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Curitiba

Condomínio em Curitiba está ‘desintegrando’ e moradores não sabem mais a quem recorrer

Cansada, Soely fecha a porta do banheiro. Depois do dia agitado de trabalho, um banho vem bem a calhar. Ela liga o registro, entra no box e enquanto relaxa sob a água quente, se preocupa apenas com o travesseiro que a aguarda na suíte onde, em sono profundo, seu marido já se entregou ao descanso. De repente, um cheiro forte vem do ralo. Pelos furinhos da tubulação, uma água escura começa a jorrar, tomando conta do piso branco. Logo, pedaços de fezes sobem pelo encanamento misturando-se à água que cai do chuveiro. Desesperada, Soely chama pelo marido mas não há muito o que fazer a não ser acionar o síndico do condomínio e aguardar sem banho até a solução do problema.

Antes de continuar esse conto de terror, avisamos: não se trata de uma história fictícia nem acabada. Além de Soely, outros personagens que vivem situações parecidas já não sabem mais a quem recorrer para resolver o drama que se estende há quase 4 anos no condomínio residencial Up Life, no bairro Capão Raso, em Curitiba. Indignados, os moradores do complexo afirmam terem comprado “gato por lebre” e, frustrados, assistem o sonho da casa própria virar pesadelo.

Infiltrações, vazamentos, rachaduras, escoamento de esgoto, cheiro insuportável, falhas elétricas. É com esse tipo de problema que boa parte dos moradores do condomínio convive diariamente, dentro de casa. E não é pouca gente, não. De acordo com o síndico do complexo, Sergio Luiz Ribeiro, dos 576 apartamentos que compõe o residencial, cerca de 300 já apresentaram falhas estruturais. Várias delas, bastante graves. “Os problemas começaram logo depois da entrega do condomínio, em maio de 2014, quando os primeiros moradores reclamavam do forte cheiro de esgoto que voltava pelos ralos. Depois disso começaram as infiltrações e problemas entre vizinhos por conta do mal isolamento das tubulações. Era cair água no ralo de cima pra inflar o teto de baixo”, revela.

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Rodrigo Willian Costa, 34, conhece bem esta aflição. Morador do condomínio há 3 anos, ele se viu obrigado a trocar todo o piso do seu apartamento depois de ter o imóvel alagado por conta de um vazamento na caixa d’água instalada na torre onde mora. A situação aconteceu em 2015 e, além do piso, toda a pintura do cômodo também teve de ser refeita. “Na época eu reclamei e a construtora só pagou a pintura. Para o piso novo eu tive que tirar do meu próprio bolso”, recorda. Segundo o professor, o que mais gerou revolta foi o posicionamento da empresa Cyrela, responsável pela construção do residencial. “Atribuíram o problema ao mau uso das instalações, como se nós fossemos responsáveis pelo que estava acontecendo”, diz.

Foto: Denis Ferreira Netto/Tribuna do Paraná

Foto: Denis Ferreira Netto/Tribuna do Paraná

Problema parecido foi vivenciado pela também professora, Cristine Lois, 28, que mora no Up Life há 2 anos. Além do transtorno provocado pelas inundações frequentes pelo ralo da cozinha, ela afirma ter perdido móveis e eletrodomésticos devido aos alagamentos. “Não recebemos nenhum tipo de reembolso, nada. Nem um pedido de desculpas que fosse”, reclama. Por conta do mal isolamento tubular, a professora afirma viver “num campo minado” dentro da própria casa, pois sabe que qualquer “pingo” que cai no chão de sua casa pode provocar problemas para o vizinho de baixo. “Eu mesma vedei o ralo da cozinha para evitar que escorra água para o apartamento de baixo. Dá medo até de virar um copo no chão porque vaza tudo pra baixo”, desabafa.

Considerado um dos casos mais graves, o de Soely reportado no início da matéria aconteceu no fim do ano passado. Segundo o síndico do residencial, a inundação de fezes aconteceu devido ao entupimento da caixa de esgoto do edifício que, sem isolamento adequado, acabou “desaguando” pelo ralo do banheiro da dona de casa. “Tive sorte do meu neto não estar em casa aquele dia. Já foi um pesadelo só eu e meu marido tendo que dar jeito naquela nojeira, imagina uma criança pulando e correndo no meio do esgoto”, lamenta.

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Menos grave seria se a história parasse por aqui. Logo, problemas estruturais também começaram a surgir nas áreas comuns do condomínio. Na quadra esportiva, chão rachado. Na piscina, pastilhas soltando. Nos halls de entrada, tetos rachados, desníveis no piso e alagamentos frequentes. No ático de uma das torres, o mau isolamento entre os andares provoca transtornos nos dias de chuva, inundando os apartamentos abaixo. Além de tudo isso, elevadores parados em pelo menos duas torres, por conta de infiltrações e vazamentos, obrigam moradores a utilizar as escadas e, quando funcionam paliativamente, apresentam risco de choque elétrico ou de travamento entre andares.

