Acompanhamos no último final de semana mais um capítulo do seriado “vamos entregar o jogo”. Foi a conversa da vez antes da rodada decisiva da primeira fase do Campeonato Paulista. Muitos torcedores do São Paulo pediam nas redes sociais para o próprio time entregar o jogo para o Guarani, e com isso o Corinthians ser eliminado da competição. Não aconteceu – mesmo com os reservas, o tricolor paulista venceu, e com o triunfo sobre o Oeste o Timão se classificou para o mata-mata.

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Mas a discussão sobre o pedido para entregar o jogo, tratada brilhantemente pelo Paulo Vinícius Coelho em seu blog no GE (não ouviu ele no podcast De Letra? Ouve aí!), fez pensar em como muita gente lida com o futebol. Em como torcer para um time pode na verdade ser apenas torcer pela derrota do outro. Um fenômeno que é do esporte brasileiro.

Sempre foi assim

Uma das primeiras corridas de Fórmula 1 que lembro de todos os detalhes é o GP do Brasil de 1986, o da dobradinha entre Nelson Piquet e Ayrton Senna. Já tinha visto outras, aprendi a ler com uma notícia de automobilismo, mas acho que aquela corrida eu nem preciso rever. E um dos fatos mais marcantes para mim é a festa da torcida quando da saída de Nigel Mansell da prova. Faltava muito para acabar o GP, mas parecia que nem precisava acontecer mais nada.

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É um exemplo pra mostrar que essa história de ‘torcer contra‘ existe. Também há isso entre os argentinos, principalmente quando somos derrotados no futebol, mas é um grau menor. Aqui é muito assim. O fracasso do rival é tomado como um sucesso. Quantas vezes vemos pessoas soltando foguetes em derrotas do principal adversário?

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Não estou reclamando da secação, da piada, da gozação. Isso tá no preço, é do esporte e precisa ser preservado. Mas é, como diz Luís Fernando Veríssimo, da ‘importância relativa das coisas’. Pare pra pensar, pense muito bem. E seja sincero: você vibra mais com a vitória do seu time ou com a derrota do rival?

Extremo: entregar o jogo

Esse tipo de conduta de muitos torcedores é repercutido e também potencializado pela mídia. Quantos profissionais que militam na comunicação sobrevivem às custas de polêmicas vazias? E com a distribuição imediata das redes sociais, vira a história do biscoito: a imprensa trata do assunto porque os torcedores falam ou os torcedores falam porque a imprensa trata do assunto?

A simples menção em entregar o jogo já deveria ser rejeitada. Quem torce de verdade por um clube não pode achar que perder uma partida pode ser algo bom. “Ah, mas os caras vão se ferrar se a gente entregar”. Tá, e se for o contrário daqui a um ano? Você vai ter a mesma opinião ou aí vai dizer que “isso envergonha o esporte”. Perder de propósito é uma vergonha se você vestir branco, preto, verde, azul, amarelo, vermelho ou “creme de marisco” – sim, essa cor existe.

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Já escrevi aqui algumas vezes que o futebol se julga diferente de tudo. Então, sempre há alguém para passar pano de racismo, misoginia, homofobia, violência e corrupção – “a favor do meu time vale tudo”. Mas não, não vale. Pergunto: é certo se alguém deliberadamente usar o dinheiro público em benefício próprio? Se você acha que uma coisa não tem a ver com a outra, pense um pouco mais.

Autofagia

Mário Celso Petraglia, presidente do Athletico, adora usar a expressão “autofagia” para reclamar de quem o critica. Na essência, o cartola tem razão na existência dessa postura. Há quem viva esperando o fracasso alheio para ganhar espaço. Quem tem capacidade não precisa disso – o outro pode ter todo o sucesso do mundo, mas se você for competente terá o seu sucesso.

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Quem pede para seu próprio time entregar o jogo age assim. E se os dirigentes entram na pilha dos torcedores e admitem esse tipo de possibilidade, só alimentam uma postura que, tenham certeza, faz a gente ficar parado no tempo. Pro futebol brasileiro ser maior, todo mundo vai precisar melhorar – não só o seu time. Sempre jogando a valer, e aí quem for melhor vai ganhar.


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