Fale com Ela, a grande estréia de hoje nos cinemas, é outro belíssimo trabalho de Pedro Almodóvar. Tolice especular se é melhor do que Tudo sobre Minha Mãe, que ganhou o Oscar, ou o precedente Carne Trêmula. São as obras-primas do autor, por mais interessantes que sejam momentos anteriores de sua singular trajetória. O Almodóvar que aparecia de brinco e meia-arrastão em Labirinto de Paixões superou o risco de pasteurização, pelo qual se podia temer, quando começou a trocar seus personagens marginais por outros “integrados”.

O filme de Almodóvar é triste no limite da dor. Trata de pulsões de amor e morte. Benigno e Marco encontram-se no começo, num teatro, durante a apresentação de um balé de Pina Bausch. Marco chora de emoção, Benigno o espia com o rabo do olho. Você pode até pensar que se trata de um par gay, dado o retrospecto de Almodóvar. Benigno é mesmo homossexual, Marco é um hetero sensível, por isso chora. Envolve-se com Lydia, uma toureira que sofre um acidente na arena e entra em coma. Marco reencontra Benigno no hospital, onde ele é enfermeiro e fala com Alicia, uma bailarina que também está em coma. Benigno acredita que falar com Alicia a mantém conectada com a vida. Marco, embora jornalista e escritor, não consegue falar com Lydia e ainda entra em choque ao saber que ela ia romper com ele naquele dia fatídico.

Caetano Veloso canta Cucurrucucu Paloma, Elis Regina canta Jobim e a chave do filme é uma frase desse último – “O amor é a coisa mais triste quando se desfaz”. A palavra (e o sexo) devolvem uma das personagens à vida, mas são a fonte de perdição de um dos homens.

O próprio Almodóvar considera Fale com Ela um de seus filmes mais densos e difíceis. Define os papéis interpretados por Javier Cámara (Benigno) e Dario Grandinettti (Marco) como “complicados”. Talvez sejam, mas a experiência de ver e recriar esse filme no inconsciente é algo raro no cinema atual. Perguntaram ao autor qual era a mensagem de seu filme. Ele disse: “Vá vê-lo”. E acrescentou: “Há outra mensagem subliminar: conte aos amigos”. Você deve fazer o mesmo. Pelo prazer do cinema e enriquecimento da vida.