Apesar de, na maioria das vezes, ser associado à falta de escovação, o mau hálito nem sempre está relacionado apenas aos hábitos de higiene. Mais do que uma questão estética, o odor desagradável pode afetar a autoestima e a convivência social e, em alguns casos, merece atenção.
Segundo o cirurgião-dentista Fernando Ferraz, identificar a causa é fundamental, principalmente quando o problema persiste mesmo depois da higiene bucal. “O mau hálito não deve ser tratado apenas tentando mascarar o odor. Quando ele é frequente, precisamos entender de onde está vindo. Muitas vezes, a origem está na própria boca e pode estar relacionada à língua, à gengiva, aos dentes ou à diminuição da saliva”, explica.
Abaixo, conheça as principais causas por trás do mau hálito.
1. Sangramento na gengiva
Gengiva saudável não deve sangrar durante a escovação ou o uso do fio dental. O sangramento recorrente pode ser sinal de gengivite ou de doença periodontal e precisa ser investigado. Além da presença de bactérias associadas à inflamação, o próprio sangue na cavidade oral pode contribuir para a alteração do hálito.
“Quando existe sangramento gengival, temos um ambiente que pode favorecer o mau odor. O sangue contém proteínas que podem ser metabolizadas pelas bactérias da boca, contribuindo para a formação de compostos de odor desagradável. Por isso, se a gengiva sangra com frequência, não adianta tentar resolver o mau hálito com balas ou enxaguantes. É preciso tratar a inflamação”, explica Fernando Ferraz.
O especialista alerta ainda para um comportamento comum: abandonar o fio dental quando a gengiva começa a sangrar. “Muitas pessoas percebem o sangramento e param de passar o fio dental justamente naquele local. Quando o problema está relacionado ao acúmulo de placa bacteriana, interromper a higiene pode piorar a inflamação. Se o sangramento persiste, é necessário procurar o dentista”, orienta.
2. Acúmulo de resíduos na língua
Aquela camada esbranquiçada ou amarelada que pode se acumular sobre a língua, principalmente na região posterior, é chamada de saburra lingual. Ela é formada por células que se desprendem naturalmente da mucosa da boca, microrganismos, componentes da saliva e resíduos alimentares que ficam retidos entre as papilas da língua.
“Costumo explicar de uma maneira bem simples: é como um acúmulo de resíduos da própria boca. São células que já se desprenderam, restos e microrganismos que não têm motivo para continuar depositados ali. Por isso, assim como higienizamos os dentes, também devemos remover delicadamente o excesso de saburra da língua”, explica Fernando Ferraz.
A saburra pode contribuir para o mau hálito porque algumas bactérias presentes nesse material degradam proteínas e produzem compostos voláteis responsáveis pelo odor desagradável. A limpeza pode ser feita com um limpador de língua, sempre de maneira delicada.
“Não precisamos raspar a língua com força nem tentar deixá-la completamente rosada. O objetivo é remover o excesso de material acumulado sem machucar as papilas. A limpeza da língua deve fazer parte da higiene bucal diária”, orienta.
3. Boca seca
A saliva exerce papel importante na proteção e na limpeza natural da boca. Quando sua produção diminui, resíduos e microrganismos permanecem por mais tempo na cavidade oral, o que pode favorecer alterações no hálito. A sensação de boca seca pode estar relacionada à baixa ingestão de líquidos, respiração pela boca, alterações na produção de saliva e diferentes condições de saúde.
“Existem pessoas que fazem uma boa higiene bucal e ainda assim apresentam halitose porque produzem pouca saliva. Nesses casos, precisamos descobrir o que está provocando a boca seca. Simplesmente aumentar o número de escovações não resolve a causa”, afirma o dentista.
4. Medicamentos que diminuem a produção de saliva
A boca seca também pode aparecer como efeito adverso de determinados medicamentos. Alguns antidepressivos, antialérgicos, anti-hipertensivos e outros fármacos podem interferir no fluxo salivar. “O paciente nunca deve interromper uma medicação prescrita por causa da boca seca. O dentista precisa conhecer os medicamentos que ele utiliza para avaliar se existe uma possível relação e orientar estratégias para reduzir os impactos na saúde bucal“, ressalta Fernando Ferraz.

