Muricy Ramalho passou 16 dias na Itália ao lado da mulher Roseli. Passou por 24 cidades, desfrutou de excelentes massas e da hospitalidade dos italianos. Futebol? O treinador acompanhou o movimento do mercado de jogadores e leu uma notícia ou outra dos times brasileiros… O afastamento obrigatório para cuidar da saúde em março fez o ex-técnico do São Paulo parar para refletir.

Em entrevista exclusiva, concedida no condomínio onde mora próximo ao estádio do Morumbi, em São Paulo, ele admitiu que não sente falta do esporte ao qual se dedicou por mais de 40 anos e que pode se aposentar definitivamente do banco de reservas.

A decisão será tomada no final deste ano ou começo do próximo, quando Muricy Ramalho estará com 60 anos. Até dezembro, o treinador, que recusou três propostas recentemente, pretende descansar no apartamento em São Paulo, no sítio em Ibiúna, no interior paulista, ou no litoral.

Agência Estado – Está conseguindo descansar?

Muricy Ramalho – Desta vez, sim. A última vez que parei um tempo foi quando saí do Santos e também tinha a intenção de ficar uns seis meses parado, mas veio o convite do São Paulo. Agora estou dando um tempo e gostando. Inclusive, antes de ir para a Itália, na véspera da viagem, tive o convite de um time grande do Brasil. Antes disso tive o convite de dois times do Brasileirão e disse que não ia trabalhar este ano. Estou gostando de estar parado.

AE – Pensa em largar a carreira de técnico? Trabalhar em outras funções?

Muricy Ramalho – Já pensei nisso. Estou me estranhando porque até agora não estou com vontade de voltar. Até falei para a minha mulher que isso está esquisito. Não sou assim. A essa altura, no passado, estaria doente para voltar depois de uma semana. Agora não estou. Já pensei em outras coisas também porque acho que falta, nesse intermédio entre diretores e treinadores, gente capacitada, do futebol, com boa intenção. O meu pensamento ainda é voltar a trabalhar no campo, mas de repente pode ser uma ideia. Claro que tenho de ir para um lugar onde tenha autonomia, onde aceitem o meu jeito, sou muito difícil, sou radical. Mas tem essa possibilidade, sim, de quem sabe não ir para o campo e ficar perto, próximo ao técnico.

AE – Por que o futebol brasileiro decaiu?

Muricy Ramalho – Tem muitos fatores. A organização está muito ruim. O futebol é negócio, mas o nosso é muito negócio. E isso passa para os jogadores. Quem está na base, com 15 anos, não pensa em jogar no time profissional, pensa em jogar fora. Acho que tem de se mudar muito de cima para baixo. Falta gente do futebol que faça alguma coisa pelo futebol. Esse negócio de gente que é de fora do futebol para mim não combina. O cara não tem isso nas veias. Para ele é só um negócio e isso está matando o futebol brasileiro. Depois da Copa do Mundo, deveriam ter parado para conversar sobre futebol e ver o que se pode fazer. Tinham de chamar todos os segmentos, se reunir por 10 dias no Rio e discutir. Convidar pessoal da base, imprensa, marketing, treinadores, fisiologistas… Mas não, uma semana depois contrataram o técnico e foram embora, segue o barco. Tem de mudar muito. Os grandes descobridores de jogadores, que são os clubes pequenos, quebraram por causa da Lei Pelé. O cara não tem segurança nenhuma. Claro que não pode ser como no tempo em que eu jogava, porque éramos quase escravos. Fizeram esses dias uma “mentirinha” antes do Brasileiro, reuniram os técnicos durante um dia, contaram histórias um para o outro e ficou por isso mesmo. É só para inglês ver, entendeu? Tem de ter gente que é do futebol, gente correta, e isso está em falta no nosso país. Infelizmente a gente vê só coisa ruim. É muito simples falar dos técnicos, mas não é só isso. A gente não faz mais craques. Alguma coisa está errada, o futebol está acabando. Nossa seleção está igual às outras. Só tem um jogador, e quando ele não está fica igual ao Paraguai. A gente fala isso faz tempo, mas fica nessa entrevista, depois sai e no dia seguinte todo mundo já esqueceu.

AE – Perdemos a oportunidade de repensar o futebol depois do 7 a 1?

Muricy Ramalho – A nossa mentalidade está ruim em tudo. Tomamos de sete, agora o nosso presidente (José Maria Marin) está preso na Suíça, então estamos tendo várias oportunidades de mudar tudo, trazer caras do futebol como Zico e Raí. São pessoas inteligentes, acima da média e acima de qualquer suspeita. Não se pode ser tão simplista e só falar dos técnicos. É muito fácil. Falando só disso, os outros que estão tirando proveito ficam só na boa. Tem de se fazer algo amplo. Tem de ter um congresso. Conversei com o Gilmar (Rinaldi) esses dias e sempre faço alguns pedidos para ele com relação à seleção. Temos de criar um curso para treinadores, com formação internacional. Tem cursos lá fora que são uma mentira. Os caras te recebem e nem olham na tua cara. Temos de fazer um curso longo, não de uma semana, mas no padrão alemão, de um ano ou até dois anos, com gente de fora. Sempre peço algo porque é o único canal que tenho na CBF. Se a gente ficar só no simplismo, não vai ter jeito. Daí os caras que mandam no futebol vão continuar mandando e fazendo tudo o que querem.

