NÚMEROS, IRONIA E LOOPING
O primeiro encontro televisionado entre Sergio Moro, Sandro Alex e Requião Filho mostrou três maneiras bastante diferentes de atravessar um debate. Sandro chegou com números e dados na cabeça, transitou pelas propostas e, quando a temperatura subiu, mostrou também a língua afiada.
Moro reagiu e, surpreendentemente, arriscou até algumas tiradas irônicas, recurso que não costuma frequentar seu repertório.
Requião Filho preferiu outra frequência: falou de saúde, educação, segurança, privatizações e infraestrutura, entrou nas provocações e até ironizou o duelo dos adversários, mas boa parte do discurso pareceu rodar em looping.
As bandeiras eram conhecidas, as críticas também e as propostas permaneceram amplas demais para produzir muita novidade. Ninguém saiu do estúdio reinventado, mas, para um debate que demorou a reunir os três, pelo menos finalmente foi possível enxergar três estilos bastante diferentes no mesmo palco.
ALFEBETIZAÇÃO DOS PARAENSES
Sergio Moro passou boa parte da campanha longe dos debates e, quando finalmente resolveu aparecer, deixou duas pequenas contribuições para a madrugada das redes sociais: falou em “alfebetização” e, em outro momento, os paranaenses viraram “paraenses”. Nada disso decide eleição, evidentemente, mas televisão tem dessas crueldades.
O candidato pode passar duas horas falando de governo, segurança, saúde e educação e, no dia seguinte, uma vogal fora do lugar e um Estado trocado já estão viajando pelo Paraná inteiro. Ou pelo Pará, dependendo da versão.
DELTAN POR PROCURAÇÃO
Deltan Dallagnol continua candidato ao Senado, continua com o nome na urna e continua impedido pelo TSE de fazer campanha enquanto não houver decisão definitiva sobre seu registro. Sergio Moro resolveu dar uma mão durante o debate da RPC: defendeu o velho companheiro da Lava Jato e pediu voto para Deltan diante das câmeras. Não há decisão da Justiça Eleitoral dizendo que Moro tenha cometido irregularidade ao fazer isso, e apoio político de terceiros não se confunde automaticamente com campanha substitutiva.
Mas a eleição paranaense produziu uma situação curiosa: Deltan não pode pedir voto para Deltan. Moro pode.
CANALHA NO PARDAL
Roberto Requião conseguiu levar um de seus mais famosos “canalhas” para a Justiça Eleitoral sem precisar chamar ninguém de canalha desta vez. Adesivos da campanha do candidato a deputado federal recuperam antigos bordões, entre eles “Canalha! Canalha! Canalha!” e “Se é tumulto que querem, tumulto terão”. O material foi denunciado pelo Pardal e chegou à Justiça Eleitoral, que deu prazo para regularização ou justificativa. A defesa sustenta que as frases fazem parte da trajetória política de Requião. Fazem mesmo.
Algumas campanhas precisam contratar gente para criar slogan. Requião pode simplesmente abrir o arquivo.
CONCESSÃO NÃO É ETERNA
Nem serviço funerário pode ter vida eterna. O Tribunal de Contas considerou irregular a prorrogação das concessões dos serviços funerários de Maringá e determinou que a prefeitura ajuste a legislação e realize nova licitação em até 120 dias. Os contratos nasceram em 2009 e foram prorrogados dez anos depois sem nova concorrência; o caso já havia rendido multa ao então prefeito Ulisses Maia e a atual administração informa que prepara novo processo licitatório. Depois de tanto tempo, o TCE resolveu ressuscitar a concorrência.
A CONTA DA MERENDA
Antes de servir a merenda, será preciso refazer a conta. O TCE determinou que a Secretaria de Estado da Educação corrija a planilha de custos de uma licitação destinada à contratação de merendeiras e profissionais de apoio escolar especial porque acordos e convenções trabalhistas precisam ser considerados corretamente. A própria Secretaria já havia suspendido a disputa e, se quiser retomá-la ou lançar outro certame, terá de acertar os cálculos.
Merenda escolar tem receita, licitação também, e nessa cozinha o TCE achou que faltou ingrediente na planilha.
O VENTO NÃO PEDIU LICENÇA
Enquanto a política dominava a televisão na noite de terça-feira, parte do Paraná enfrentava coisa muito mais séria. Rafael Marchiani Paião, de 42 anos, morreu em Umuarama depois de ser atingido pelo desabamento parcial da estrutura de uma quadra de tênis durante o temporal; outro homem ficou ferido e os ventos chegaram a 102 quilômetros por hora. Toledo teve hangares e aeronaves atingidos, enquanto Cascavel registrou alagamentos, quedas de árvores e muros, danos em imóveis e veículos, problemas até na UPA Brasília e interrupções no fornecimento de energia.
A quarta-feira amanheceu sem espaço para tratar tudo isso apenas como previsão do tempo. Há uma morte, famílias atingidas e cidades ainda contabilizando os estragos.
O TRIGO SENTIU
O clima também chegou ao campo e a conta já pode ser medida em toneladas. O Deral reduziu em 10% a estimativa da safra paranaense de trigo, de 2,37 milhões para 2,13 milhões de toneladas, com calor e excesso de chuva pesando sobre as lavouras em agosto e setembro. E o problema não termina no volume: umidade em períodos sensíveis pode comprometer a qualidade industrial do cereal e, consequentemente, o preço recebido pelo produtor.
Chuva demais e calor fora de hora começam no mapa meteorológico, passam pela lavoura e terminam no bolso.
SUPREMO DEMAIS
Nossa Senhora Aparecida conseguiu o que parecia difícil: aumentar ainda mais a confusão entre Supremo e Justiça Eleitoral. André Mendonça decidiu no TSE, Flávio Dino desfez no STF, Luiz Fux desfez o que Dino havia desfeito, Nunes Marques levou o caso para julgamento virtual no TSE e Edson Fachin, diante da perspectiva de mais um confronto público entre ministros, decidiu não colocar o assunto no plenário do Supremo nesta quarta-feira.
A discussão já ultrapassou as postagens que deram origem ao caso e agora envolve quem podia decidir, quem podia desfazer a decisão de quem, qual ministro deveria receber cada ação e até onde o Supremo pode avançar sobre decisões da Justiça Eleitoral.
Faltam quatro dias para a eleição. O eleitor tenta escolher presidente; no Supremo, ainda tentam descobrir quem decide quem pode decidir.
O BOI BATEU NO TETO
O Brasil vendeu tanta carne bovina para a China que acabou a cota. O limite anual de 1,1 milhão de toneladas foi atingido e, a partir desta quinta-feira, 1º de outubro, a carne brasileira que entrar no mercado chinês passa a pagar sobretaxa adicional de 55%, além da tarifa normal de importação de 12%. E não estamos falando de um comprador qualquer: o Brasil respondeu por quase metade das importações chinesas de carne bovina no ano passado, enquanto frigoríficos já vinham administrando produção e embarques diante da proximidade do limite e o governo brasileiro tenta encontrar alternativas, inclusive o aproveitamento de cotas não utilizadas por outros fornecedores.
Durante muito tempo, o desafio brasileiro foi abrir a porteira chinesa para o nosso boi. Desta vez, vendemos tanto que batemos no teto. A porteira continua aberta. Só ficou 55% mais cara.
