Eles são um dos símbolos mais conhecidos dos Estados Unidos. Os cavalos selvagens, os famosos mustangs, estão ligados à imagem de liberdade do Oeste americano. Mas uma política do próprio governo dos EUA vem colocando em dúvida o destino de milhares desses animais.
O Bureau of Land Management (BLM), órgão federal responsável pelo manejo dos cavalos selvagens, mantém programas de captura, adoção e venda. Em determinadas situações, animais mais velhos ou que não conseguiram adoção podem ser vendidos a partir de apenas US$ 25.
O número de vendas cresceu muito. Dados do BLM mostram que 3.718 cavalos e burros foram vendidos em 2025, contra 1.509 no ano anterior.
Depois do resgate de um animal, quem fica com a conta?
Oficialmente, esses animais não podem ser vendidos com a finalidade de abate. O comprador assume o compromisso de garantir tratamento humanitário e não encaminhá-los para frigoríficos ou intermediários dessa cadeia.
O problema começa depois da venda.
Investigações recentes levantaram dúvidas sobre o destino de alguns desses cavalos após passarem para as mãos de particulares. Há registros de animais entrando na chamada ‘’slaughter pipeline’’, uma cadeia de comerciantes e intermediários que pode terminar em frigoríficos no Canadá ou no México.
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E não seria a primeira vez. Em 2015, uma investigação do próprio Departamento do Interior dos Estados Unidos revelou que um comprador havia adquirido aproximadamente 1.700 cavalos do governo. Aos investigadores, ele admitiu que a maioria acabou encaminhada ao abate por meio de compradores que levavam os animais para o México.
E por aqui?
Curitiba adotou um caminho diferente.
Desde 2015, a Lei Municipal 14.741 proíbe a utilização de veículos de tração animal na cidade. Cavalos apreendidos nessas condições ou em abandono, podem ser apreendidos e encaminhados para avaliação de saúde, microchipagem e posterior adoção.
Mas não basta simplesmente levar o cavalo para casa.
A regulamentação determina que o adotante tenha propriedade ou posse de área rural fora de Curitiba, com cadastro na ADAPAR, e assine documento garantindo que o animal não será utilizado para qualquer tipo de trabalho na propriedade.
Há ainda uma diferença importante: o adotante deve prestar contas anualmente ao Município sobre as condições do cavalo e está sujeito a vistorias da Rede de Proteção Animal.
É uma forma de tentar garantir que a retirada de um animal de uma situação de exploração não signifique apenas transferir o problema para outro lugar.
Quanto vale a liberdade?
Há uma triste ironia na história americana. Em 1971, os Estados Unidos aprovaram uma lei federal para proteger seus cavalos selvagens, considerados símbolos vivos da história e do espírito pioneiro do país.
Mais de meio século depois, alguns desses mesmos animais podem ser comprados por US$ 25.
A liberdade dos mustangs vale muito mais do que isso. O problema é descobrir se, depois de vendidos, alguém ainda está olhando por eles.
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Não se pode afirmar que todos os cavalos vendidos pelo governo americano terminem em frigoríficos. Mas os casos já documentados mostram que esse caminho existe.
A experiência de Curitiba ajuda a mostrar que retirar um cavalo de uma situação inadequada é apenas a primeira parte do trabalho. É preciso saber para onde ele vai e garantir que continuará protegido depois da adoção.
Porque proteção animal não termina quando o animal muda de responsável.
