Numa entrevista por telefone, da Alemanha, Caroline Link informa que seu filme O Menino Que Fazia Rir fez quase 4 milhões de ingressos, e se trata de um número astronômico, que poucas obras logram alcançar no país. Mesmo assim, ela diz que não passou por sua cabeça, nem dos produtores, inscrever O Menino para o Oscar. “Sempre nos pareceu um filme muito local, está sendo uma surpresa descobrir que o filme pode ir bem com audiências no exterior.”

O Menino Que Fazia Rir baseia-se no livro do comediante Hape Kerkeling, que tem mais ou menos a idade da diretora – 50 e poucos anos. “Hape escreveu dois livros de sucesso, e esse foi o segundo. O primeiro também foi filmado, e teve empatia com o público, mesmo não tendo números tão expressivos como o nosso. Hape é profundo, é humano, e as pessoas percebem isso.” No limite, é uma história de família e Hape se espelha nos pais, tios e avós para fazer rir. Não apenas nas pessoas. “No final, ele diz que carrega a família dentro dele, mas também a paisagem, as flores, as aves. Pode parecer banal, mas é verdadeiro. Se você conversa cinco minutos com ele, percebe que é muito autêntico.”

Para Caroline, que teve uma infância não exatamente similar, mas na mesma época, em outra cidade pequena, era importante colocar na tela essa atmosfera particular de uma Alemanha para a qual a 2.ª Guerra, com todas as suas feridas, ainda era uma experiência recente. É uma história de perdas. Pessoas próximas ao pequeno Hape morrem, mas ele segue com sua irresistível vocação para fazer rir. “Dizem que todo grande palhaço é triste, e Hape é a expressão dessa melancolia, que transforma em força vital.” O repórter tece elogios ao garoto que faz o papel, Julius Weckauf, e a diretora conta – “Já dirigi muitas crianças e confesso que gosto desse frescor que elas trazem. Julius é incrível e, com os demais atores, sinto que criamos uma família de verdade. Ele era estreante, e a mãe, a avó são conhecidas da TV, mas ninguém é superstar. Realçam o aspecto de pessoas comuns que o filme retrata.”

Comuns, mas um tanto extravagantes. O passeio de carruagem, o prazer do garoto de se travestir. Hape chega a brigar com um parente que diz que ele daria uma linda garotinha. “É só representação!” É um filme muito bonito. A diretora conversa com o repórter às 10h da noite, de lá. “Vou dormir com os anjos”, brinca. “Saber que meu filme chega tão longe, ao Brasil, com esse acolhimento, gratifica a alma. O mundo anda tão difícil. Levar um pouco de calor humano às pessoas, sem falsificar a realidade, é tudo que quero.”
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.