AE – Além da saúde, a desilusão também pesou na decisão de se afastar?

Muricy Ramalho – Estou de saco cheio porque é difícil ser correto. Toda hora tem alguma coisinha para tentarem tirar proveito e não viro as costas para agradar o cara por causa do meu salário. Tem hora que incomoda. O futebol está afundando e a gente está sem fazer nada. Estamos parados e só se pensa em negociações. Isso para mim é demais. Brigo mesmo. Até por isso tive um monte de coisa, de gastrite até problema de coração. É que eu não deixo passar. Você rema para um lado e os caras para o outro. Agora, neste momento, não estou com vontade nenhuma de voltar a trabalhar. Nenhuma. E olha que não tive convite pequeno, foi algo grande. Para não estar com vontade é porque as coisas estão feias. Minha vida é o futebol, mas não é só o salário, é a parceria, ter o mesmo pensamento.

AE – O futebol precisa recuperar a credibilidade dentro e fora de campo?

Muricy Ramalho – Mais dentro de campo. Quem faz a diferença é o jogador, em qualquer lugar. O técnico é 25 %. Não pode ser só simples como fazemos aqui, a discussão deve ser mais ampla. É mentalidade, temos de voltar a ser um pouco o que éramos, porque perdemos a essência. O moleque começa com 15 anos, dá um chute e já quer ganhar uma casa, determina um valor, senão ameaça ir embora. Tem de fazer uma reciclagem total do futebol brasileiro.

AE – Logo depois da Copa do Mundo, Marin colocou o Alexandre Gallo e prometeu uma revolução…

Muricy Ramalho – Até achei que fosse mudar o mundo. Para que isso aí? Achei que já tínhamos ganhado a Copa de 2018. Daí a pouco depois mandaram o Gallo embora. Isso é falta de convicção, é conversa mole para dar uma amenizada no 7 a 1. Um está preso e o outro não está mais. Vai me desculpar, mas isso não é sério. Depois de tomar 7 a 1 em uma Copa… Nós não somos trouxas. Todo dia querem nos convencer com palavras. O brasileiro está com o saco cheio. Não dá mais para se fazer futebol de boca porque o cara pega o microfone e faz o que quer com as palavras, mas não acontece nada. Nosso exemplo está aí, o nosso presidente está preso. Não estamos bem porque o cara que comanda o futebol brasileiro está preso. Temos de repensar tudo. Temos condições de fazer isso desde que tenha pessoas sérias nos lugares que comandam. Tem cura, mas se não fizermos alguma coisa acabou o futebol.

AE – Após cinco anos, você mudou a sua avaliação sobre o convite para treinar a seleção?

Muricy Ramalho – Não sou louco, sou muito consciente e só vou entrar em um lugar se tiver confiança. Surgiu a oportunidade de ir para o Fluminense e me ofereceram um contrato longo. Recusei. Só que começou a dar certo e acertamos por dois anos, mas não tínhamos assinado. Estávamos em segundo no Brasileirão, vínhamos muito bem, ganhamos do Cruzeiro em casa e assumimos a liderança. Quando fui para o estacionamento chegou um rapaz e disse: “Sou da CBF e o presidente (Ricardo Teixeira) gostaria de falar com você amanhã”. Eu concordei. No meu pensamento, durante a noite toda, é que vou para uma reunião séria, fechada na CBF, em uma sala, com apresentação do projeto da Copa do Mundo de 2014. Era o mínimo. Mas fomos para um clube de golfe, com um monte de gente. Aí o cara vem, me atende de bermuda e estava uma baita loucura. Ia começar a Copa assim? Ele me chamou para tomar um café e discutir Copa, com garçom vindo toda hora, torcedor com a filha dele. Como se pode ter convicção de que você será o técnico de 2014 e não será atropelado no meio do caminho? Não falamos de salário, comissão técnica nem nada. Foi uma conversa de 3 hora e meia para nada. Se não sentir firmeza, não troco. Não adianta falar que vou ganhar o maior dinheiro do mundo. No final ele fez a pergunta chave: “Está tudo certo, você é o técnico da seleção?” Eu disse que tinha um probleminha, e ele me olhou com um jeito arrogante e perguntou o que era. Respondi que era o Fluminense. Não poderia simplesmente cair fora. No fim ele pediu para resolver e eu respondi que estava resolvido. Fui direto para as Laranjeiras porque a torcida estava me esperando para saber a minha resposta e foi uma festa. Nesse dia começamos a ganhar o Brasileirão. Não fiz aquilo pensando em nada, não ia adivinhar. Não acertei porque o cara não me deu firmeza. Teria de ser algo mais sério do que foi. Depois disso fui campeão brasileiro, saí e vim para o Santos, onde fui bicampeão paulista, campeão da Libertadores e da Recopa. Não me arrependo nem penso mais nisso.