Em 1990, Auxílio Sugimoto se sentou à mesa com o diretor de redação da Tribuna, Carlos Roberto Tavares, o Charles, com o diretor do jornal O Estado do Paraná, Mussa José Assis, e com os diagramadores da época. A conversa tinha um objetivo simples, mas ousado: criar uma coluna fixa sobre loterias nas páginas do jornal impresso. “Todo mundo comprava a Tribuna. Eu dei a ideia e falei: ‘esse jornal vai ser um motor de arranque para a informação de loteria’”, lembra o ex-lotérico das Loterias Muricy.
Daquela reunião saiu um acordo inicial. A coluna seria publicada por 30 dias como teste. O resultado superou qualquer expectativa. Sucesso imediato, o conteúdo lotérico não só permaneceu como se tornou tradição. Foram 35 anos ininterruptos da coluna, até a última edição do jornal impresso, publicada hoje. Entre estatísticas, resultados e curiosidades, a Tribuna foi pioneira ao aproximar o universo das apostas do público.
No início, todo o processo era à mão. Os indicadores lotéricos, com números frequentes, estatísticas e dicas, eram montados manualmente. Auxílio escrevia os conteúdos com uma máquina de escrever Olivetti Praxis 20, relíquia que ele guarda até hoje. Depois, um motociclista da Tribuna passava na lotérica para buscar as folhas. O material seguia para o jornal, onde era reproduzido em mimeógrafo e então incorporado às páginas do dia seguinte.
A parceria criou uma via de mão dupla. A coluna atraiu um novo público para o jornal e, ao mesmo tempo, levou mais apostadores às lotéricas. “A Tribuna tinha uma condição única. Do pedreiro ao advogado, onde você fosse tinha uma Tribuna lá”, recorda Auxílio. Com o sucesso, o movimento nas lotéricas cresceu. “Começou a vir gente dizendo que tinha vindo por causa da Tribuna. Todo dia alguém chegava e falava: ‘confiei na Tribuna e ganhei’. Entrou naturalmente na vida do apostador”, relembra.



Pé quente
Para manter a coluna sempre atualizada, até o lotérico acabou absorvendo manias típicas de redação. Conhecido no ramo, Auxílio alimentava as páginas da Tribuna trocando informações com outros colegas espalhados pelo país. “Uns amigos de Brasília avisaram os dias em que novos jogos seriam lançados. Dei a ideia de a Quina ser um jogo diário, e um colega levou a sugestão para Brasília. A ideia consagrou e foi dada em primeira mão na Tribuna”, conta.
O objetivo era simples: despertar curiosidade no leitor. A coluna publicava resultados, tendências e alertas sobre concursos como Dupla Sena, Lotomania e outras modalidades. Na época, nenhum outro jornal do país oferecia esse tipo de acompanhamento. Quem acompanhava a Tribuna sabia que a informação chegava antes e com alto índice de acerto.
Além das estatísticas, a coluna também publicava a expectativa de número de ganhadores. Para isso, Auxílio contava com o apoio do matemático carioca Oswald de Souza, famoso por suas projeções. “Se ele apontava, por exemplo, que teriam 30 ganhadores, no dia seguinte 27 eram sorteados”, lembra.
Uma regra era inegociável: o que saía no jornal valia como verdade oficial. A coluna chegou a influenciar até o resultado de um prêmio. Em uma edição, uma dezena foi publicada com erro. Um apostador que, na realidade, não havia sido sorteado, acabou recebendo o prêmio do Terno da Quina por causa da troca do número 12 pelo 13. “Nós honramos o que estava escrito e ele saiu com o prêmio na mão”, recorda.
Parte da família
Acostumado com a rotina na redação, Auxílio não só vestiu a camisa como um tribunista como passou a ser parte do que chama de uma família. Todos os anos, no aniversário da Tribuna, celebrado em 17 de outubro, ele encomendava um bolo especial, sempre na mesma confeitaria, para comemorar com a equipe.
Na antiga sede do jornal, no bairro Mercês, localizada na Rua João Tschannerl, nº 880, os funcionários se reuniam para cantar parabéns, fazer discursos e celebrar as edições que marcaram época. No fim do ano, o ritual se repetia, desta vez com um cardápio fixo: pernil temperado. “Era como uma família. Já que essas celebrações são feitas em família, para mim eles também eram e continuam sendo”, diz.
Longe da Lotérica Muricy há cinco anos, e por isso afastado da coluna, Auxílio ainda cogita voltar ao ramo. Brinca que “um rei nunca perde a majestade”. Mesmo sem escrever, segue fiel ao jornal: não deixa passar uma edição da Tribuna. Ao mesmo tempo, ao recordar diariamente a coluna de loterias para seu arquivo pessoal, se orgulha da continuidade da coluna e de ter feito parte das edições. “Eu me orgulhava de poder editar essa coluna dentro do jornal mais famoso em Curitiba”, conclui Auxílio, mais uma vez, orgulhoso.



