O início da adolescência envolve transformações físicas, emocionais e sociais que podem trazer novos desafios. Para pré-adolescentes e adolescentes, conciliar as cobranças, as relações sociais, a rotina escolar e as mudanças no corpo com a construção da própria identidade pode despertar sentimentos que nem sempre são fáceis de compreender ou expressar.
Durante o Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre a prevenção do suicídio e à valorização da vida, o olhar atento de pais, responsáveis e educadores pode fazer diferença. Mais do que identificar sinais de sofrimento, é importante criar espaços seguros para que crianças e adolescentes possam falar sobre o que sentem sem medo de julgamentos.
“Nem sempre o adolescente vai dizer claramente que está sofrendo. Muitas vezes, o sofrimento aparece em mudanças de comportamento, irritabilidade, isolamento ou perda de interesse por atividades que antes faziam sentido. Por isso, precisamos estar próximos e disponíveis para ouvir, sem minimizar aquilo que ele está sentindo”, explica Priscilla Montes, educadora e especialista em Neuroeducação e Desenvolvimento Infantil, certificada pela Positive Discipline Association (PDA) e pós-graduanda em Neurociências e Desenvolvimento Infantil pela PUC-RS.
Mudanças de comportamento merecem atenção
Nem toda alteração de comportamento significa necessariamente que existe um problema de saúde mental. Entretanto, mudanças persistentes ou muito diferentes do padrão habitual da criança ou do adolescente merecem atenção.
Isolamento social, irritabilidade frequente, alterações importantes no sono ou no apetite, queda repentina no rendimento escolar, perda de interesse por atividades e dificuldade de concentração podem ser sinais de que algo está acontecendo.
“Precisamos observar o conjunto de mudanças e, principalmente, a duração delas. Uma oscilação de humor pode fazer parte do desenvolvimento, mas quando percebemos que aquele jovem está se afastando, deixando de fazer coisas que gostava ou demonstrando sofrimento por um período prolongado, é importante investigar o que está por trás disso”, orienta a especialista.
Muitos adolescentes estão recorrendo à IA para desabafar
Com a popularização das ferramentas de inteligência artificial, alguns adolescentes também passaram a recorrer a chatbots para falar sobre sentimentos, conflitos, inseguranças e problemas pessoais. A facilidade de conversar a qualquer hora e a sensação de não estar sendo julgado podem fazer com que a tecnologia pareça um espaço confortável para esse tipo de desabafo.
O uso, porém, exige atenção dos adultos. A IA pode participar de uma conversa, mas não substitui o vínculo humano, a escuta de um adulto de confiança ou a avaliação de um profissional de saúde mental.
“Quando um adolescente prefere contar para uma inteligência artificial algo que não consegue compartilhar com os adultos ao seu redor, precisamos olhar para isso como um sinal de que talvez esteja faltando um espaço seguro de escuta. A tecnologia pode até fazer parte da rotina, mas não deve ocupar o lugar das relações humanas e da rede de apoio”, alerta Priscilla Montes.

Escutar é diferente de dar respostas prontas
Diante de uma criança ou adolescente que demonstra tristeza, ansiedade ou angústia, a reação dos adultos pode influenciar a forma como ele passa a lidar com os próprios sentimentos. Frases como “isso é só uma fase” ou “você não tem motivos para estar assim” podem fazer com que o jovem se sinta incompreendido e deixe de compartilhar o que está vivendo.
O acolhimento começa pela escuta. Em vez de tentar solucionar imediatamente o problema, o adulto pode demonstrar disponibilidade, fazer perguntas abertas e validar os sentimentos apresentados. “Quando um adolescente fala sobre uma dificuldade, nem sempre ele está procurando uma solução imediata. Muitas vezes, ele precisa primeiro se sentir ouvido e compreendido. Validar o sentimento não significa concordar com tudo, mas mostrar que aquilo que ele sente importa e que ele não precisa enfrentar aquela situação sozinho”, afirma a especialista.
Redes sociais também podem influenciar a saúde emocional
As redes sociais fazem parte da rotina de muitos adolescentes e podem interferir na maneira como eles enxergam o próprio corpo, a vida social e a relação com outras pessoas. Comparações constantes, busca por aprovação e exposição a conteúdos que estimulam padrões irreais podem aumentar sentimentos de inadequação.
Por isso, acompanhar a relação dos jovens com o ambiente digital também faz parte do cuidado. O objetivo não é apenas estabelecer regras, mas conversar sobre o que eles consomem, como se sentem diante das redes e quais situações podem estar causando desconforto.
“Não basta perguntar quanto tempo o adolescente passa no celular. Precisamos entender o que ele está vivendo naquele ambiente e como aquilo está repercutindo emocionalmente. A conversa sobre redes sociais e tecnologia precisa fazer parte da relação de confiança entre adultos e jovens”, ressalta a educadora.
Criar uma rede de apoio é fundamental
Família, escola e profissionais especializados podem atuar de forma conjunta na identificação e no acolhimento de situações de sofrimento emocional. Quando há mudanças persistentes ou sinais de que o jovem não está conseguindo lidar sozinho com o que sente, buscar ajuda profissional é importante.
Também é fundamental que pais e responsáveis não tenham receio de conversar sobre sentimentos difíceis. Uma conversa aberta e cuidadosa pode ajudar a criança ou o adolescente a perceber que existe espaço para pedir ajuda.
“Precisamos ensinar desde cedo que pedir ajuda não é sinal de fraqueza. Crianças e adolescentes precisam saber que podem procurar um adulto de confiança quando algo estiver difícil demais para carregar sozinhos. O vínculo, a presença e a escuta são ferramentas importantes para a construção de uma rede de proteção”, conclui Priscilla Montes.
Por Maria Clara Montanha
