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Curitiba

Greca reconhece oficialmente que o Pirata Zulmiro viveu em Curitiba

Giselle Ulbrich
Escrito por Giselle Ulbrich

Até então, acreditava-se que o último pirata vivo no planeta tinha sido o espanhol Dom Pedro Gilbert, que foi enforcado em 1835 em Boston, nos Estados Unidos. Mas achados recentes comprovam que o último pirata do mundo morou e morreu em Curitiba: era o pirata Zulmiro (o ex-militar inglês Francis Hodder), que viveu na capital por mais de 50 anos com o nome de João Francisco Inglez, e morreu por aqui em 1889, aos 90 anos. A descoberta coloca a capital paranaense definitivamente dentro da história mundial dos tesouros e da pirataria.

Greca com o livro que conta a história do “Pirata de Curitiba”. Foto: Átila Alberti/Tribuna do Paraná.

A Prefeitura de Curitiba reconheceu oficialmente, na tarde desta terça-feira (15), os documentos que comprovam a vida do pirata Zulmiro na capital. Com isto, disse o prefeito Rafael Greca, durante cerimônia no Memorial de Curitiba, realizada para alunos de escolas municipais, a lenda do pirata Zulmiro passou de mera estória (fato irreal), para a história da capital paranaense.

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“A lenda que eu ouvia dos lábios dos meus pais e avós se transformou em história verdadeira, com direito a ossos sepultados no Cemitério Municipal e até certidão de óbito no Cartório Eclesiástico da Matriz de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais (em referência aos documentos encontrados). Por isso eu convidei o pirata Zulmiro (o pesquisador Marcos Juliano Ofenbock, que descobriu os documentos) para vir aqui no Memorial de Curitiba e entrar pela porta da frente na nossa história”, ressaltou o prefeito Rafael Greca.

De lenda à história real

Marcos se orgulha de suas descobertas. Há 20 anos, ele foi pedir a Rafael Greca, na época deputado, para explorar os túneis subterrâneos secretos que existem em Curitiba, por acreditar que Zulmiro tinha escondido seu tesouro em algum deles. Em suas pesquisas, acabou descobrindo que os túneis nada tinham a ver com o tesouro, que foi na verdade escondido na Ilha da Trindade, que fica no litoral do Espírito Santo.

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Mas Marcos precisava provar que a lenda não era ficção. Em suas pesquisas descobriu alguns documentos, como certidões de óbito e da propriedade em que o pirata morou no bairro Pilarzinho, em Curitiba (onde hoje é a Universidade Livre do Meio Ambiente), que comprovam a existência do pirata, que se casou com a escrava que ele comprou um ano depois de chegar á capital e com quem teve quatro filhos.

Na certidão de óbito de Zulmiro, a esposa é descrita como Rita “de tal”, já que escravos não possuíam sobrenome na época. E nesta mesma certidão consta que ele deixou quatro herdeiros, porém somente os nome de três deles são descrito no documento: Joaquim, José, Maria e mais uma menina. Pelo que se sabe, Joaquim teve sete filhos.

Crianças ouviram Marcos falar sobre como Zulmiro chegou a Curitiba. Foto: Átila Alberti/Tribuna do Paraná.

Família Inglez

Marcos acredita que existam vários descendentes do pirata morando em Curitiba, região metropolitana e no interior do Estado. E esta é sua próxima pesquisa, em busca dos descendentes. Na época que Zulmiro veio a Curitiba, acredita-se que ele tenha assumido o nome de João Francisco Inglez.

João Francisco seria a forma como ele encontrou para “abrasileirar” o seu nome Francis. E Inglez não seria propriamente o seu sobrenome, mas um adjetivo pátrio, ou seja, um adjetivo referente ao local de onde ele veio, a Inglaterra. O que reforça mais a teoria de que Zulmiro tenha adquirido aqui no Brasil este adjetivo pátrio é que Marcos Juliano procurou nos livros de imigração famílias inglesas com sobrenome Inglez. Mas não localizou a entrada de nenhuma nesta região.

“Então os Inglez que moram em Curitiba, RMC e interior têm 90% de chances de terem sangue pirata correndo nas veias e serem os tataranetos de Zulmiro”, analisa o pesquisador, que ainda diz que, na época, o pirata não revelou nada de seu passado á esposa e aos filhos.

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Somente um conterrâneo inglês, com quem fez amizade logo que chegou a Curitiba, sabia de tudo e deu a sua palavra que só revelaria depois que Zulmiro morresse. E o amigo cumpriu a palavra, revelando tudo através a divulgação de cartas em jornais da época, que deram origem à expedições à Ilha da Trindade.

Você possui o sobrenome Inglez e tem documentos do seu antepassado? Então entre em contato com a Tribuna do Paraná pelo Whats: 41 99683-9504, para que a gente te coloque em contato com o pesquisador.

