Cristovam Buarque

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Passado o Carnaval, parece que o Brasil começa de novo. Ficam lembranças, mas morre a indignação. Até outro crime bárbaro ser cometido. O Brasil parece um país de soluços, que reage por alguns dias ao fato, depois fica apenas uma leve lembrança no ar. No longo prazo, a indiferença substitui a indignação do imediato. Chegamos ao ponto de classificar a criminalidade: existem os assassinatos normais e os hediondos, como se todo homicídio não fosse hediondo.

É esse clima de esquecimento que faz com que a indignação dure pouco, e a busca de soluções seja adiada, ou que orienta para soluções parciais, incompletas e equivocadas. O País vive um clima de guerra civil espontânea e descontrolada, sem propósito, salvo a raiva de alguns contra outros, mas só despertamos para essa realidade quando os crimes ultrapassam o limite entre a violência e o horror. Como se o crime tivesse ficado natural, tolerado, apenas o horror ainda dá calafrio. E esses calafrios esporádicos, no máximo, cobram soluções incompletas, para matar a vingança ou a raiva ou esconder a vergonha.

Às vezes dá para se perguntar se o Brasil já teria feito sua revolução, caso não tivéssemos Carnaval, fim de ano, feriados, semana santa, fins de semana, Copas do Mundo. Porque é de uma revolução que o País precisa, e não apenas reduzir a maioridade, aumentar o número de cadeias. Diante da criminalidade atual e do horror como os crimes são cometidos, é preciso mais cadeias, em breve alguns vão ter justificativa para mais jaulas, tão selvagens são os crimes. Mas, as cadeias e jaulas prendem os bandidos que já cometeram crimes; pode trazer justiça, vingança, proteção, mas não traz a paz que a sociedade brasileira tem direito e obrigação de pleitear.

E a paz não se constrói com cadeias. As cadeias, como a redução da maioridade penal, independente de serem ou não soluções necessárias, são insuficientes, repetem a velha tradição brasileira de esconder a cabeça, como o avestruz, para não ver a totalidade do problema e buscar a solução completa. As cadeias são necessárias para consertar os erros e omissões do passado, mas para construir o futuro precisamos de uma revolução que traga paz. Pela primeira vez, diante de nós, está uma revolução possível e pacífica, uma revolução doce.

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No lugar de redução da maioridade penal, a redução da menoridade de ingresso na escola para 4 anos e a ampliação da maioridade de permanência na escola até os 18 anos e em horário integral. Hoje, um brasileiro médio tem menos de 4 mil horas de aulas em toda sua vida: dos 7 aos 12 anos, com no máximo quatro horas por dia, e em geral sem estudar, apenas freqüentando, muitas vezes em busca apenas da merenda. A escola virou um restaurante popular mirim. Se fizermos a mudança na idade de entrada e de saída e implantarmos o horário integral, essa permanência subirá para quase 20 mil horas na escola, entre os 4 e os 18 anos. Obviamente, isso só se justifica se a escola for boa: bons prédios, equipamentos modernos, espaços esportivos e culturais e, sobretudo, professores bem remunerados, desde que bem formados e dedicados.

Isso não vai acabar com a violência, mas ela será exceção e não a regra como hoje ocorre. Não porque os pobres sejam violentos, isto é falso, mas porque a desigualdade brutal, a falta de oportunidade e a desagregação dos laços familiares são incentivos diretos ao crime.

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Esta seria nossa revolução. No lugar de fazer mais cadeias para não mudar, mudar para não precisar fazer tantas cadeias. Não apenas para reduzir a violência, mas também para romper os dois muros que emperram nosso avanço civilizatório: o da desigualdade interna e o do atraso em relação aos países desenvolvidos.

Cristovam Buarque é professor da Universidade de Brasília e senador pelo PDT/DF.