Cinema em cena
Scarlett Johansson aparece no papel de uma repórter carreirista.

São Paulo (AE) – Há dois anos, em Cannes, Woddy Allen fingiu surpresa – só pode ter sido fingimento -, quando jornalistas de todo o mundo, na coletiva após a exibição de Match Point, assinalaram as semelhanças entre a história de seu filme e a do clássico Um lugar ao sol, que George Stevens adaptou do romance Uma tragédia americana, de Theodore Dreiser. Jonathan Rhys Meyers faz o jovem arrivista que espera ascender socialmente, casando-se com uma rica herdeira, mas a namorada pobretona engravida e ele pratica o crime perfeito, permanecendo impune. Allen foi adiante de George Stevens, que em seu filme, nos anos 50s, puniu o personagem de Montgomery Clift pelo crime de intenção. Ele queria matar Shelley Winters para ficar com Elizabeth Taylor, mas ela morre antes, num acidente, o que não absolve o rapaz.

Allen agora assume. Em Scoop – O grande furo, que estréia neste final de semana, é uma conseqüência de Match Point, uma espécie de marcha à ré no jogo proposto pelo filme anterior, cujo título remete a uma regra do tênis. Há agora outra tentativa de crime, para eliminar uma testemunha indesejável, e ela ocorre num barco a remo, como aquele em que passeavam Montgomery Clift e Shelley Winters em Um lugar ao sol. Allen não poderá, de novo, invocar uma mera coincidência. Scoop possui qualidades e deverá agradar aos tietes do humor inteligente do autor, mas não é um grande Woody Allen. É mais um Match Point filtrado pelo espírito um tanto frívolo de muitas de suas comédias posteriores ao escândalo que envolveu o rompimento com Mia Farrow. Elas são divertidas, fazem algumas observações pertinentes, mas nem de longe se elevam aos pináculos de Manhattan, Hannah e suas Irmãs, Zelig, A Rosa Púrpura do Cairo e Maridos e esposas.

O clima está mais para Misterioso assassinato em Manhattan e O escorpião de jade, mostrando como Scarlett Johansson, no papel de uma repórter carreirista, participa do número de um mágico e termina descobrindo um segredo. Jornalista famoso que morreu (veja para saber como ele faz isso) lhe sopra a revelação de que um aristocrata está envolvido na misteriosa série de crimes batizada pela imprensa como ?crimes do assassino do tarô?. Com a ajuda do mágico atrapalhado – o próprio Woody Allen -, Scarlett inicia sua investigação e o resultado é que se envolve com o nobre interpretado por Hugh Jackman. Apaixona-se e negligencia a própria segurança, duvidando de que ele seja culpado.

Scoop desenvolve-se por meio de um qüiproquó de tiradas românticas e lances de mistério ou suspense, com repetidas referências a Alfred Hitchcock. Às vezes, passa a impressão de um Woody Allen de segunda mão – até os números de palco impressionam menos que os do mágico edipiano do episódio de Contos de Nova York ou então os dos artistas que Allen agenciava em Broadway Danny Rose. Várias dúvidas ficam no ar – Allen depurou seu estilo até o limite ou simplesmente está-se contentando em virar um diretor de obras menores? Sua grande fase passou? Essas questões já duram algum tempo (desde a ruptura com Mia). Também perseguiram a fase final de outro grande diretor, Robert Altman, que foi domando (ou aprimorando) sua veia satírica – o que você acha? Com Match Point, Allen pareceu recomeçar. Foi só um momento, como Scoop, agora, indica.