Tesouro

Já que Marcos Juliano conseguiu relacionar através de documentos a provável existência do pirata, agora a busca também é pelo tesouro de Zulmiro, que possivelmente está escondido na Ilha da Trindade, no litoral do Espírito Santo, o posto mais avançado do território brasileiro no Oceano Atlântico. Se isto se comprovar, o mapa do tesouro deixado por Zulmiro, e o roteiro de como chegar até ele, pode se transformar no único mapa de tesouro pirata real existente em toda a história da humanidade, já que todos os outros que surgiram comprovaram-se falsos ou ficção.

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Quatro expedições foram feitas à ilha, entre os anos de 1910 e 1912, mas em nenhuma delas o tesouro foi encontrado. O mesmo ocorreu com outras cinco expedições feitas anos depois. Até porque a região tem muitos terremotos e um deslizamento de terra soterrou o local onde o mapa indica a localização do tesouro. E na época não havia tecnologia (tratores e retroescavadeiras) que dessem conta de toda a terra que caiu sobre o local, somente com pás e enxadas. Desta forma, a busca pelo tesouro caiu no esquecimento.

Mas daqui quatro ou cinco anos, Marcos pretende realizar uma expedição à Ilha da Trindade, utilizando toda a tecnologia existente e possível para localizar o tesouro. No livro que ele escreveu sobre toda a sua pesquisa, “A Verdadeira Ilha do Tesouro”, que terá uma versão em inglês lançada em dezembro e vendida pela amazon.com, ele sugere que tudo o que for encontrado seja dividido entre o Museu Britânico, em Londres, pelo pirata ser inglês e em referência ao homem que conheceu Zulmiro e colocou toda a história a público no início do século passado; o Museu Paranaense, já que Zulmiro viveu por mais de 50 anos aqui; e o Museu do Vaticano, já que o tesouro foi roubado da Catedral de Lima, no Perú, e deve possuir obras de inestimável valor sacro-artístico.

De marinheiro a pirata exilado em Curitiba

Depois de formar-se no Eton College, uma escola para príncipes da Inglaterra, Francis Hodder of Cork (esta última palavra é referência à cidade onde nasceu, na Irlanda, país que na época pertencia à Inglaterra) foi servir a Marinha inglesa. Mas teve que fugir para sobreviver depois que matou um superior durante uma briga. Aí subiu num navio negreiro e tornou-se pirata, porque na época, pirataria e tráfico de escravos eram coisas que andavam juntas. Foi aí que ele assumiu a identidade de pirata Zulmiro.

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Mas um dia, depois dele já ter escondido sua fortuna na Ilha da Trindade junto com outros dois piratas (o russo Zarolho e o espanhol José Sancho), ele foi capturado pela Marinha inglesa e seria morto a bordo. Só que um dos oficiais que estava no barco era amigo de Zulmiro, serviam juntos na época do assassinato. Então o oficial o reconheceu e o ajudou a fugir.

Greca e Marcos Juliano, caracterizado como o “Pirata Zulmiro”. Foto: Átila Alberti/Tribuna do Paraná.Foto: Átila Alberti/Tribuna do Paraná.

Zulmiro pulou do barco no litoral paranaense e em nove dias de andanças pela Serra do Mar chegou a Curitiba, pelo bairro Bacacheri. Ainda no barco, o amigo deu a Zulmiro 50 libras e mais alguns livros para ler, para que não ficasse sem ter o que fazer, com a condição que o amigo deixasse de ser pirata e se aquietasse em algum lugar, para nunca mais ser encontrado. O pirata estabeleceu-se no bairro Pilarzinho, onde hoje é a Universidade Livre do Meio Ambiente, e onde adotou o nome de João Fransico Inglez.

Por viver isolado, sem querer se aproximar das pessoas (às vezes aparecia no comércio e era muito educado), ele foi apelidado de “Velho do Mato”. E só muitos anos depois de sua morte (ele faleceu aos 90 anos), quando seu amigo inglês revelou a verdadeira história de Zulmiro, que a população do Pilarzinho desconfiou que o Velho do Mato era o pirata.

Como Zulmiro comprou uma propriedade enorme em Curitiba, viveu muito pacatamente sem trabalhar e ainda sustentou quatro filhos, o historiador acredita que o tesouro não foi integralmente escondido na Ilha da Trindade. As 50 libras que seu amigo lhe deu eram bastante dinheiro na época, mas não uma fortuna suficiente para viver daquela forma pacata por tantos anos.

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Então o pesquisador acredita que, além da Ilha da Trindade, Zulmiro escondeu uma pequena parte do tesouro na Ilha do Cardoso, no litoral paranaense, onde deveria ir frequentemente pegar alguns poucos para viver. Há relatos que um vendedor de água da época diz ter recebido o pagamento do galão que vendeu a Zulmiro em moeda de ouro, uma pataca espanhola.

Agora que o prefeito reconheceu oficialmente os documentos que comprovam a existência do pirata em Curitiba, Marcos Juliano acredita que muitas coisas novas sobre Zulmiro ainda deverão vir à tona.

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Giselle Ulbrich

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