Há quem diga que futebol é apenas um jogo com onze homens de cada lado correndo atrás de uma bola. Há quem entenda que futebol é paixão, é emoção, é sangue nas veias, é coração pulsando. Dentre essas duas perspectivas, eu sempre escolhi perceber que a mágica que acontece dentro das quatro linhas, durante os 90 minutos, é apenas uma parte do universo imenso que envolve o esporte da bola nos pés. Existe muita coisa que o futebol proporciona e que vai além de táticas, números e placares que – deixando claro – também fazem parte do todo.

Confira a matéria com o trio pra lá de especial

A prova da minha teoria? Vinicius, Henrique e Danilo.

Perante o mundo eles foram diagnosticados como pessoas com Síndrome de Down, portanto, diferente dos demais. Diante suas paixões, eles fazem parte da massa que ama o futebol e se tornam, em meio à multidão, iguais a outros tantos.

O futebol é tão especial que o amor que eles têm pelos times do coração permitiu que pudessem ser eles mesmos. Sem rótulos, sem conceitos pré-estabelecidos, eles são aqueles garotos que gostam de futebol e adoram ir ao estádio.

A ideia para escrever a história dos três surgiu por acaso.

Juliana fez questão de tirar uma selfie com a galera. Foto: Juliana Fontes
Juliana fez questão de tirar uma selfie com a galera. Foto: Juliana Fontes

Em uma cobertura esportiva já tinha visto Danilo no setor social da Vila Capanema. No último dia 7, no jogo entre Paraná Clube e Coritiba, o torcedor e seu pai, Luiz Fernando, sentaram-se quase em frente à bancada da imprensa, onde eu estava a postos para escrever sobre a partida. Olhei para eles e pensei: esse rapaz deve ter uma história interessante para contar. Coincidentemente, pesquisei e vi que dali a alguns dias seria o Dia Internacional da Síndrome de Down, mais um motivo para torná-lo personagem de uma matéria.

Fui até os dois, chamei o senhor Luiz Fernando, me apresentei e perguntei o que achariam de darem entrevista à Tribuna do Paraná. Minha atenção naquele momento foi direcionada à aprovação do pai. Muito educado, Luiz Fernando virou-se para mim e disse: acho bacana, mas veja com o Danilo!

Naquele momento me senti uma tola. É lógico que deveria perguntar diretamente para o rapaz! Foi aí que comecei a conversar com Danilo e entender como ele era especial. Ele apressou-se em me passar seu número de celular e se colocou à disposição. Por meio do WhatsApp combinamos como seria a entrevista.

Voltei ao meu lugar na bancada e logo pensei que seria incrível contar a história de um torcedor atleticano e um coxa-branca, também com a síndrome. Foi aí que eu me lembrei de ter visto uma foto de Henrique com Lucho González.

Contato feito com Marco, pai de Henrique e, com a ajuda de uma conhecida, com Arnaldo, pai de Vinicius, marcamos a conversa para sábado, dia 18.

Esperava descobrir boas histórias, mas do momento os entrevistados chegaram à redação do jornal até quando foram embora, cerca de duas horas depois, ganhei carinho e me contagiei com a alegria dos três.

O menino Henrique tem 9 anos. A mesma idade do meu filho. A cada sorriso, a cada abraço que ele me deu – ele gosta de abraçar – e a cada pergunta curiosa do tipo: por que você quis ter um filho? Eu via naquele rostinho a mesma ingenuidade que vejo quando olho para o Eduardo, meu pequeno. Falante, é impossível não se contagiar com a alegria dele. Sabe quando você tem a vontade de guardar alguém “num potinho”? Foi esse sentimento que tive por ele. Na redação, ele também deixou as outras repórteres encantadas.

Bom de papo

Danilo tem 33 anos. Nasceu no mesmo ano que nasci. Contou para mim sobre seu trabalho, suas conquistas no esporte, sobre sua namorada e seus planos de casar. Vi nele um amigo. É do tipo de pessoa que não dispensa um bom papo. Certamente eu poderia ficar horas conversando com ele, falando de futebol ou qualquer outro assunto. Em certo momento, a namorada Karina, que esteve junto no dia da entrevista, ficou chateada porque também queria falar com a repórter. Danilo, como bom namorado, a abraçou, a consolou e explicou que “já já” chegaria a vez dela. Falei para os dois para não se esquecerem de me convidar para o casamento!

Vinicius é o mais tímido. Desconfiado, primeiro ele observou tudo que estava acontecendo. Mas foi só falar do Coxa e pronto! Que alegria dele ao lembrar que a bateria da torcida organizada cantou parabéns para ele. Contou que gosta de jogar bola e que até chegou a quebrar os dentes em uma partida. Acontece! Contei para ele que nos parecíamos. Tenho oito pinos no pé esquerdo por causa do futebol. Não é fácil ser “boleiro”!

Pedi para tirar uma selfie com os quatro – além dos entrevistados, também com Karina, namorada de Danilo – e Vinicius tratou de me dar um beijo. Certamente, ganhei novos amigos!

Eles saíram felizes, me agradecendo porque teriam suas histórias publicadas no jornal. Mal sabiam eles que eu é que deveria agradecê-los pela lição de vida que me deram.