enkontra.com
Fechar busca

Publicidade

Curitiba

Das dez UPS instaladas em Curitiba, apenas quatro ainda funcionam

Foto: Gerson Klaina/Tribuna do Paraná
Escrito por Lucas Sarzi

O ano é 2012 e o assunto são as Unidades Paraná Seguro (UPS). A intenção do governo do Paraná era a de tornar a Polícia Militar (PM) mais presente e próxima da população, como uma verdadeira polícia comunitária. A presença dos policiais nos bairros de uma forma fixa e mais efetiva funcionou, já que os números de mortes caíram quase pela metade nos locais onde elas foram instaladas. No entanto, com opiniões divididas e altos custos, as UPS aos poucos foram deixando de existir. Atualmente, ao contrário do que se almejava em 2012, elas têm o futuro totalmente incerto.

+ Fique esperto! Perdeu as últimas notícias sobre segurança, esportes, celebridades e o resumo das novelas? Clique agora e se atualize com a Tribuna do Paraná!

Lançado pelo ex-governador Beto Richa, o projeto era inspirado nas Unidades de Polícia Pacificadora, do Rio de Janeiro, e previa 10 unidades em Curitiba. Foram escolhidas localidades com altas taxas de criminalidade, com ocorrência de tráfico de drogas e homicídios. Aos poucos as unidades foram ficando obsoletas e devido aos custos e a maneira com que elas eram utilizadas, a forma de trabalho, as UPS passaram a não fazer mais sentido e deixaram de cumprir o objetivo inicialmente projetado. Das 10 unidades instaladas na capital, apenas quatro permanecem ativas hoje em dia. “A verdade é que a UPS era um local criado pelo ex-governador do Paraná, Beto Richa, para mostrar trabalho à população e aparecer. Funcionava mais como um enfeite, decoração”, desabafou um policial que, assim como todos os outros PMs ouvidos, pediu para não ser identificado por medo de represálias.

+Caçadores! Decreto de Bolsonaro provoca ‘procura armamentista’ em Curitiba

Mesmo com esse aparente DNA figurativo, as UPS funcionaram A quantidade de homicídios diminui consideravelmente em todas as regiões. De janeiro a setembro de 2012, época em que as unidades começavam a ser instaladas, haviam sido registrados 81 mortos na CIC. No mesmo período de 2018, por exemplo, o número caiu para 42. E foi assim em todas as unidades. No Sítio Cercado as mortes caíram de 39 para 25, de 38 para 12 no Cajuru, 37 para 22 no Tatuquara, 30 para 6 no Uberaba e 11 para 5 no Parolin.

A primeira UPS foi implantada no bairro Uberaba e a segunda no Parolin. Seis anos depois, apenas a primeira continua ativa. Dos seis bairros que receberam o policiamento diferenciado, a Cidade Industrial de Curitiba (CIC) foi o que recebeu o maior número de UPS: cinco no total. O bairro era, em 2012, a região mais crítica da cidade nos registros de mortes. Das UPS instaladas na CIC, sobraram apenas duas. A Unidade da Vila Osternack, no bairro Sítio Cercado, deixou de existir já em 2017. Na época, uma denúncia da Tribuna mostrou que o local já não estava mais com policiais há muito tempo e que tinha se tornado um mocó, ocupado por usuários de drogas.

+Caçadores! Vaquinhas virtuais são a salvação para bancar tratamentos de saúde muito caros

Bom ou ruim?

No dia em que os policiais retiravam tudo da UPS do Caiuá, a reportagem esteve no local e conversou não só com os PMs, mas também com moradores. As opiniões, como em tudo que envolve a segurança pública, estavam divididas. “Nós nem podíamos sair da UPS. Não podíamos fazer nada além de ficar no módulo atendendo telefone e registrando boletim de ocorrência”, comentou um PM, que não fazia parte daquela unidade, mas que conhecia a rotina. Da CIC, a UPS Caiua foi uma das primeiras a ser retirada.

Em uma semana, o espaço já estava totalmente desocupado e os moradores assustados. “Era um local que nos trazia, pelo menos, a sensação de segurança. Lutamos muito por essa UPS, para que ela não saísse da nossa região. Ao mesmo tempo, lidávamos com uma precariedade em necessidades básicas dos policiais, que não tinham sequer um local bom para esquentar a comida e ficavam no calor desse contêineres que, no verão, esquentam muito”, lembrou um morador, que também preferiu não ser identificado.

