Pulsão, o documentário curitibano sobre a influência das redes sociais e tecnologias para os grandes acontecimentos políticos dos últimos anos será lançado nesta sexta-feira (04), no Youtube.

Totalmente gratuito, o filme retrata a transformação na cultura política brasileira nos últimos sete anos, desde o processo de impeachment da ex-presidente da República, Dilma Rousseff (PT), até a última eleição presidencial, em 2018.

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O longa tem direção de Di Florentino e produção e roteiro de Sabrina Demozzi, que inclusive é pesquisadora sobre o assunto. A dupla conversa sobre a produção do documentário, as dificuldades de retratar acontecimentos em movimento, e a importância de conhecer o potencial do ativismo político digital. Confira a entrevista completa.

O Pulsão começou como um filme sobre um evento, e se transformou em algo maior. Como foi o processo de refinamento deste roteiro?

Di Florentino: As primeiras conversas vieram da vontade de fazer um documentário sobre o Circo da Democracia, um evento importante de resistência realizado em 2016 em Curitiba e no qual tivemos a oportunidade de produzir os conteúdos audiovisuais, até com transmissão ao vivo. Esse trabalho também teve um bom retorno de público nas redes sociais. Como o material é muito importante historicamente, a gente queria transformá-lo em um longa-documental. Portanto, em conversas com os envolvidos na concepção da obra e de uma vontade de tratar de temas que estavam aflorando na época, como é o caso dos efeitos da desinformação nas redes sociais e do uso dos algoritmos para disseminar o ódio, surgiu o Pulsão. Eu havia escrito um argumento de curta-metragem que acabou não indo pra frente que se chamava Pós-verdade, tema que interessava a Trópico (produtora audiovisual do diretor), e se a ideia era a gente realizar uma obra que falasse sobre política no Brasil, o que mais poderia somar na cinematografia realizada no Brasil eram esses temas. E estamos aqui em 2020. Um tema difícil de lidar que desafiou e vem desafiando o campo jurídico.

Este projeto é diferente as produções anteriores da Trópico? O que te atraiu nele?

Di Florentino: Antes de realizar o Pulsão a Trópico havia produzido uma websérie documental chamada #manifesto – política de pessoa para pessoa. Foi um projeto independente com conteúdos postados nas redes sociais da produtora e que acompanhava as manifestações contra e a favor da saída de Dilma Rousseff da presidência da República. Foi possível acompanhar no “campo” a polarização política, as primeiras manifestações pró-Bolsonaro, pró-Lava-Jato e depois contra Michel Temer. Chegamos a uma marca de 3 milhões de visualizações e muitos compartilhamentos, comentários de pessoas contra e a favor do golpe. Em paralelo a isso, a Trópico realizou o #nosmanteremosfirmes, um curta-metragem sobre a Primavera Secundarista com a participação da atriz Letícia Sabatella e na sequência Acima da Lei, documentário premiado no Olhar de Cinema e que trata do primeiro encontro entre o ex-presidente Lula com o então juiz da Lava-Jato, Sérgio Moro. Todos esses projetos foram factuais. Depois disso veio o Pulsão, um filme de montagem, com muita pesquisa de imagens.

E o trabalho de pesquisa? Como vocês chegaram nas fontes, e quais dificuldades enfrentaram?

Sabrina Demozzi: A pesquisa é a base mais elementar de qualquer documentário e também tem diferentes etapas. Fazer leituras, participar de eventos, conversar com pessoas e assistir a referências norteadoras foram alguns dos caminhos adotados. Mas, também foi preciso fazer uma netnografia, isto é, entrar em grupos do WhatsApp e do Facebook, bem como, seguir canais no Youtube, que de alguma forma apresentavam comportamentos mostrados no filme. Para além disso, muita gente colaborou com sugestões e ideias que íamos trabalhando e vendo se encaixava na narrativa. O desafio, neste sentido, foi o de tentar conciliar diferentes expectativas que eram muitas e se transformavam continuamente.

Como foi a experiência de trabalhar por tanto tempo neste projeto? Vocês gostariam de repetir?

Sabrina Demozzi: Documentários levam anos para serem finalizados, pois são diversas etapas que exigem dedicação, pesquisa e imensa “capacidade de adaptação” para lidar com a realidade, que é dinâmica. Isso significa dizer que, diferente da ficção, um documentário pode se transformar no caminho já que as pessoas mudam, as situações se renovam e assim por diante. Apenas como exemplo: os documentários recentes indicados ao Oscar, Honeyland e American Factory, levaram respectivamente cinco e nove anos para finalmente poderem ser exibidos ao público. Nós adoramos audiovisual e documentários, essa é a nossa razão de ser. Repetir processos, contudo, não é o mais adequado, pois cada filme e história pedem posições e intenções diferentes de quem está criando e se envolvendo no projeto.

Di Florentino: Fazer filmes é como fazer uma tese. Eu costumo brincar que escolher ser cineasta é viver fazendo teses, pois a cada objeto escolhido precisamos nos aprofundar e muito, ainda mais se tratando de longa-metragem. Agora, pensemos na responsabilidade de fazer escolhas num filme que trata do tema político. Somado a isso, pensemos em realizar um filme vivo sobre política, que nem nós mesmos como realizadores sabemos a reviravolta política que vai acontecer no Brasil. Foi difícil fazer escolhas. Daqui pra frente prefiro ter distanciamento histórico para tratar de alguns temas.

