O candomblé brasileiro perdeu uma de suas maiores referências no último domingo (15/02). Luiz Bangbala, considerado o ogan mais velho do país, faleceu aos 106 anos no Rio de Janeiro após mais de oito décadas dedicadas à religião de matriz africana.
O corpo do mestre dos mestres será sepultado na tarde desta terça-feira (17/02), no Cemitério Jardim Mesquita, na Baixada Fluminense, região onde construiu grande parte de sua história.
Bangbala estava internado desde 31 de janeiro no Hospital Municipal Salgado Filho, lutando contra uma infecção nos rins. A triste notícia foi compartilhada nas redes sociais por sua esposa, Maria Moreira, em uma mensagem emocionada: “Hoje o candomblé perdeu uma das figuras mais importantes, o Comendador Ogan Bangbala, o mais velho ogan do Brasil, o mestre dos mestres. Meu coração sangra de tanta dor, vá em paz meu amor, meu orgulho, meu mestre”.
Nascido como Luiz Ângelo da Silva em 21 de junho de 1919, em Salvador, Bahia, Bangbala iniciou sua jornada no candomblé ainda jovem. Como ogan, assumiu a fundamental responsabilidade de tocar os atabaques e conduzir o ritmo durante as cerimônias de recepção dos orixás. Na juventude, migrou para Belford Roxo, na Baixada Fluminense, onde estabeleceu raízes até seus últimos dias.
Mas seu legado vai muito além dos terreiros. Bangbala foi um dos fundadores do afoxé Filhos de Gandhy no Rio de Janeiro, grupo que leva a cultura e religiosidade afro-brasileira para as ruas durante o carnaval. Sua contribuição musical é inestimável, tendo gravado dezenas de álbuns com cânticos de candomblé em língua iorubá, preservando sonoramente tradições ancestrais.
O reconhecimento de sua importância cultural veio em diferentes formas. Em 2014, recebeu a Ordem do Mérito Cultural, honraria concedida pela Presidência da República. Em 2020, foi tema de enredo da escola de samba Unidos do Cabuçu e, mais recentemente, em 2024, protagonizou uma exposição organizada pelo Centro Cultural Correios.
O babalorixá Ivanir dos Santos definiu Bangbala com precisão: “o grande griot das nossas tradições, não só dos ritos dos orixás, mas também dos ritos fúnebres”. O termo “griot”, de origem africana, refere-se aos guardiões da memória e tradições dos povos africanos.
“Ele nos deixou, mas vai sempre continuar presente aos nossos afazeres, no dia-a-dia dessas práticas. Agora ele também é um ancestral nosso. Que continua nos iluminando e sendo presente nas nossas ações dentro das casas de candomblé, dos blocos afros, dentro dessa cultura tão vasta que marca a identidade do povo afro-brasileiro”, complementou Santos.
