“A gente ia fechar o restaurante”. A afirmação do chef curitibano Erik Fillies foi dada após um apelo postado nesta semana nas redes sociais, contando o drama da falta de movimento no estabelecimento. Uma realidade vivida não só por ele, mas por tantos outros donos de restaurantes pelo país.

Em um longo texto com mais de 4 mil compartilhamentos até o fechamento desta reportagem, ele e a esposa, a publicitária Mariana Guedes, contaram que o restaurante Cozinha Pirata, no Jardim das Américas, em Curitiba, vinha vendendo uma média de cinco a seis pratos diariamente, longe da meta de 25 refeições para pelo menos pagar as contas.

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“A gente sempre posta alguma coisa nas redes sociais contando sobre o dia a dia, falando como foi o movimento – mesmo nos piores dias. Mas aquele foi realmente desesperador, tivemos apenas um cliente naquele dia e sem nenhuma perspectiva de retomada. A gente já estava pensando em ter que fechar as portas e sair procurar emprego. Seria duro demais, nós investimos tudo o que tínhamos aqui, uma derrota não só financeira, mas emocional também”, conta. O Cozinha Pirata é tocado apenas pelo casal, com alguma ajuda esporádica dos amigos.

Aberto há um ano e meio com um crescimento de clientes fiéis, quando um acidente destruiu quase a metade do restaurante. A obra de um prédio ao lado desmoronou e o fez fechar as portas por pouco mais de duas semanas. Tempo suficiente para os clientes debandarem.

“Se o dono fecha o restaurante por um tempo [como foi o caso do Cozinha Pirata], é certeza que vai perder o cliente fiel quando reabrir. As pessoas simplesmente perdem o hábito de ir lá e procuram outro lugar”, avalia o diretor da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes do Paraná (Abrasel-PR), Luciano Bartolomeu.

À reportagem, o chef e empresário contou que frequentemente precisava jogar no lixo muitos dos preparos mais perecíveis, que não podiam ser guardados para o dia seguinte. Tinha dias, segundo Erik, que comida suficiente para 30 pessoas era descartada, pois não havia clientes no almoço.

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Realidade de muitos

Apesar da postagem ter dado o fôlego necessário para a retomada dos negócios, Erik e Mariana viram que não eram os únicos nessa situação. Diversos comentários e mensagens também mostraram o desespero de outros donos de restaurantes – alguns disseram ter fechado as portas nesta semana.

“O mercado de restaurantes está saturado demais, é doloroso dizer isso, mas é a pura verdade. Tem estabelecimentos demais, mas a quantidade de clientes não aumentou na mesma proporção. Muito pelo contrário, a crise cortou em 40% a renda das pessoas, fora quem perdeu o emprego”, explica.

Em Curitiba são mais de 12 mil estabelecimentos de alimentação fora de casa (bares, restaurantes, lanchonetes, entregas de comida pronta), sendo 5 mil deles de pequenos comerciantes que sequer contam com um CNPJ. Em todo o Brasil, de acordo com a Abrasel, são mais de um milhão nessa situação.

Dados da entidade e do Sebrae apontam que a vida média de um restaurante no Brasil é de dois anos, se mantendo aberto por mais tempo apenas aqueles que conseguem fidelizar os clientes e inovar – se possível diariamente.

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Dia seguinte

Erik diz que até imaginou que a postagem teria alcance, mas não como tanto quanto ocorreu. Da noite para o dia, o pedido de ajuda já contava com a solidariedade de pessoas não só de Curitiba, mas de outras cidades do país, compartilhando e marcando amigos. Chefs de outros restaurantes se dispuseram a ajudar no que fosse possível, até mesmo seu antigo patrão, o chef Délio Canabrava, da Cantina do Délio, ofereceu uma compra inteira de insumos para a cozinha.

“No dia seguinte o restaurante lotou, precisei repor a comida duas vezes e fechar a porta mais cedo [às 13h20, e não às 14h como era usualmente]. Ainda assim, eu não consegui dar conta e o serviço atrasou muito. Mas pedimos desculpas para quem veio ao restaurante e para quem não conseguiu entrar, agradecendo pela solidariedade”, afirmou o chef que serviu no dia seguinte 50 refeições.

A reportagem acompanhou o serviço e constatou que muitos dos clientes cruzaram a cidade apenas porque viram o apelo de Erik nas redes sociais. Até mesmo pessoas que trabalham perto e nunca tinham parado no restaurante se solidarizaram com a mensagem.

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A assistente administrativa do Centro Politécnico, Vanessa Negrão, chegou cedo e ainda teve de esperar na fila. “Eu sempre passo correndo por aqui, mas nunca tive tempo de parar. Hoje eu vim, demorou um pouco mas gostei”, disse.

Pelo menos outras 20 pessoas chegaram ao Cozinha Pirata e foram embora por conta do tempo de atendimento. O cardápio do restaurante conta com 20 opções de pratos-feitos servidos diariamente, como arroz e feijão acompanhados de alcatra, bisteca e filé de frango, além de feijoada aos sábados. Os pfs custam em média R$ 18,90 cada, e a feijoada sai a R$ 25,80 com acompanhamentos.

Após o desespero, Erik viu que a situação não era um azar de principiante. O chef soma mais de 20 anos de carreira na cozinha, participou de uma competição culinária no programa da Ana Maria Braga em 2008, passou por grandes restaurantes de hotéis curitibanos como Four Points Sheraton e Mabu, e ainda implantou o refeitório do Tribunal Regional Eleitoral. Ou seja, experiência não faltava.

O objetivo agora é manter o movimento conquistado, com adaptações para ter perdas menores e não errar na mão dos pratos servidos. Mariana falou à reportagem que o cardápio passará por uma reformulação, possivelmente diminuindo a quantidade de opções servidas.

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