Enquanto Atlético e Coritiba voltam seus interesses para o campo, um na Libertadores e outro na Copa do Brasil, a guerra dos bastidores continua. Afinal, a dupla Atletiba continua seu confronto com a Federação Paranaense de Futebol. Neste momento, a batalha é no campo da Justiça. O plano das diretorias é, por dois caminhos, “inundar” a entidade de ações de ressarcimento a ponto de inviabilizar a gestão – e de ser pedida a intervenção na FPF ou o afastamento do presidente Hélio Cury. Ao mesmo tempo, os clubes também são alvo do Ministério Público e do Procon. E pode pintar multa de até 8 milhões de reais para os envolvidos.

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O clássico está previamente remarcado para o dia 1º de março, mas os clubes estudam uma outra data. Ficou combinado entre a dupla Atletiba que vai se esperar a definição da participação do Atlético na Libertadores, que acontece nesta quarta-feira (22), para a marcação do jogo. A tendência é que até as 18h desta quinta (23) seja oficializada a nova data, que não conflite com as competições em andamento. A FPF já disse que aceita uma data acordada por Atlético e Coritiba.

Como ficou evidente para quem acompanha a história, a queda de braço entre a dupla Atletiba e a Federação é o núcleo da crise. Em jogo, estão o poder e o dinheiro. No centro da mesa, quem terá a primazia de negociar os direitos de transmissão do Campeonato Paranaense. Foi o que levou ao impasse do clássico do último domingo (19), quando Atlético e Coritiba acertaram a transmissão pela internet. A cobertura era legítima, mas a FPF, alegando a falta de credenciamento dos profissionais do canal Esporte Interativo, impediu o início do jogo.

A dupla Atletiba adotou uma estratégia conjunta. Desde o domingo, os clubes confirmaram que iriam entrar na Justiça Desportiva e na Comum pedindo punição à Federação Paranaense pelos danos causados pela não realização do jogo e pela não transmissão da partida. No lado cível, o objetivo é conseguir uma alta indenização – não para que seja cobrada, mas que sirva de “peça publicitária” para complicar ainda mais Hélio Cury. Aí entraria a esfera esportiva, num possível pedido de afastamento do cartola, que se não fosse aceito poderia também ser tentado na justiça comum, através de intervenção.

No dia do clássico, os dirigentes falaram. Agora, é hora de silêncio. Foto: Hugo Harada
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Ninguém fala oficialmente. Conversando com os jornalistas, os principais dirigentes dos clubes não se manifestam sobre as possíveis ações. Há três motivos: o primeiro é para que os departamentos jurídicos trabalhem em silêncio e sem pressão; o segundo é para que não se fale nada que não seja juridicamente errado (“Posso dizer algo e atrapalhar o processo”, afirmou um dirigente) é porque o segredo é a alma do negócio (ou do processo, no caso). Da mesma forma, a FPF se fechou em copas depois de se expor nos últimos dias, se preparando para o que pode vir.

Além disso, há a posição do Tribunal de Justiça Desportiva, que deve se pronunciar sobre a súmula do árbitro Paulo Roberto Alves Júnior. Lá, ele relata que antes do clássico Atletiba houve pressão para que o jogo começasse com os profissionais (18, segundo o juiz) do Esporte Interativo. As atitudes mais veementes teriam partido do diretor de marketing do Atlético, Mauro Holzmann, que é o braço direito do presidente do conselho deliberativo do clube, Mário Celso Petraglia. Petraglia e Rogério Portugal Bacellar, presidente do Coritiba, são os comandantes da estratégia contra Hélio Cury.

Torcedores

Foto: Hugo Harada
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Os clubes se movimentam e os torcedores também. Centenas deles já se reúnem em ações conjuntas contra a Federação. O pedido também é de indenização pelos danos causados pela não realização do Atletiba. Outros estão entrando com ações individuais, o que vai gerar uma avalanche de protestos na Justiça contra a FPF. No mínimo, é uma complicação logística, mas pode virar um efeito dominó financeiramente devastador. Por isso, já se montou uma “equipe de crise” para administrar toda a repercussão que a crise do clássico vem trazendo para a entidade. E por enquanto ela é péssima para Hélio Cury.

Poder

A saída de Cury, que foi tentada via eleição, poderia significar uma mudança no eixo do poder. Hoje, até pela tomada de posição do Paraná Clube, o presidente da FPF tem tranquilidade no comando. Tem grande apoio nos clubes profissionais e amadores, e isso lhe dá maioria no colégio eleitoral. Mas, mesmo que isso tenha pouco valor nos bastidores do esporte, a opinião pública está totalmente contra ele. E se a maré seguir e influenciar os próximos passos da crise, a FPF pode ficar em maus lençóis. Só que, sem qualquer respaldo dos outros clubes, a dupla Atletiba também não tem força interna para emplacar um presidente.

Esclarecimentos

Enquanto a briga se acirra em silêncio, Procon e Ministério Público se manifestaram. O MP-PR quer saber da Federação e da dupla Atletiba o que realmente aconteceu para que o clássico fosse cancelado. Em ofício enviado às três partes, o promotor Maximiliano Deliberador pede vários esclarecimentos. Sobre a transmissão via internet, se houve troca de informações entre FPF e clubes, a forma de credenciamento, a súmula da arbitragem e principalmente a versão de cada um para a confusão. Atlético, Coritiba e Federação têm dez dias para responder ao MP.

Claudia Silvano, do Procon, avisa: a multa a clubes e FPF pode ir de 600 mil a 8 milhões de reais. Foto: Arquivo

Já o Procon, apesar de já ver os clubes anunciando e promovendo o reembolso do valor dos ingressos aos torcedores, ainda quer multar todo mundo. A notificação já foi enviada e agora a dupla Atletiba e a FPF devem enviar suas defesas. “O cancelamento do jogo pareceu ter origem em uma prática abusiva, especialmente pela forma que aconteceu”, disse Claudia Silvano, diretora do Procon. E a parada não vai ser mole. A multa pode ir de 600 mil a até 8 milhões de reais.