Saída estratégica

Depois de mais de 800 reclamações registradas e quase R$ 200 mil desembolsados pelo próprio condomínio, o síndico do residencial buscou assessoria jurídica para intermediar a comunicação com a empresa. A Tribuna entrou em contato com o advogado responsável, Luciano de Souza. Ele explicou que ainda não existe processo formal aberto contra a construtora, porém 8 notificações já foram formalizadas extrajudicialmente em face da Cyrela. Conforme explanou o advogado, até poucos meses a incorporadora respondia aos acionamentos e a resposta diante dos problemas relatados seguia sempre duas linhas de defesa. A primeira atribuía as ocorrências ao mau uso das instalações por parte dos condôminos e a segunda, alegava a expiração do período de 5 anos de garantia, no qual a construtora arcaria com os custos dos reparos relatados. Conforme explicou o advogado, a decisão final a respeito da abertura do processo deverá ser feita em assembleia convocada pela sindicância do condomínio em breve.

Em nota enviada à Tribuna, a Cyrela emitiu posicionamento afirmando que, desde a inauguração do complexo habitacional tem tratado das questões elencadas junto aos síndicos responsáveis. A incorporadora afirmou que em maio deste ano, em reunião com o síndico, observou uso incompatível e falta de manutenção em algumas instalações do condomínio e, por esse motivo, não se responsabilizou pelos reparos solicitados. Quanto às novas reclamações, a incorporadora afirma que os itens de sua responsabilidade serão solucionados com a maior brevidade possível.

Foto: Denis Ferreira Netto/Tribuna do Paraná

Foto: Denis Ferreira Netto/Tribuna do Paraná

Confira, na íntegra, a resposta da empresa.

Em virtude do contato realizado pelo veículo Tribuna do Paraná, no dia 18/10/2018, a DGC PINHEIRINHO LTDA., uma empresa do Grupo CYRELA BRAZIL REALTY, na qualidade de incorporadora imobiliária do empreendimento em questão, vem manifestar-se nos termos que seguem. O Edifício Up Life, localizado na Rua Reinaldo Stocco, 174, na Capital paranaense, trata-se de um empreendimento imobiliário da linha LIVING, composto por seis torres de apartamentos residenciais, com 576 unidades habitacionais no total, tendo o mesmo sido construído entre os anos 2011 e 2014.

Ou seja, foi concluído e entregue há mais de 4 anos. Desde então, a incorporadora imobiliária vem mantendo diversas tratativas com os Síndicos eleitos para a administração do Condomínio, de forma a estabelecer um canal de comunicação para resolução dos pleitos manifestados por aqueles. Neste contexto, cumpre ressaltar que em março do corrente ano, o Condomínio apresentou solicitações de melhorias e reparos que entende necessários no empreendimento.

Diante disto, o departamento de assistência técnica da empresa analisou as solicitações e apresentou ao Síndico atual (Sr. Sérgio Luiz Ribeiro), em reunião presencial realizada no mês de maio de 2018, quais itens a empresa compreendia como pertinentes e de responsabilidade desta, e quais itens entendia que não eram de sua responsabilidade, por entender que tinham origem em falta de manutenção ou uso incompatível com as orientações do fabricante.

Desde então, apesar de várias tentativas, a empresa não obteve nenhum retorno formal por parte do Condomínio autorizando a realização dos itens assumidos pela signatária. Importante esclarecer também, que a incorporadora adota o sistema de abertura de chamados através da central de relacionamento com o Cliente, para o recebimento, atendimento, e devolução dos serviços e demandas/reclamações, registrados pelos Clientes/Síndico, no que diz respeito as unidades privativas e áreas comuns, respectivamente. Por conseguinte, cabe ao Síndico a adoção deste canal de atendimento para registro das postulações, procedimento este que não vinha sendo adotado nos últimos meses. Outrossim, a empresa informa e ratifica que todos os itens que são de sua responsabilidade serão solucionados com a maior brevidade possível, a partir da autorização formal do Condomínio para o início de sua execução.

Por sua vez, os itens que decorram da não realização de manutenção (conforme orientações prescritas pela empresa e constantes do Manual das Áreas Comuns) ou de uso incompatível com as orientações do fabricante, não poderão suportados pela incorporadora, eis que de responsabilidade do Condomínio. Por fim, cumpre informar que a incorporadora, por meio de seu departamento de assistência técnica, já havia agendado uma reunião presencial com o referido Síndico, a qual está aprazada para a próxima semana, na qual serão tratados todos os assuntos pertinentes às postulações do Condomínio. Por fim, a empresa lamenta os transtornos ocorridos no empreendimento, reiterando a sua disposição para realizar as melhorias tão logo seja possível.

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Sobre o autor

Maria Luiza Piccoli

Maria Luiza Piccoli

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25 Comentários em "Condomínio em Curitiba está ‘desintegrando’ e moradores não sabem mais a quem recorrer"


Denival Jeter Guimarães
Denival Jeter Guimarães
1 mês 17 dias atrás

Devia ser proibido construir prédios. Para a cidade ser realmente bonita e de primeiro mundo cada casa deveria ocupar um lote com no mínimo 12x30m. Mas querem ficar se empilhando, dá nisso, cidade suja, lotada, fedorenta. Espero que um dia isso mude e possamos viver em residências de qualidade!

