A ética na publicidade nunca chegou a levantar polêmicas: a função dos anúncios é vender e ponto. Mas o embate entre Brahma e Nova Skin envolvendo Zeca Pagodinho levanta uma outra questão interessante: as “sugestões de consumo” dadas por artistas numa publicidade são confiáveis?. A “pulada de cerca” do sambista – que trocou de cerveja antes de terminar seu contrato -, deixou evidente que os famosos contratados podem virar a “casaca”. Seria mais ou menos como Ana Paula Arósio, exclusiva da Embratel, aparecesse em um comercial da Intelig, por exemplo, ou Carlos Moreno, o eterno “garoto-Bombril”, debandasse para um concorrente da palha de aço. “Agora todos vão pensar duas vezes antes de contratar um artista como garoto-propaganda”, reclama Eduardo Fischer, idealizador da campanha da Nova Skin.

Para Nizan Guanaes, publicitário responsável pela criação dos comerciais da Brahma, estão fazendo tempestade em copo d?água. Isto porque Nizan afirma que a atitude de Zeca Pagodinho é um caso isolado. O publicitário lembra que já havia rumores de que o sambista não estava se sentindo bem em anunciar a cerveja Nova Skin e que todos os amigos do pagodeiro sabiam que ele só gostava de tomar Brahma. Segundo Nizan, o que ele fez foi bolar um comercial em que se explorava a idéia de uma pessoa que tomou uma atitude por empolgação e depois se arrependeu. Para o publicitário, as campanhas testemunhais – quando uma celebridade dá seu testemunho de aprovação de um produto ou de uma marca -, não serão afetadas no mercado publicitário brasileiro. “É uma tradição que não será abandonada pelas agências, tanto que continuam contratando artistas para as propagandas”, defende-se Nizan.

Prós e contras

Já para alguns garotos-propaganda as opiniões se dividem. Camila Pitanga, por exemplo, tem contrato de exclusividade há anos com a marca de cosméticos Colorama e acaba de ser contratada pela Dali, marca internacional de perfumes. A atriz afirma que dificilmente protagonizaria uma propaganda de um produto concorrente do qual já defendeu. Por isso, garante que tem muito cuidado ao aceitar emprestar a sua imagem para anunciar um produto e só escolhe marcas que ela usaria sem pestanejar. “Não faço propaganda só pelo cachê e não trocaria de time pelo dinheiro”, jura Camila.

O “casseta” Bussunda -atualmente garoto-propaganda da Antarctica – pensa diferente. Bussunda cita, por exemplo, o fato de que antes de ser proibido, ele chegou a ser sondado para fazer comercial de cigarro e sempre negou pelo simples motivo de que é asmático. Bussunda garante, no entanto, que não vê problema em fazer comercial de marcas concorrentes, se ele for apreciador de ambas. E quanto ao contrato, o humorista afirma que se a multa de rescisão for paga, não há problemas em mudar de um produto para seu concorrente. “Mas teria de gostar dos dois produtos”, ressalva Bussunda.

Lei de Gerson

O fato de Zeca Pagodinho ter feito propaganda de um produto que não consome remonta ao caso do célebre ex-jogador Gérson na década de 70. Ele anunciava os cigarros Vila Rica e o slogan da campanha era a polêmica frase “pra quem gosta de levar vantagem em tudo”. O comercial foi muito criticado na época, pois a mensagem foi lida como se o importante fosse atingir o objetivo, de qualquer forma. A Lei de Gérson passou a classificar todos os espertalhões que se dão bem no País. Mesmo com a polêmica ou por causa dela , o comercial levou o Vila Rica a figurar pela primeira vez entre os dez cigarros mais vendidos no Brasil, até então dominado pelos produtos da Souza Cruz. Entre eles, o cigarro Continental, na verdade, o preferido de Gérson desde a época de jogador. “A lenda era de que Gérson preenchia com cigarros Continental seu maço de Vila Rica quando estava em público”, conta o publicitário Lula Vieira, sócio da agência V&S Comunicação.

Uns juram fidelidade, outros...

Cada artista é um caso. Chico Anysio, por exemplo, segue a escola antiga e jura que jamais abandonaria um produto que já anunciou. Ele lembra, por exemplo, que foi garoto-propaganda das sandálias Havaianas por mais de uma década ajudou a tornar célebre o slogan “não deformam e não soltam as tiras”. Por isso, na década de 90, voltou a ser contratado para o lançamento das Havaianas Top proclamando “isso é amor antigo”. Na época, o comediante foi sondado para fazer propaganda da Rider, concorrente das Havaianas. E recusou. “Seria uma traição aos espectadores. Não faria isso por dinheiro nenhum”, afirma Chico.

Mas nem todo mundo pensa assim. Luiz Fernando Guimarães segue a tática de nunca ficar muito tempo ligado a uma marca. Em 30 anos de profissão, o ator já fez mais de 50 comerciais dos mais variados produtos. Luiz Fernando, inclusive, já apareceu em propagandas de empresas rivais, como a Caixa Econômica Federal e o Unibanco. A questão é que o ator acredita que achou uma maneira de se manter neutro diante dos produtos porque, na maioria dos comerciais, ele aparece na pele de personagens criados pelas agências. “Mesmo assim, não anuncio qualquer coisa”, ressalta Luiz Fernando.