+Caçadores! Curitibana pede socorro pra doença rara e sentencia: Cansei de ser fatiada

O homem, que vive na região há 30 anos, disse que os policiais que trabalhavam na UPS do Caiua passaram por muitos desaforos. “Até esgoto já chegou a entrar no módulo. Hoje em dia estavam bem, porque até ar condicionado conseguiram e a situação melhorou, mas foi bem difícil o caminho para chegar até o que desmancharam agora”, lamentou. Segundo ele, que se apresentou como líder comunitário, a população não se preocupava muito com o pouco que os policiais conseguiam fazer. “Tentamos até conseguir um espaço físico para eles, como um imóvel, mas não conseguimos autorização. Só de estarem aqui já nos davam a sensação de segurança. Se com eles aqui já era perigoso, imagina agora sem eles”.

Próximo do Caiua, outra UPS que também foi desativada foi a da Vila Nossa Senhora da Luz. Considerada pelas forças de segurança como uma das regiões mais perigosas de Curitiba, a vila agora deixa de ter a presença efetiva dos PMs e isso desagradou a população. “Nós sabíamos dos problemas todos, que os policiais não podiam fazer muito pela gente, mas é aquela boa sensação de ter a polícia perto, né?”, comentou uma moradora, que também não quis se identificar. Controlada pelo tráfico de drogas, a Vila Nossa Senhora da Luz desde sempre foi um grande foco de atenção da polícia quando se falava de homicídio e se tornou um lugar que pouca gente se arrisca a entrar. “Com a UPS, tínhamos até mais ânimo em dizer aos amigos que podiam vir nos visitar, porque sabíamos que o risco era menor. Mas agora estamos apreensivos”, relatou a mulher, que tem 38 anos e que nasceu ali.

Revolta e silêncio

 

Foto: Gerson Klaina/Tribuna do Paraná

Foto: Gerson Klaina/Tribuna do Paraná

Para construir essa reportagem a Tribuna do Paraná ouviu a população e pelo menos sete policiais, que são quem melhor entende a realidade das UPS, já que lidam com elas e com a situação de insegurança das ruas todos os dias. Solicitamos da Polícia Militar e da Secretaria de Segurança Pública do Paraná diversas informações e posicionamentos sobre o planejamento e a eventual desativação ou remodelagem do projeto da UPS há pelo menos uma semana, mas recebemos apenas promessas de retorno e evasivas. Até o fechamento dessa reportagem não obtivemos retorno.

Entre todos os PMs entrevistados, uma opinião era comum: o custo do aluguel para manter as UPS era altíssimo. “Só na do Caiua, por exemplo, R$ 7 mil por mês. Tem noção de que, com esse valor, você alugaria um imóvel enorme na CIC e ainda sobraria dinheiro?”, contou um dos PMs.  O alto custo dos alugueis dos contêineres para manter as UPS foi um dos motivos que teria feito a PM desistir do projeto. “Sobraram somente as unidades que ficam em imóveis que não são alugados e que estão ligadas a algum outro prédio da própria PM. Mas, cá entre nós, era realmente um custo desnecessário já que os policiais ficavam presos e não podiam ajudar em nada a população”.

Funciona? Tornozeleira eletrônica provoca dúvida sobre a sua efetividade

Segundo os policiais, a presença de um PM dentro da UPS era vista por muitos dos colegas de farda como figurativa. “E ainda nos colocávamos em risco, porque ficávamos sozinhos. Mas para a população era até ridículo, se viesse alguém pedir socorro, tínhamos que pedir que a pessoa ligasse para o 190, porque nem viatura podíamos mandar para atender à necessidade do cidadão, mesmo sendo um módulo da PM”.

O ponto positivo da UPS era, na avaliação dos policiais, o sentido de polícia comunitária. “Ao longo dos seis anos de duração, a população começou a entender que não éramos inimigos e sim que estávamos lá para ajudar. Fizemos muitos boletins de ocorrência para quem vivia na região e, de algumas pessoas, nos tornamos até amigos”, contou outro PM entrevistado pela Tribuna.

Foto: Gerson Klaina/Tribuna do Paraná

Foto: Gerson Klaina/Tribuna do Paraná

Como a Polícia Militar não se posicionou sobre o assunto, não se sabe qual vai ser o real futuro das UPS e se elas serão substituídas por algum outro projeto ou modal de segurança. À reportagem, a Casa Civil informou que, por conta da mudança de governo, o planejamento setorial ainda está sendo feito por cada secretário, que tem até 90 dias para apresentar o plano de ação dentro do compromisso de campanha do novo governado Ratinho Júnior. Por enquanto, ainda não foi apresentado o planejamento no que diz respeito à segurança pública ou à Polícia Militar, especificamente.

