As eleições terminaram e, para quem trabalha pela proteção animal, começa agora o momento mais importante: transformar propostas em ações concretas. No Paraná e no Brasil, temos motivos para alimentar expectativas, mas também a responsabilidade de acompanhar e cobrar os novos governos.
No Paraná, a eleição de Sergio Moro traz uma oportunidade importante. Durante a campanha, ele recebeu a Agenda Animalista – Eleições 2026, documento construído coletivamente por organizações de proteção animal, universidades, especialistas e representantes de diferentes regiões do estado.
A Agenda apresenta propostas para mudar a maneira como o Paraná cuida de seus animais. Entre as principais reivindicações estão a criação de um Sistema Estadual de Proteção Animal, a ampliação e qualificação do CastraPet, a implantação de hospitais veterinários regionais, a identificação de cães e gatos, o fortalecimento da fiscalização e a criação de fontes permanentes de financiamento.
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Também estão entre as propostas o apoio efetivo às ONGs e aos protetores independentes, a criação de um Banco de Ração Estadual e de uma Farmácia Popular Veterinária, além da formação de consórcios intermunicipais para ampliar o atendimento veterinário.
A Agenda contempla ainda a proteção da fauna silvestre, com o fortalecimento do Instituto Água e Terra (IAT), a ampliação dos centros de atendimento e reabilitação, o combate ao tráfico de animais e a preparação para resgates em desastres ambientais.
Depois do resgate de um animal, quem fica com a conta?
Espero que Sérgio Moro aproveite esse trabalho coletivo e abra espaço para a participação efetiva das entidades. Receber a Agenda foi importante, mas o que realmente fará diferença será transformar suas propostas em políticas públicas.
No cenário nacional, a reeleição do Presidente Lula também gera expectativas. Seu governo apresentou avanços importantes, como a criação do ProPatinhas e do SinPatinhas, voltados à castração, identificação e controle populacional de cães e gatos. Também houve ampliação dos investimentos federais e endurecimento das multas administrativas por maus-tratos.
Entretanto, há uma questão que considero especialmente preocupante: o programa federal de castrações não pode ficar concentrado nas mãos de poucos deputados federais, dependendo de suas emendas parlamentares e interesses políticos, sem uma fiscalização rigorosa por parte do governo.
Não podemos aceitar que o sucesso de um programa seja medido apenas pela quantidade de animais castrados. Castração é procedimento cirúrgico, exige profissionais habilitados, anestesia adequada, estrutura, acompanhamento e responsabilidade. Não adianta quantidade sem qualidade. Uma castração mal realizada pode representar sofrimento, sequelas e até a morte do animal.
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E os alertas não são novos. No Paraná, denúncias envolvendo serviços de castração já motivaram questionamentos sobre condições técnicas, protocolos anestésicos, segurança dos animais e fiscalização dos contratos. O próprio Conselho Regional de Medicina Veterinária identificou irregularidades em campanhas, incluindo problemas de infraestrutura e higienização.
No âmbito federal, também surgiram denúncias graves. Em São Paulo, uma investigação jornalística apontou indícios de cadastros inconsistentes e possíveis castrações de animais inexistentes em um programa financiado por emendas parlamentares. O Ministério do Meio Ambiente anunciou a apuração. No Rio de Janeiro, a Polícia Federal investiga suspeitas de fraudes em contratos milionários de castração. São casos distintos, ainda sujeitos às respectivas apurações, mas que demonstram a necessidade de controles muito mais eficientes.
O governo federal precisa assumir a coordenação efetiva dessa política, com critérios técnicos uniformes, transparência na escolha das entidades executoras, fiscalização presencial, rastreabilidade dos recursos e acompanhamento dos resultados. O dinheiro público deve atender aos animais e à população, não servir como instrumento de promoção pessoal ou eleitoral de parlamentares.
Precisamos também avançar no financiamento direto de projetos de ONGs, ampliar o atendimento veterinário à população de baixa renda e fortalecer o combate aos crimes contra animais domésticos e silvestres.
Defendo especialmente a criação de mecanismos que permitam destinar parte do Imposto de Renda às entidades de proteção animal, como já acontece em outras áreas. Seria uma conquista importante para milhares de organizações que sobrevivem de doações e trabalho voluntário.
Depois de tantos anos trabalhando nessa causa, tenho convicção de que não faltam diagnósticos, propostas ou pessoas dispostas a ajudar. O que ainda falta, muitas vezes, é vontade política para transformar tudo isso em realidade.
A proteção animal não pode ser apenas uma bandeira eleitoral, utilizada em discursos, fotografias e redes sociais. Precisa ser reconhecida como uma responsabilidade permanente do poder público.
Espero que Sérgio Moro, no Paraná, e Lula, no Brasil, compreendam essa responsabilidade e estabeleçam um diálogo verdadeiro com as organizações que conhecem a realidade dos animais.
As eleições passaram. Agora é hora de trabalhar, fiscalizar e cobrar resultados.
Porque os animais não precisam de promessas, números para propaganda ou disputas políticas. Precisam de respeito, segurança e políticas públicas que realmente funcionem.