Quais dificuldades se apresentam na hora de fazer um filme sobre eventos que ainda estão acontecendo?

Sabrina Demozzi: Existem inúmeras formas de fazer documentários e o registro “factual” ou do tempo presente é algo que é bastante comum e relaciona-se com as reportagens especiais, próprias do jornalismo. O aspecto negativo disso, em minha leitura, é o risco da superficialidade na construção da narrativa, que tende a se tornar demasiadamente pedagógica em detrimento da história e da potência visual. A definição de “recortes” da realidade é bastante importante para o desenvolvimento de documentários e neste sentido, creio que as dificuldades se deram mais nesta linha, a de chegar um momento em que muita coisa “tinha” que ser dita.

Di Florentino: Como chegar em uma profundidade temática de algo que ainda nem foi investigado, que está vivo? Apesar de escolher um lado, como fazer escolhas narrativas que possa trazer o espectador para a reflexão em um momento tão polarizado? Em um momento de tanta informação nas redes sociais, tantas mídias, quais as melhores escolhas imagéticas para levar pra ilha de edição?

Como foi trabalhar com um tema tão polêmico quanto a “política”? Vocês se sentiram frustrados em algum momento com os acontecimentos que retrataram?

Sabrina Demozzi: A política é indissociável da nossa vida e como todo tema pertinente à nossa existência como indivíduos que vivem em sociedade, deve ser discutido. Transformar política em “polêmica” é um jeito de afastar as pessoas de debates essenciais para a cidadania, a justiça social e a dignidade. Vejo que devemos refletir sobre isso em nosso cotidiano, como trazemos em Pulsão, buscando mostrar para as pessoas os impactos de determinadas atitudes, sentimentos e posições que ganham corpo nas redes sociais e nos transformam profundamente.

Vocês acham que foram afetados por este trabalho de alguma forma? O filme faz um mergulho sobre a influência das redes sociais. Isso mudou algo na forma como vocês encaram ou usam essas ferramentas?

Sabrina Demozzi: Certamente, tanto em aspectos subjetivos quanto objetivos. Vejo que se trata de uma postura em que devemos “nos apropriar” da tecnologia para nos potencializarmos como seres humanos e não o contrário. Creio que a radicalização abordada no filme, trouxe diversos temas à tona e também novas formas de lidar com discursos de ódio, violência e desinformação. Trata-se de uma luta que não vai cessar e por isso, precisamos entender o funcionamento desse universo.

Di Florentino: Eu digo que foi muito doloroso fazer parte desse processo e não poder fazer nada mais. Não poder mudar a história, entender semioticamente várias coisas e de certo modo estar impotente. Ver nascer e disseminar de forma inimaginável tantas fake news. Testemunhar um Brasil soberano para um Brasil cheio de ódio.

Vocês estão satisfeitos com o produto final? Há algo que mudariam?

Sabrina Demozzi: Estamos contentes sim. Dedicamos muito trabalho e energia nesse processo. Mudaria algumas abordagens… Acho que esse é um sentimento comum de quem trabalha com audiovisual. Não vou contar o quê pra não estragar a surpresa de quem vai ver o filme. Fica aí como uma resposta em aberto.

Di Florentino: Não sou mais o mesmo realizador que realizou determinado filme há dois, três ou mais anos. A gente muda. Esses dias mesmo revisitei filmes e hoje mudaria coisa ou outra. Acho que nós cineastas nunca estamos satisfeitos. Mas se tem uma coisa boa é quando, por mais que você queira mudar coisa ou outra num filme passado, você sente que fez boas escolhas como diretor, você se sente espectador, esquece dos perfeccionismos e embarca na história.

Vocês revisitariam o tema com distanciamento histórico? Daqui 10 ou 20 anos?

Sabrina Demozzi: Naturalmente. O tema é potente e os desdobramentos podem ser muitos. Pessoalmente, gostaria de crer que daqui a 20 anos, possamos ter aprendido com o que estamos vivendo e trazer um olhar mais propositivo sobre as relações entre cultura digital e política no Brasil.

O documentário não tem um ponto final. Vocês gostariam de continuar acompanhando essa história?

Sabrina Demozzi: Vejo que cada pessoa vai construir sua leitura sobre isso, até porque a realidade político-tecnológica no Brasil é tão surpreendente quanto o que trazemos no filme… Eu gostaria, conforme mencionei anteriormente, daqui 5, 10 anos, retratar uma “virada” nessa história, quem sabe até mais otimistas em relação ao nosso futuro.

Di Florentino: Meu desejo é fazer o que for possível para que possamos nos livrar de tanto ódio e mentiras no que se refere à política no Brasil. Que venha um cuidado especial com o meio ambiente, um país regido por alguém que transmita paz e realize ações pela a transformação social.

O filme inspirou alguma ação ou projeto?

Sabrina Demozzi: Como a Trópico trabalha a partir das bases do Audiovisual de Impacto, sempre pensamos na continuidade dos conteúdos produzidos para que mais gente possa ter contato com mensagens importantes. Provavelmente, após a exibição, devemos compartilhar alguns materiais que tem propósito educativo e de discussão.

Di Florentino: Inspirou um próximo projeto de ficção, quero voltar a realizar um filme com este formato. Só não posso revelar o recorte do tema ainda.

Pulsão será lançado nesta sexta-feira (4), às 19h no YouTube, quem quiser assistir basta acessar aqui.

Assista ao trailer: