Entrei no ônibus, passei a roleta e sentei no segundo banco do lado do cobrador, perto da janela. No banco da frente, duas mulheres – uma chorava, outra ria. A cobradora olhava com cara de quem não gostava da conversa das duas passageiras. A mulher que chorava contou mais uma vez para a que ria que perdeu o seu cachorro e não podia fazer anúncio procurando o bicho porque ele tinha um nome feio. A outra riu, ela já sabia o nome do cachorro. “Se você colocar esse nome em algum anúncio vai aparecer um monte de homens oferecendo o que você não perdeu”, disse a outra, rindo mais uma vez. A cobradora continuava não gostando do assunto.
Depois de algum tempo ouvindo frases e expressões da conversa cujo sentido eu não conseguia entender, por fim compreendi o que estava acontecendo. Concordei com o desagrado da cobradora, era assunto bem tolo; concordei com a que ria, realmente era uma situação cômica; concordei com a que chorava, o episódio era uma lástima. Todas tinham razão. O caso era o seguinte: o patrão da Cida era um endocrinologista que foi para a Alemanha fazer curso de especialização de um ano. Até aí, tudo bem. O sujeito continuou pagando a Cida para limpar o apartamento no Cristo Rei, abrir as janelas, pegar as contas para ela pagar, que ele mandava dinheiro pelo banco, enfim, fazer as coisas que ele fazia – e que deveriam ser feitas porque ele planejava voltar.
A Cida fazia tudo certinho porque estava com o sujeito há mais de dez anos. Ela era de confiança e ele um patrão generoso. Os dois criaram aquele clima que acontece muito no Brasil de certo sentimentalismo entre patrão e empregada doméstica, esta profissão cujo fim as revistas semanais anunciam. Tanto que o patrão da Cida ganhou um Bichon Bolonhês de presente de uma paciente grã-fina que se mudava para os Estados Unidos. Bichon, apesar do nome, era macho. Um cachorro. E como o patrão não tinha tempo e nem paciência para cuidar de cachorro, deu de presente para a empregada, que ficou feliz. E ele ficou sem um problema.
A Cida julgou que aquele cachorro bonito – cachorro de rico, repetiu três vezes – merecia um nome chique e deu a ele o nome de Big Law, expressão cujo sentido ela não tinha a menor ideia, mas que ouviu num programa de TV a cabo, na casa do patrão. O sujeito repetiu tantas vezes que a Cida ficou com aquele “nome lindo na cabeça”. Até aí, tudo bem. O diacho é que os filhos da Cida por não terem paciência de pronunciar corretamente Big Law – em inglês seria algo como Biguelôu – chamaram o bicho de Bilau. E ficou Bilau. O cachorro desapareceu e ela não tinha como localizar o bicho por causa de seu nome ambíguo.
“Como é que eu vou dizer para todo mundo que estou atrás do Bilau?”. Este o drama que fazia a Cida chorar, a sua amiga Nereide rir e a cobradora ficar de cara amarrada. As duas desceram nas proximidades do Centro Cívico e a cobradora, Genoveva, mulher encorpada, loira de olhos azuis, balançou a cabeça, me olhou e disse: “O que eu já ouvi de história absurda aqui, moço, o senhor não tem ideia. Esta aí é apenas mais uma delas. Bilau! Isto é nome para botar em cachorro?”. Eu fiquei com vontade de dizer para a Genoveva que era Big Law – algo como A Grande Lei. Mas a história da Cida não ia ficar menos estranha e o cachorro não ia aparecer. Por isso fiquei calado.