Estamos vivendo uma situação muito estranha na nossa geração – estamos sem qualquer competição de futebol, todos os principais campeonatos do Brasil e do mundo foram suspensos por conta da pandemia do novo coronavírus. E a interrupção do Campeonato Paranaense é fato novo pra quase todos nós, é preciso viajar no tempo para lembrar situações semelhantes.

A primeira vez

O Campeonato Paranaense de 1918 foi suspenso por três meses por conta da pandemia da gripe espanhola – em outra época, com outros padrões de higiene e saneamento, a doença matou 50 milhões de pessoas pelo mundo. Assim como em 2020, com o coronavírus, naquele ano o poder público decretou a interrupção de eventos com aglomeração, além de fechar cinemas e ‘casas de diversão’.

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A competição foi interrompida em outubro e só foi retomada em janeiro de 1919 – inaugurando uma tradição, que percorreu décadas, de terminar o Campeonato Paranaense só no ano seguinte. O Britânia levantou a taça, a primeira conquista de seu hexacampeonato.

No jornal A República, a pandemia da gripe espanhola. Foto: Reprodução/Biblioteca Nacional

Política em campo

Em 1930, a revolução que levou Getúlio Vargas ao poder fez com que o futebol tivesse que sair de cena por um tempo. A agitação política paralisou o Campeonato Paranaense por três meses e meio. A longa crise, que durou praticamente todo o ano, teve momentos de altíssima tensão, como o assassinato de João Pessoa (que nem foi por causa disso, mas provocou a reação dos partidários de Vargas).

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O movimento que mudou o Brasil tem como data fundamental o 3 de outubro, quando as tropas gaúchas se rebelaram. Um mês depois, Vargas era empossado presidente, dando início a um período de 15 anos no poder. O Campeonato Paranaense voltou em dezembro e terminou em janeiro do ano seguinte, com o título do Athletico.

O Athletico campeão de 1930. Foto: Divulgação/CAP

Regulamento da discórdia

Em 1935, o Campeonato Paranaense teve a seguinte fórmula: oito times jogavam o primeiro turno e os quatro melhores iriam para a segunda fase – carregando a pontuação inicial. Após as sete rodadas, Coritiba, Ferroviário, Britânia e Palestra Itália (os três clubes que fundiriam em 1971 para criar o Colorado) eram os primeiros. E Athletico, Savóia e Junak pediram a mudança do regulamento para que todos jogassem o returno.

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Palestra e Britânia chegaram a jogar pela segunda fase no final de dezembro, mas a partida foi anulada e o campeonato interrompido. Foram três semanas de discussões até que em janeiro de 1936, com a mediação do professor Souza e Silva, embaixador do Flamengo (isso mesmo), chegou-se a um acordo, encerrando o Paranaense com os resultados do primeiro turno e o Coritiba como campeão.

No Diário da Tarde, o alívio pelo fim da confusão do Paranaense de 1935. Foto: Reprodução/Biblioteca Nacional

No meio do Campeonato Paranaense

Se você olhar as tabelas do Campeonato Paranaense nas décadas de 1930 e 1940 pode achar que tivemos problemas em todos os anos, porque há sempre um período de dois ou três meses sem partidas. Mas o que acontecia neste período é que outras competições aconteciam neste tempo ‘livre’ – como torneios extras e de seleções estaduais. Após o desfecho dessas competições intermediárias, retornava normalmente o nosso campeonato.

Guerra? Copa?

O Campeonato Paranaense não sofreu interrupções em momentos históricos. Durante os anos de II Guerra Mundial, a competição seguiu normalmente, mesmo depois da entrada do Brasil no confronto, em 1942. E em 1958, ano do nosso primeiro título na Copa do Mundo, com Pelé e Garrincha, os jogos rolaram ao mesmo tempo do Mundial – com a devida antecipação da última rodada para 28 de junho, véspera da decisão entre a seleção brasileira e a Suécia.

A maior parada

Em 1976, um impasse parou o Campeonato Paranaense por sete meses. Após três fases, jogadas entre 1º de fevereiro e 1º de agosto, o regulamento da fase final gerou uma crise gigante. Athletico, Colorado, Coritiba e Londrina não se entenderam, a Federação Paranaense de Futebol não conseguiu gerenciar a confusão, o STJD entrou na parada e o resultado foi a suspensão do Estadual.

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No tempo em que entrar na Justiça Comum não dava punição, os clubes não tiveram dúvidas e mandaram ver. Como o Campeonato Brasileiro logo começaria, não havia datas para fazer o quadrangular até o final do ano. E a decisão do Paranaense só começou em 6 de março de 1977, exatos 217 dias depois do início do imbróglio. E o Coritiba acabou conquistando o hexacampeonato.

Diário da Tarde dando aquela paulada nos clubes e na FPF. Foto: Reprodução/Biblioteca Nacional

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