O transplante de órgãos é um tratamento eficaz para prolongar e melhorar a qualidade de vida de pacientes com doenças crônicas terminais, mas esse tipo de tratamento tem uma particularidade, a necessidade de órgãos de outras pessoas que faleceram. A questão é que somente uma pequena fração das pessoas que falecem podem ser doadoras, as portadoras de um diagnóstico de morte encefálica.

O encéfalo engloba nosso cérebro e este uma vez acometido por uma lesão irreversível – um derrame ou traumatismo graves por exemplo – resulta na incapacidade da manutenção da vida. Por algum período o organismo mantém a função circulatória, intervalo que permite a doação de órgãos viáveis para utilização em outra pessoa. Somente após o diagnóstico da morte encefálica que a família é abordada e questionada sobre uma possível doação. Vindo a negativa familiar para a doação, o tratamento se encerra e os aparelhos de suporte são desligados.

As emoções regem a doação de órgãos, não o raciocínio lógico e analítico. Quando a família nega a doação esse ato ou reflete um desejo expresso pela pessoa morta ou na maioria das vezes o desconhecimento do seu desejo. Esse fato reforça a importância de expressarmos em vida nossa opinião sobre o tema doação de órgãos. Campanhas de conscientização reforçam isso, sob os mais variados motes: “Doação de órgãos, fale sobre isso”, “Doar órgãos é um gesto de amor”.

Falsos conhecimentos populares, os mitos, podem alimentar as emoções, servindo de combustível para a falta de convicção na doação, resultando na negativa familiar. A origem delas pode ser visualizada em três grandes grupos, o primeiro relacionado a características pessoais do doador, o segundo ao sistema de transplante e por último ao atendimento de saúde prestado.

– Não sou muito idoso ou tenho outras doenças?

A idade do doador não é um fator determinante para a doação, conhecemos as diferenças entre a idade cronológica e biológica. Muitos doadores com idade acima de 60-70 anos possuem órgãos perfeitamente adequados para transplante, assim como doadores jovens algumas vezes tem os órgãos inadequados para o uso. Histórico de doenças também não deve ser considerado como um fator excludente. As doenças podem afetar um ou outro órgão alvo, poupando outros de danos, somente uma avaliação individualizada é capaz de determinar isso.

– Minha família não será onerada financeira ou emocionalmente?

A família do doador não tem nenhuma obrigação financeira após a doação e nenhum tipo de custo extra no funeral em decorrência da doação. O corpo não é mutilado, é perfeitamente reconstituído, permitindo seguramente a realização de velórios. As famílias envolvidas no ato, tanto do doador, quanto do receptor, não tomam conhecimento da identidade de seus pares. Isso evita potenciais situações constrangedoras e até ilegais.

Esse tipo de sigilo pode auxiliar indiretamente nas dúvidas referentes ao sistema de transplante. Dúvidas genuínas, não obstante inverídicas, como eventual favorecimento de pessoas social ou financeiramente privilegiadas. Esse tipo de dúvida ganhou bastante repercussão quando Steve Jobs, mundialmente conhecido multimilionário fundador da Apple, recebeu um transplante de fígado nos Estados Unidos, em breve período após inscrito para transplante. Nada errado aconteceu ali, todas as regras foram seguidas, porém sempre suscitam dúvidas e alimentam mitos.

O funcionamento do sistema de transplantes é sempre fator de desconfiança. É notória a desconfiança da população brasileira e as queixas recorrentes ao sistema público de saúde. Pesquisa recente do Datafolha encomendada pelo Conselho Federal de Medicina demonstrou que para 99% da população há carência de condições adequadas para o pleno exercício das atividades médicas. Pois é justamente nesse sistema que o paciente é atendido e a família sente-se insegura ao receber a notícia da morte encefálica, mesmo que transmitida pelo profissional que goza de maior confiança entre a população, dados da mesma pesquisa.

Como o conceito de morte encefálica não é de fácil compreensão, contrastante ao conceito da morte por falência circulatória – coração para – confusão sobre as diferenças com o coma, com sedação, acabam alimentando o medo. Será que de antemão todos os recursos não serão dispendidos no tratamento caso se saiba que o paciente é doador de órgãos? Será que o diagnóstico realmente está correto?

As regras de diagnóstico da morte encefálica são bem determinadas pelo Conselho Federal de Medicina e todas as etapas são rigidamente controladas pela Central Estadual de Transplantes. Os passos do diagnóstico envolvem atuação de mais de um médico, sempre embasada na realização de exames complementares e nenhum envolvimento com membros de equipes que realizam os transplantes. As regras de distribuição dos órgãos doados são descritas em legislação específica, sob escrutínio do estado, seguindo um sistema informatizado e transparente.

Percebam a quantidade de dúvidas que todo esse processo de doação de órgãos é envolvido. Quem poderá exigir discernimento adequado de uma família enlutada?

Podemos auxiliar a diminuir a taxa de negativa à doação tentando desanuviar os mitos existentes. A informação prévia pode auxiliar quando em um eventual momento em que a família tenha um ente querido com o diagnóstico de morte encefálica, a convicção na doação já esteja presente. Dito isso sempre é importante todo o mês de setembro – o setembro verde – divulgarmos a importância da temática da doação de órgãos.

por Fábio Silveira é médico (CRMPR20009), do Centro Digestivo e Transplante de Órgãos e Hospital do Rocio.