À primeira vista, conhecer o Chile no verão não parece uma decisão muito inteligente. Conhecido por ter em seu território grande parte da exuberante Cordilheira dos Andes, o país é um dos destinos preferidos dos apaixonados por neve, esportes de inverno e vinhos. Mas, se o destino principal for Santiago, a ideia já não é tão esquisita.
Com poucos turistas e muito menos chilenos (que vão curtir as praias no período de janeiro), a cidade abraça quem busca um turismo diferente, focando em história, belas paisagens e, claro, bons vinhos, já que as viñas que circundam toda Santiago nunca fecham e oferecem diversas opções de visitas guiadas.
+ Leia mais: Eclipse Lunar de 3 de Março: Tudo o que você precisa saber sobre a “Lua de Sangue” e os boatos de “Apagão”
Para quem é de Curitiba – e diversas cidades brasileiras – a opção de se ter um voo direto para Santiago o ano todo deixa o planejamento muito mais interessante. Desde novembro de 2022, parte do Aeroporto Afonso Pena (em São José dos Pinhais), com ida às terças, quintas e sábados (saída às 17h40 do Afonso Pena e 13h20 de Santiago), um voo operado pela Latam, com Airbus A320 e duração média de 3 horas.
História chilena de “prato principal”








Nosso roteiro no Chile tinha 3 dias úteis, ou seja, dias completos. Como no Brasil, o dia foi dividido em três refeições: café da manhã, almoço e janta. Para rechear os espaços entre elas, a programação incluiu uma visita guiada ao chamado “Centro Velho” de Santiago, nosso primeiro compromisso oficial do passeio.
A chegada na noite anterior teve uma recepção calorosa no AC Costanera, um dos hotéis mais novos da cidade. Aliás, todas as hospedagens da viagem foram em hotéis da rede Marriott, uma das maiores do mundo. Noite bem dormida, chuveiro de hotel – uma das coisas mais gostosas para quem morou em casas com chuveiro elétrico a vida toda – e café da manhã reforçado.
Nossa guia no passeio de van foi Ana Maria Alarcón, que está na labuta desde 1994. Que me desculpem os mais novos, mas cabelos brancos e rugas são essenciais para um bom guia de turismo, especialmente para os que vão falar da cidade, sua gente, seus prédios e ruas. Dá para decorar tudo, claro, mas só quem viveu – e vive aquilo na pele, na sola do sapato – sabe o que dizer, como dizer e até o que não dizer para um visitante. Golaço da OTSI, operadora de turismo chilena que nos assistiu no passeio.
A primeira parada foi no Cerro Santa Lucía. Antes, porém, nosso caminho incluiu uma passada na frente do Centro Cultural Gabriela Mistral, escritora e educadora que ostenta para o mundo – em nome da bandeira chilena – o título do Prêmio Nobel de Literatura, conquistado em 1945. Um orgulho nacional, que precisa ser conhecido pelos brasileiros (clique aqui para saber mais sobre ela).
O Cerro Santa Lucía é literalmente um morro encravado no coração de Santiago. Na cidade que tem a Cordilheira dos Andes como paisagem em praticamente todas as janelas, é fácil imaginar uma minimontanha no meio do “nada”. A van vai até uma parte, as pernas assumem o resto da missão. Algumas rampas e escadarias depois, uma visão privilegiada da bela Santiago, em 360 graus. Não tem como fingir costume ao olhar para aquelas montanhas. É lindo.
Dali fomos direto para uma das esquinas mais famosas da cidade: ruas Paris e Londres. Por aquelas vielas muita coisa aconteceu ao longo da história chilena. Sede de alguns partidos políticos, os prédios que se distribuem pelas ruas estreitas testemunharam discussões e momentos marcantes, que ajudaram a definir quem eram os chilenos na linha do tempo de suas próprias histórias.
Na Rua Londres, especificamente no número 38, fica a sede de um antigo hospital ginecológico que foi transformado em centro de detenção (e tortura) secreto da DINA (Direção de Inteligência Nacional) entre 1973 e 1975, quando o país já estava sob o regime do ditador Augusto Pinochet.
Dezenas de jovens idealistas, inconformados com o modo como o país foi conduzido nos meses recentes, foram vítimas de várias atrocidades. Seus nomes hoje estão gravados em placas que ajudam a formar a calçada em frente ao prédio, para eternizar a vergonha da violência que sangrou a democracia no Chile pouco tempo antes.
Ali perto, a Igreja (e museu) em homenagem a São Francisco de Assis também é parada obrigatória. A construção resistiu a muitos dos terremotos que costumam atingir a região.
Casa de la Moneda e a porta Morandé 80
Bem próxima da Plaza de Armas, marco zero de Santiago – onde o conquistador espanhol Pedro de Valdivia começou a construir a cidade – e a poucas quadras da Catedral de Santiago, maior igreja católica da cidade e ponto de encontro e peregrinação da região, está a Casa de La Moneda. Prédio central de todo o setor administrativo da capital – onde prédios de ministérios se enfileiram por toda a região –, é a sede presidencial. Originalmente a casa da moeda no século XVIII, tornou-se o palácio do governo em 1846 e foi palco do golpe de 1973 contra Salvador Allende.
O prédio, no estilo neoclássico, estava em reforma quando passamos por ali. Mas um dos monumentos que mais me chamou a atenção está do outro lado da rua, na calçada que fica bem em frente a uma porta relativamente comum, que dá acesso direto para a rua, ao lado do prédio presidencial: a Porta Morandé 80.
Aberta em 1906 pelo presidente Pedro Montt, a porta simbolizava uma aproximação do poder político do Chile com o povo. Era um acesso informal ao palácio, sem os protocolos de uma guarda presidencial, por exemplo. O palácio foi palco do golpe militar de 1973, quando as tropas comandadas pelo general Augusto Pinochet bombardearam o local, obrigando o presidente Salvador Allende a ficar aquartelado junto com seus principais apoiadores, que não abandonaram o líder e o “barco” até os momentos finais de Allende. Após seu último discurso à nação, e depois de tentar convencer seus apoiadores a uma rendição pacífica, o ex-presidente chileno tirou a própria vida.
O corpo de Allende foi retirado pela Porta Morandé 80, que foi selada pelo governo Pinochet e assim permaneceu até 1981, numa tentativa de apagar o poder popular na cidade de Santiago. Em 2003, 30 anos após o golpe, a porta foi reaberta, devolvendo ao povo um símbolo da democracia.
Mais 20 anos depois, dessa vez em cerimônia que marcou os 50 anos deste capítulo essencial na história nacional, em 2023, do outro lado da rua, na calçada, foram gravados os nomes de Allende e de cada um dos homens que ficaram ao seu lado até o último suspiro. Um monumento que lembra que a liberdade de um povo às vezes custa caro demais para quem a defende.