+ APP da Tribuna: as notícias de Curitiba e região e do trio de ferro com muita agilidade e sem pesar na memória do seu celular. Baixe agora e experimente!

Situação das UPS em Curitiba

UPS Uberaba: Ativa

UPS Parolin: Desativada

UPS Sabará: Ativa

UPS Vila Verde: Desativada

UPS Vila Nossa Senhora da Luz: Desativada

UPS Caiuá: Desativada

UPS Osternack: Desativada

UPS Vila Sandra: Ativa

UPS Tatuquara: Ativa

UPS Cajuru: Desativada

Escorpiões invadem casas e tiram o sono de moradores da região de Curitiba

Sobre o autor

Lucas Sarzi

Jornalista formado pelo UniBrasil.

Deixe um comentário

avatar

11 Comentários em "Das dez UPS instaladas em Curitiba, apenas quatro ainda funcionam"


REINALDO  .
REINALDO .
5 meses 10 dias atrás

Só jogou dinheiro fora, ou melhor, ganharam dinheiro com essas Ups, que decepção destes políticos corruptos

augusto  venier
augusto venier
5 meses 10 dias atrás

¨choque de gestão do almofdinha ladrao,kkkkk ate combinou

Márcio Lisbôa
Márcio Lisbôa
5 meses 10 dias atrás

No Brasil se tornou habito descontinuar obras e serviços de administrações anteriores. São inúmeros hospitais, escolas, postos de saúde, creches, postos de polícia e bombeiros abandonados em todas as cidades. Não há uma lei obrigando o administrador a concluir as obras antes de iniciar outras. E com isso o seu e o meu dinheiro vai indo pro lixo. Me pergunto pra que servem os tais tribunais de contas? Fiscalizar apenas o gasto com obras? E as execuções das mesmas quem cuida?

Luis Sloboda
Luis Sloboda
5 meses 11 dias atrás

Que eu saiba a UPS Parolin esta em pleno funcionamento. Me espanta um repórter não pesquisar a realidade. Se o repórter que fez a matéria quiser comparecer a UPS Parolin e do se deslocar ate a Praça Afonso botelho, local que a UPS se encontra desde julho de 2012.

Lasca Denovo
Lasca Denovo
5 meses 11 dias atrás

Richa nunca teve plano de governo para a segurança pública. Imitou na cara larga o projeto das UPPs, mas sem o aporte financeiro, incremento de pessoal e aquisição de material, como se fez no RJ. Resultado, uma mentira que se estende até os dias de hoje.

Adriano
Adriano
5 meses 10 dias atrás

Nem lá no Rio de Janeiro essas tais de UPA-UPS deram certo, é iusão só pra aparecerem em público

REINALDO  .
REINALDO .
5 meses 11 dias atrás

Lançam projetos e após abandonam, isto é jeito brasileiro ou melhor falta de respeito perante a sociedade.

Julio Cesar
Julio Cesar
5 meses 11 dias atrás

Ah é?
Veremos o que o goverato propõe de melhor e mais eficiente.

Solon da Silva Brasileiro
Solon da Silva Brasileiro
5 meses 11 dias atrás

UPS na verdade uma modinha implantanda pelo governador bunitinho e queridinho.
Uma cópia farsesca das UPPs do estado do Rio.
Diminuição da criminalidade é a primeira vez que leio, fica por conta do colunista.
Por total falta de criatividade e dinheiro o então governador começou a fazer cópias mal acabadas dos programas de outros estados e cidades. Sempre com a total anuência da imprensa local.

Tsáh La
Tsáh La
5 meses 11 dias atrás
Você está equivocado. Não é pq o programa foi mal elaborado e executado que a ideia copiada seja ruim, pelo contrário. Se fosse planejada para o combate à violência, seria muito bom, o problema que foi utilizada como forma de se manter no poder e ganhar votos. Colocar PM’s próximo da população é uma ideia ótima, sendo assim, deveria prestar serviço de identificação das laranjas podres dos bairros. Outra questão é como mencionado na reportagem, do custo dos alugueres, extremamente alto, se comparado ao custo de uma casa “boa” na região com muito mais estrutura para os mesmos. Volto a… Leia mais »
CIC CIC
CIC CIC
5 meses 11 dias atrás

A UPS da Vila Nossa S. da Luz agora desativada já foi tomada pelo trafico…. e só ir no ponto final do ônibus da Vila e ver o intenso movimento..inclusive os traficantes estão usando o ponto do ônibus para ponto de entrega sem descer do carro… ” delivery do trafico ” só não ve quem não quer…..

wpDiscuz
(41) 9683-9504