Por que tem tanto livro no mundo? Como funciona uma fábrica de galinha? Existe alienígena? Por que os adultos, quando choram, choram baixinho? A curiosidade de uma criança não tem fim, quando bem estimulada, e pode ter resultados surpreendentes. Todas essas são perguntas de crianças de 6 anos, alunas da Interpares Educação Infantil, em Curitiba – e cada uma delas deu origem a um projeto de pesquisa em que as crianças são encorajadas a perguntar mais e aprender mais. A pergunta de Samuel Itaborahy Discacciati parecia simples – como andar de bicicleta sem rodinhas? –, mas acabou fazendo com que ele se tornasse o inventor de um aparelho para ajudar outras crianças a realizar esse sonho.

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“Sempre aqui na escola a gente deu um espaço para ouvir o que é o interesse da criança. Uma criança, por exemplo, queria aprender como se faz batom. Entramos em contato com o Boticário e fomos até lá. Só que vimos que, com isso, matávamos a curiosidade. Ela ia lá, via, aprendia e pronto: aprendeu como faz batom”, conta a psicopedagoga Deyse Campos. “Com o tempo, entendemos que a função da escola não é matar a curiosidade, mas alimentar a curiosidade. E aí começamos a desenvolver um projeto de pesquisa a partir do interesse da criança”.

Foto: Reprodução/ Maria Scroccaro/Gazeta do Povo.

“Eu queria muito aprender como andar de bicicleta sem rodinha”, explica Samuel. “Você precisa ter muito equilíbrio e precisa ser bem rápido, e isso é muito difícil”. Com a ajuda da professora tutora de seu projeto, Dayse Campos, o garoto elaborou um plano de estudos sobre o tema – e, a partir de uma pergunta simples, aprendeu um pouco sobre matemática, sobre aplicativos de aluguel de bicicletas e de entrega, sobre a história do veículo e sobre mobilidade urbana.

“Quando ele aprendeu a andar de bicicleta sem rodinhas foi um marco. Ele falou para todo mundo. E fez uma lista das crianças que queriam aprender – ele anotava o nome para chamar um por um para ensinar”, conta Deyse. A psicopedagoga entrevista cada criança individualmente para delinear o tema de estudo de cada uma, dando origem a um plano que pode durar de seis meses a um ano, dependendo da extensão do assunto e da longevidade do interesse do aluno.

Foto: Reprodução/ Maria Scroccaro/Gazeta do Povo.

Bicimáquina

Foi daí que surgiu a ideia da bicimáquina, uma estrutura de madeira que permite que a criança exercite o pedalar, considerando o peso natural dos pedais e a velocidade necessária para alcançar equilíbrio. “Você fica com bastante equilíbrio e pedala bem rápido. É assim que você aprende. E precisa ter foco em você”, orienta Samuel.

O marceneiro José Carlos Nogarotto participou da execução do projeto, que reúne simplicidade, criatividade, baixo custo e a possibilidade de ser replicado facilmente. “Eu fiquei imaginando a ideia que ele tinha e pensei como poderia ajudar. Pediram para que eu desenhasse o que ele queria. Olhei para a bicicleta e cheguei no desenho dessa máquina”, conta Nogarotto.

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A participação do profissional se fundamenta na concepção da escola enquanto comunidade de ensino. Os pais também participam e conversam com os alunos da escola quando a sua formação pode responder à curiosidade de alguma criança. “O marceneiro da escola também ajuda no processo de aprendizagem”, diz Deyse. “É um universo de interação para dar conta de todos os saberes em que as crianças têm interesse. Não tem uma sala de aula específica, nem uma professora específica. Todos os professores são referências de ensino para a criança”.

Foto: Reprodução/ Maria Scroccaro/Gazeta do Povo.

As crianças compartilham uma vez por semana os resultados dos seus projetos. Samuel, então, também aprendeu sobre livros, planetas e fábricas de galinhas. “Esses projetos vêm da concepção de que cada criança tem o seu modo de pensar, a sua forma de agir, o seu interesse”, explica a psicopedagoga. “É nossa função como educadores ouvir a criança, conhecê-la e desenvolver as suas potencialidades”. A mãe, Chiara Itaborahy, aprova: “Já falei algumas vezes que queria voltar a estudar, porque assim deve ser muito mais gostoso”, diz. “Não é um aprendizado por obrigação. É um aprendizado natural, pela vontade de entender o mundo. É leve”.