O passeio seguiu com visitas rápidas a outros prédios marcantes na história chilena, mas o destino final também merece um capítulo à parte: Le Méridien, nosso hotel “da vez”. Bem no Centro, ao lado da Igreja São Francisco de Borja, queimada por manifestantes durante protestos em 2019, o hotel já recebeu a seleção brasileira de futebol, o que nos rendeu ótimas histórias dos gerentes que lá trabalhavam em 2015, durante a Copa América.
Estradas e vinhos









No segundo dia, pegamos a estrada com destino a Casablanca, distante cerca de 70 quilômetros de Santiago, mais perto de Viña del Mar e Valparaíso do que da capital. Lá conhecemos a Casas del Bosque, um vinhedo incrível para quem busca vinhos premiados e culinária de primeira. São três restaurantes e um wine bar, além de espaço para eventos e uma programação que inclui a chance de provar os vinhos premiados do local, como o La Trampa e os da série Botanicals.
São 150 hectares plantados com boa variedade de uvas: syrah (shiraz), pinot noir, sauvignon blanc, cabernet e carmenere, e até malbec – mais comum na Argentina, mas que tem um espacinho especial na viña. Nossa anfitriã foi Pamela Villablanca, que conhece cada parreira daquele lugar. Simpática e acessível, passeou pelas instalações com a gente, explicando cada detalhe e rindo de cada bobagem que falávamos, numa integração total com o grupo, o que tornou a experiência ainda mais calorosa.
Na viña existem três restaurantes – um é a Casa Mirador, um lugar “de filme”, no meio dos vinhedos, ao lado da árvore que é o símbolo da empresa e está em rótulos e marcas – e um wine bar. Após visitar as instalações, participar de uma degustação guiada e saborear algumas harmonizações com “entradas” de alta gastronomia, conhecemos a grande horta que fornece tudo o que os restaurantes consomem. E fomos recebidos para um almoço incrível no Restaurante Botânico.
Para fechar a noite, fomos conhecer (apenas visitar) o hotel W e jantar no Karai, um dos melhores restaurantes do mundo. O dono e chef é ninguém menos que Mitsuharu Tsumura, dono do celebrado Maido – o melhor do The World’s 50 Best Restaurants 2025 – que fica em Lima, no Peru.
O Karai, por sua vez, é o 45º melhor restaurante do Latin America’s 50 Best Restaurants. Foi uma experiência realmente indescritível, especialmente para quem não é (ou era) muito afeito à culinária oriental. Uma explosão de sabores, texturas e surpresas. Naquela noite, após o jantar, nos hospedamos no hotel Sheraton, um dos mais tradicionais de Santiago.
No terceiro dia, o passeio foi mais perto, mas igualmente surpreendente. Primeiro visitamos a cervejaria La Montaña (a primeira da América Latina 100% abastecida com energia solar), que fica no santuário El Ajial. Bebemos direto da fonte a água que corre da cordilheira e é usada na fabricação das cervejas. Não aprecio a bebida, mas quem provou a Yuta Ahumada (cerveja defumada) ficou encantado com o sabor único do principal rótulo da pequena cervejaria artesanal no pé da cordilheira. O mate que eles produzem, e que eu provei, é delicioso.














Em seguida, fomos direto para a Viña Santa Rita, considerada pela revista Forbes a melhor do mundo em 2025. Pouco conhecedor de vinhos que sou, não fazia ideia do que estava prestes a conhecer. Uma antiga vila do século retrasado, totalmente preservada, que nos levou a uma viagem ao passado.
O nosso hotel – Casa Real, com pouquíssimos quartos (e uma diária de balançar a conta bancária) – é um casarão construído por Domingo Fernández Concha, datado de mais ou menos 1885, que tem como grande jardim um parque de 40 hectares, com árvores centenárias e paisagismo internacional (construído por Guillermo Renner), com inspirações na França e Inglaterra. Lá estão, inclusive, araucárias enormes, de 150 anos, dando um ar de aconchego, de vizinhança, para um paranaense como eu.
Um museu conta toda a história do local e da região. O restaurante – chamado de “Doña Paula” Jaraquemada, em homenagem à matriarca da família que acolheu 120 soldados que lutavam pela independência do Chile (ficaram escondidos no porão que hoje é uma adega, que guarda exemplares raros dos principais vinhos produzidos no último século) – serve o melhor da gastronomia chilena.
O fim de tarde contou com nova degustação de vinhos e uma bela tábua de frios na varanda que tinha o enorme jardim como paisagem. Uma experiência quase exclusiva para mim e meus companheiros de viagem, para fechar o passeio da melhor e mais confortável forma possível.
* O jornalista viajou à convite da Latam e Fedetur!


