Variedades

O que significa água no pulmão? Veja as causas e quando é preciso drenar o líquido

A avaliação médica orienta se o líquido precisa ser analisado, drenado ou apenas acompanhado (Imagem: Studio Romantic | Shutterstock)

Ouvir que alguém está com “água no pulmão” costuma gerar preocupação imediata. A expressão é comum, mas pouco precisa. Na prática, pode indicar situações diferentes: líquido dentro dos pulmões, como no edema pulmonar, ou líquido ao redor dos pulmões, no espaço pleural, condição chamada de derrame pleural.

A diferença muda completamente a investigação e o tratamento. Em alguns casos, o problema é tratado com medicamentos e suporte respiratório. Em outros, pode ser necessário retirar uma amostra do líquido, drenar o acúmulo ou realizar procedimentos específicos.

O primeiro passo é entender a causa

Segundo revisão publicada em 2023 na American Family Physician, periódico da American Academy of Family Physicians, o derrame pleural afeta cerca de 1,5 milhão de pacientes por ano nos Estados Unidos. A mesma publicação aponta insuficiência cardíaca, infecções, câncer e embolia pulmonar entre as principais causas em adultos.

De acordo com o cirurgião torácico Dr. Alessandro Mariani, professor doutor de Cirurgia Torácica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e preceptor de cirurgia torácica robótica, o primeiro cuidado é entender onde está o líquido e por que ele apareceu.

“Quando alguém diz que está com água no pulmão, precisamos traduzir isso do ponto de vista médico. O líquido está dentro do pulmão? Está ao redor do pulmão? É consequência de uma doença cardíaca, de uma infecção, de um tumor, de uma embolia, de uma doença do fígado ou do rim? A conduta depende dessa resposta”, explica.

Edema pulmonar: líquido dentro do pulmão

No edema pulmonar, o líquido se acumula no tecido pulmonar e nos alvéolos, estruturas responsáveis pelas trocas gasosas. Segundo o Manual MSD, o edema pulmonar cardiogênico costuma estar associado à insuficiência ventricular esquerda grave e pode exigir oxigênio, suporte ventilatório, diuréticos e correção da causa de base.

No Brasil, a insuficiência cardíaca ajuda a explicar por que a expressão “água no pulmão” aparece com frequência. O editorial “Hospitalizations and In-Hospital Mortality from Heart Failure in Brazil: An Updated Overview”, publicado nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, aponta prevalência autorreferida de 1,1% entre adultos acima de 18 anos e 3,3% em pessoas acima de 60 anos. A publicação também informa mortalidade hospitalar por insuficiência cardíaca, variando de 9% a 17% em estudos nacionais de tendência temporal.

Ilustração de pulmões transparentes com acúmulo de líquido na porção inferior, representando água no pulmão
“Água no pulmão” é uma expressão popular que pode indicar acúmulo de líquido na região do tórax e pede investigação da causa (Imagem: Silver Place | Shutterstock)

Derrame pleural: líquido ao redor do pulmão

No derrame pleural, o líquido se acumula no espaço entre as pleuras, membranas que revestem o pulmão e a parede interna do tórax. As causas são variadas e incluem insuficiência cardíaca, pneumonias, tuberculose, câncer, embolia pulmonar, doenças do fígado, doenças renais, doenças autoimunes e complicações após cirurgias ou traumas.

Embora o Brasil não tenha uma base pública nacional específica para quantificar derrame pleural, algumas doenças associadas ao acúmulo de líquido no tórax têm peso epidemiológico importante. Segundo o Instituto Nacional de Câncer, a estimativa de novos casos de câncer de pulmão no Brasil para 2026 a 2028 é de 35.380 por ano. Ainda conforme o órgão, aconteceram 32.555 mortes por cânceres de traqueia, brônquio e pulmão em 2024.

A tuberculose também segue relevante nesse contexto, especialmente porque pode acometer a pleura. Segundo o Boletim Epidemiológico de Tuberculose 2026, do Ministério da Saúde, o Brasil registrou 84.368 casos novos da doença em 2025, com incidência de 39,5 casos por 100 mil habitantes. Em 2024, foram 6.376 óbitos em decorrência da condição, o maior valor da série apresentada no boletim.

“Derrame pleural não é uma doença. É uma manifestação. O líquido é consequência de algo que precisa ser entendido. Por isso, o erro é olhar apenas para o volume e esquecer a causa”, afirma o Dr. Alessandro Mariani.

Quando é preciso drenar?

Outro ponto importante é que nem todo derrame pleural precisa ser drenado. Quando o volume é pequeno, a causa é conhecida e o paciente não tem sintomas importantes, o acompanhamento e o tratamento da doença de base podem ser suficientes.

“Drenar não significa simplesmente tirar água. Significa decidir se aquele líquido precisa ser analisado, se está comprimindo o pulmão, se há infecção, sangue, suspeita de câncer ou risco de piora. A drenagem deve ter uma indicação clara”, explica o Dr. Alessandro Mariani.

A drenagem costuma ser considerada quando o derrame é volumoso e causa falta de ar, quando há suspeita de infecção pleural ou empiema, quando o líquido é recorrente, quando há suspeita de câncer ou quando precisa ser analisado para orientar o diagnóstico.

“Em pacientes com câncer, o derrame pleural muda muito a conversa. Nem todo líquido em paciente oncológico é necessariamente maligno, mas ele precisa ser investigado com critério. Quando o derrame é maligno e sintomático, o foco é controlar a falta de ar, evitar procedimentos repetidos desnecessários e escolher a melhor estratégia”, afirma o Dr. Alessandro Mariani.

O cirurgião destaca ainda que o líquido é a ponta do iceberg. “Se o paciente tem insuficiência cardíaca, pneumonia, tuberculose, câncer ou outra doença causando o derrame, a drenagem sozinha não resolve o problema. Ela pode ser necessária, mas precisa fazer parte de uma estratégia”, explica.

Quando procurar avaliação médica

A orientação é procurar avaliação médica quando há falta de ar nova ou progressiva, dor no peito, febre persistente, tosse importante, queda de saturação, cansaço desproporcional, histórico de câncer, perda de peso sem explicação ou quando um exame de imagem mostra líquido no tórax.

Para o Dr. Alessandro Mariani, o principal recado é não tratar “água no pulmão” como uma explicação suficiente. “Água no pulmão é uma expressão popular. O que precisamos saber é onde está esse líquido, por que ele apareceu e se ele precisa ser drenado. A resposta certa depende do diagnóstico, não apenas da imagem”, conclui.

Por Mariana Lanfranchi

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias do estado do Paraná!
Seguir no Google