Lutador Antifacista
Lutador Antifacista
1 mês 18 dias atrás

É o que dá comprar estes apartamentos de condomínios residenciais! Geralmente são mal construídos já que os proprietários não acompanharam as obras, e muito inclusive não entendem de construção civil. Sugiro passar adiante os imóveis para os inocentes da vez, nem que seja mais barato, depois comprem outros imóveis enquanto não sai a decisão judicial definitiva para reembolso dos prejuízos. Se ficarem nestes imóveis vão ter mais prejuízos ainda e a decisão judicial pode demorar anos para sair, melhor é cair fora antes que caia tudo de uma vez.

Kevin Mamar
Kevin Mamar
1 mês 23 dias atrás

Isso é que dá fazer obras às pressas, prática comum dessas construtoras. Tem que meter no pau e pedir indenização…senão vão ficar no prejuízo.

Vicente Messias dos santos junior
Vicente Messias dos santos junior
1 mês 24 dias atrás
Uma dica aos proprietários/moradores e síndico, uma sugestão á vcs: acredito que várias unidades deste condomínio tenham sido adquiridas via financiamento bancário da CAIXA Econômica Federal… Portanto,, a dica é que vcs façam uma reclamação formal, junto ao seus gerentes de relacionamento (ou ao gerente geral) das suas respectivas agências ás quais tiverem vinculados os seus respectivos contratos de financiamento as quais administram o ctto de financiamento de cada mutuário/unidade construída/apto, e exponham o caso/problema de cada uma de sua respectivas unidade/apto e junto ao gerente/agência acionem o SEGURO DFI (Dano Físico do Imóvel), solicitando NOVA vistoria de engenheiro vistoriador/avaliador… Leia mais »
Walter Palma
Walter Palma
1 mês 24 dias atrás

Vai que desaba o prédio./

Tiago Ribas
Tiago Ribas
1 mês 24 dias atrás

Isso é só o começo, a moda dos condomínios com nome ” em inglês” vai aos pouco caindo por terra. Não vou citar nomes, mas cuidado com essas construtoras que estão atundo no mercado de construção, é muita picaretagem!

JOAQUIM  TEIXEIRA IRA
JOAQUIM TEIXEIRA IRA
1 mês 24 dias atrás

Um problema crônico das construtoras de massa é a corrupção dos setores de compra e engenharia, aliado ao fato de que pedreiro bom nâo trabalha para eles e sim por conta e não falta serviço, nem na crise. Eu prestei serviço de venda de vidros e boxes de banheiro para os moradores destes prédios e a qualidade é 1 em uma escala de 0 a 10. Lixo.

Jayson R
Jayson R
1 mês 24 dias atrás

Não importa qual era o destino desses apartamentos, mas cade prefeitura? cade CREA>
Sabem cobrar impostos, mas fazer serviço de casa está muito longe.
Outro lado Cyrela, vixe, usa material de fechar túmulo. Com o tempo vai caindo tudo.
Moro numa construção do grupo Cyrela, tudo podre.

Beverage Beer
Beverage Beer
1 mês 24 dias atrás

Você ficaria chocado se fosse averiguar, a fundo, como as fiscalizações de obras são feitas. Sério. Muito sério isto.

Tiago Ribas
Tiago Ribas
1 mês 24 dias atrás

O CREA é uma farsa, geralmente o fiscal é amigo do engenheiro da obra. No Crea tem fiscal eleito que tem empresa de assessoria que presta serviço para as construtoras kkkkkkk

Luiz Gabardo
Luiz Gabardo
1 mês 24 dias atrás

Prefeitura e CREA controlam e fiscalizam a aplicação dos conceitos e normas TÉCNICAS. Não tratam de assuntos relativos a qualidade dos materiais empregados. Isso fica a cargo de quem constrói e deve ser observado por quem compra. Não falem bobagens.

Kevin Mamar
Kevin Mamar
1 mês 23 dias atrás

Exato, mas como meros mortais vão se certificar sobre a qualidade da obra? Situação bem complicada.

Beverage Beer
Beverage Beer
1 mês 24 dias atrás
Este condomínio foi idealizado para ser enquadrado na faixa 2 do Programa Minha Casa Minha Vida e, por aí, já se vê que não teria como prestar. E isto se diz pesquisando rapidamente na internet, onde as edificações construídas neste contexto apresentam DIVERSOS problemas, pelo Brasil afora. Os defeitos vão desde materiais de baixa qualidade, erros de execução e, até, de projeto. No caso reportado parece haver de tudo, já que constata-se entupimento de esgoto, falha estrutural, etc. O conselho é processar a construtora, mas, na real, era interessante ir lá na sede da PF e falar com o idealizador… Leia mais »
José Augusto Tambosi
José Augusto Tambosi
1 mês 24 dias atrás

Parece brincadeira, parece piada, más é a vida real, lamentável.

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