportos, entre março e julho de 2020, ou seja, já na pandemia, o número de passageiros no Afonso Pena caiu 81,5% em relação ao mesmo período de 2019, passando de 2,66 milhões de embarques para apenas 491 mil.

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Com esse deserto de passageiros no Afonso Pena, o reflexo vai além das lojas do aeroporto: taxistas sem corridas, risco de demissões nas companhias aéreas e empresas terceirizadas, estacionamento sem carros, entre outros. Um drama muito parecido com o da rodoviária de Curitiba, que também viu os passageiros sumirem na pandemia.

Segundo Bertoli, a média de faturamento da loja dele no Afonso Pena despencou cerca de 95% – na pré-pandemia, a loja tinha média de 30 a 50 clientes por dia. Além do número demonstrar que há poucos passageiros circulando pelo saguão, essa situação preocupa muito o comerciante por causa do valor do aluguel do ponto e das contas que se tornam quase que impossíveis de serem cumpridas. “Fica difícil honrar os compromissos. O ponto dentro de um aeroporto não é barato. Assinamos um termo com a Infraero e estamos deixando ir pra frente. O que tentamos são as vendas online”, lamenta o comerciante.

O comerciante afirma que além do baixo movimento, o medo de contágio só prejudica ainda mais a crise. “Por causa do vírus, o pessoal tem muito receio de entrar nos pontos de venda. Mesmo a gente tomando todos os cuidados possíveis”, explica Bertoli. A loja dele ainda enfrenta outro agravante, já que os produtos são souvenirs e as compras em aeroportos carregam como característica a decisão relâmpago do consumidor. Como as poucas pessoas que estão no aeroporto evitam circular por medo de pegar a covid-19, isso se reflete na loja. “A venda sempre foi uma coisa muito rápida, muito ágil. A pessoa faz o checkin e vem pra loja em cima da hora, antes de ir para o embarque. Mas a esperança é a última que morre. A gente tem esperança que melhore, que dê uma retomada”, aposta o comerciante.

Táxis

Outro termômetro que constata o baixo movimento no terminal são as corridas de táxi. A taxista Fernanda Adriana de Lima Silva, 41 anos, diz que houve uma leve retomada no movimento entre julho e agosto e que isso é sentido em alguns horários. Mas nada que se compare com o período pré-pandemia. “De manhã está dando um movimentinho. À noite também, mas não são todos os dias”, diz a taxista.

Taxista Fernanda Silva está fazendo apenas duas corridas por dia do Aeroporto Afonso Pena na pandemia. Foto: Alex Silveira / Tribuna

De acordo com a taxista, a média de corridas no Afonso Pena caiu 95% com o coronavírus. “Antes da pandemia, a gente chegava a fazer de quatro a cinco corridas por dia. Hoje, a gente está fazendo na base de uma a duas por semana. Nesses últimos meses, têm dias da semana que já aumentaram alguns voos e a expectativa é de que aumente cada vez mais”, torce Fernanda para poder recuperar um pouco o prejuízo.

Prevenção

Para prevenir o contágio, a Infraero orienta aos passageiros e funcionários no combate à doença. As ações incluem a instalação de adesivos de sinalização no chão e orientação por todo o caminho que o viajante faz para o embarque e desembarque, além de avisos em áudio e vídeo nos sistemas de som e painéis de voos e cartazes. O foco dos alertas é no uso de máscaras, não só no aeroporto, mas na própria viagem, além de distanciamento entre os frequentadores dos terminais e higienização das mãos.

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A nova sinalização está aplicada nos 47 aeroportos administrados pela empresa e a ação conta com o apoio das companhias aéreas. “Em relação a antes da pandemia, achei que está bem tranquilo agora. As pessoas estão se cuidando, banheiros estão limpos. As praças de alimentação estão tendo um cuidado maior”, diz o contador Vitor Rafael Silva Goes, 30 anos, que costuma viajar de avião com frequência e, recentemente, passou por aeroportos em São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Campo Grande (MS) e Brasília (DF). “Já estive em Curitiba este ano e estou até espantado. Têm poucas pessoas em relação aos demais aeroportos. São Paulo, por exemplo, é uma loucura. Nem parece que estamos em pandemia”, compara o passageiro.

Aeroporto Afonso Pena vazio na pandemia: prejuízo pra lojistas e taxistas. Foto: Alex Silveira / Tribuna do Paraná

Sobre fazer compras ou se alimentar nos aeroportos, Vitor diz que se programa para não precisar comer durante as conexões. “Já era de costume trazer alguma coisa na mala. Então, acabo comprando uma bebida ou algo assim”, conta.

Outro passageiro, o gerente de contas Eric Mendonça, 33 anos, diz que o baixo movimento tem sido mais geral. Ele costuma viajar a trabalho a cada 15 dias. “Diminuiu bastante. Eles pedem para chegarmos com duas horas de antecedência, porém a gente acaba esperando porque passa bem rápido pelo checkin”, aponta.

Mendonça destaca o cumprimento das exigências sanitárias contra o coronavírus. “Creio que estamos em segurança. Tem álcool gel em todos os lugares, dentro das aeronaves o pessoal tem seguido a regra, todo mundo de máscara o tempo todo. Está bem adequado ao momento que a gente está passando”, atesta o passageiro. 

Transporte aéreo

Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a demanda por voos teve queda de 78,9% em julho. Porém, mesmo com indicadores ainda decrescentes, dados revelam recuperação na comparação com mês anterior, após três meses de queda em março, abril e maio. Na comparação com 2019, os números ainda são decrescentes.

Dados do Anuário do Transporte Aéreo divulgados na quarta-feira (26) pela Anac mostram que o número de passageiros transportados na aviação civil brasileira em 2019 foi o maior já registrado na série histórica. Ao longo de todo o ano passado, 119,4 milhões de pessoas foram transportadas no mercado doméstico e internacional. O resultado foi 1,4% maior que o registrado em 2018. Trata-se da terceira alta consecutiva no indicador.

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Por outro lado, o número de decolagens no transporte aéreo apresentou redução de 1,7% no ano passado em comparação com 2018. No total, foram realizados 951 mil voos regulares e não-regulares. No mercado doméstico, a quantidade de decolagens teve retração de 1,4%, passou de 816 mil em 2018 para 805 mil no ano passado. As operações registradas no mercado internacional tiveram redução de 3,4% em 2019, totalizando aproximadamente de 146 mil decolagens.

Em 2020, ainda de acordo com os dados, os principais indicadores do transporte aéreo brasileiro sofreram grande queda pela pandemia mundial do novo coronavírus. Em abril deste ano, a quantidade de passageiros transportados foi aproximadamente 95% menor do que registrado no mesmo mês de 2019. Os dados de julho de 2020 mostram uma leve retomada, com quantidade de passageiros 81% menor na comparação com o ano anterior.

No início da pandemia, em março, o Afonso Pena tinha quase 195 pousos e decolagens programados por dia. Em maio, com a nova malha aérea anunciada pela Anac durante a pandemia, o Afonso Pena registrou uma média de sete voos diários. O Afonso Pena possui capacidade para receber 14,8 milhões de passageiros por ano. 

A reportagem pediu os números atualizados do Afonso Pena para a Infraero, mas a informação não havia chegado até o fechamento da matéria.