Passado o Carnaval, parece que o Brasil começa de novo. Ficam lembranças, mas morre a indignação. Até outro crime bárbaro ser cometido. O Brasil parece um país de soluços, que reage por alguns dias ao fato, depois fica apenas uma leve lembrança no ar. No longo prazo, a indiferença substitui a indignação do imediato. Chegamos ao ponto de classificar a criminalidade: existem os assassinatos normais e os hediondos, como se todo homicídio não fosse hediondo.
É esse clima de esquecimento que faz com que a indignação dure pouco, e a busca de soluções seja adiada, ou que orienta para soluções parciais, incompletas e equivocadas. O País vive um clima de guerra civil espontânea e descontrolada, sem propósito, salvo a raiva de alguns contra outros, mas só despertamos para essa realidade quando os crimes ultrapassam o limite entre a violência e o horror. Como se o crime tivesse ficado natural, tolerado, apenas o horror ainda dá calafrio. E esses calafrios esporádicos, no máximo, cobram soluções incompletas, para matar a vingança ou a raiva ou esconder a vergonha.
Às vezes dá para se perguntar se o Brasil já teria feito sua revolução, caso não tivéssemos Carnaval, fim de ano, feriados, semana santa, fins de semana, Copas do Mundo. Porque é de uma revolução que o País precisa, e não apenas reduzir a maioridade, aumentar o número de cadeias. Diante da criminalidade atual e do horror como os crimes são cometidos, é preciso mais cadeias, em breve alguns vão ter justificativa para mais jaulas, tão selvagens são os crimes. Mas, as cadeias e jaulas prendem os bandidos que já cometeram crimes; pode trazer justiça, vingança, proteção, mas não traz a paz que a sociedade brasileira tem direito e obrigação de pleitear.
E a paz não se constrói com cadeias. As cadeias, como a redução da maioridade penal, independente de serem ou não soluções necessárias, são insuficientes, repetem a velha tradição brasileira de esconder a cabeça, como o avestruz, para não ver a totalidade do problema e buscar a solução completa. As cadeias são necessárias para consertar os erros e omissões do passado, mas para construir o futuro precisamos de uma revolução que traga paz. Pela primeira vez, diante de nós, está uma revolução possível e pacífica, uma revolução doce.
No lugar de redução da maioridade penal, a redução da menoridade de ingresso na escola para 4 anos e a ampliação da maioridade de permanência na escola até os 18 anos e em horário integral. Hoje, um brasileiro médio tem menos de 4 mil horas de aulas em toda sua vida: dos 7 aos 12 anos, com no máximo quatro horas por dia, e em geral sem estudar, apenas freqüentando, muitas vezes em busca apenas da merenda. A escola virou um restaurante popular mirim. Se fizermos a mudança na idade de entrada e de saída e implantarmos o horário integral, essa permanência subirá para quase 20 mil horas na escola, entre os 4 e os 18 anos. Obviamente, isso só se justifica se a escola for boa: bons prédios, equipamentos modernos, espaços esportivos e culturais e, sobretudo, professores bem remunerados, desde que bem formados e dedicados.
Isso não vai acabar com a violência, mas ela será exceção e não a regra como hoje ocorre. Não porque os pobres sejam violentos, isto é falso, mas porque a desigualdade brutal, a falta de oportunidade e a desagregação dos laços familiares são incentivos diretos ao crime.
Esta seria nossa revolução. No lugar de fazer mais cadeias para não mudar, mudar para não precisar fazer tantas cadeias. Não apenas para reduzir a violência, mas também para romper os dois muros que emperram nosso avanço civilizatório: o da desigualdade interna e o do atraso em relação aos países desenvolvidos.
Cristovam Buarque é professor da Universidade de Brasília e senador pelo PDT/DF.