5. As famosas “bolinhas brancas” nas amígdalas
Os cáseos amigdalianos, popularmente conhecidos como pequenas bolinhas brancas ou amareladas que aparecem nas amígdalas, também podem estar associados ao mau hálito. Eles se formam a partir do acúmulo de resíduos, células e microrganismos nas pequenas cavidades existentes nas amígdalas e podem apresentar odor bastante desagradável.
“Algumas pessoas têm cáseos com bastante frequência e percebem alteração no hálito. Nesses casos, é importante entender que a origem não está nos dentes. Quando o problema é recorrente ou vem acompanhado de outros sintomas, pode ser necessário encaminhar o paciente para avaliação com um otorrinolaringologista”, explica.
6. Cáries, próteses e restaurações
Cáries, próteses mal higienizadas e restaurações com problemas podem criar áreas de retenção de resíduos e placa bacteriana, contribuindo para o mau odor. “A pessoa pode escovar os dentes várias vezes ao dia, mas, se existe uma região que retém alimento ou placa e que ela não consegue higienizar adequadamente, o problema continuará. Por isso, quando a halitose persiste, é importante fazer uma avaliação completa da boca”, afirma Fernando Ferraz.
7. Alimentação e hábitos do dia a dia
Alho, cebola e bebidas alcoólicas podem provocar alterações temporárias no hálito. O tabagismo também contribui para o mau odor e está associado a problemas bucais que podem agravá-lo. Longos períodos sem comer também podem modificar o hálito em algumas pessoas. Por isso, além da higiene, é importante observar os hábitos ao longo do dia.
Cuidado com o uso do enxaguante bucal
Diante do mau hálito, muita gente recorre imediatamente ao enxaguante bucal. A sensação de frescor, entretanto, não significa que a causa tenha sido eliminada. A cavidade oral abriga centenas de espécies de bactérias e outros microrganismos que formam o microbioma da boca. Muitos deles convivem naturalmente conosco e participam do equilíbrio desse ambiente.
“Existe uma ideia de que quanto menos bactérias tivermos na boca, melhor, e não é assim. Nós convivemos naturalmente com uma enorme diversidade de microrganismos. Alguns enxaguantes antissépticos têm ação bastante ampla e seu uso sem indicação ou por períodos inadequados pode interferir nesse equilíbrio”, explica Fernando Ferraz.
Por isso, enxaguantes com ação terapêutica ou antisséptica devem ser utilizados quando houver indicação profissional e pelo período recomendado pelo dentista. “Dependendo do princípio ativo, o enxaguante pode ser muito útil em determinadas situações. Mas ele não deve virar um hábito simplesmente porque a pessoa acredita que está desinfetando a boca ou porque quer manter o hálito fresco. O dentista deve avaliar quando existe indicação, qual produto utilizar e por quanto tempo”, ressalta.
Balas, sprays e outros produtos que prometem refrescar o hálito também podem apenas mascarar temporariamente o odor. “Se existe halitose recorrente, precisamos descobrir o motivo. Mascarar o cheiro não significa tratar o problema”, alerta o dentista.
Quando o mau hálito precisa ser investigado?
O hálito ao acordar ou depois do consumo de determinados alimentos pode sofrer alterações passageiras. A situação é diferente quando o odor persiste ao longo do dia ou aparece com frequência, apesar de uma boa higiene bucal. Um dos desafios é que nem sempre a própria pessoa percebe que está com mau hálito. Com o tempo, o olfato pode se adaptar ao odor.
“Se alguém próximo chama a atenção para um mau hálito recorrente ou a própria pessoa percebe que o problema persiste, vale procurar o dentista. Não é motivo para constrangimento. Precisamos avaliar a boca, identificar a origem e, a partir daí, indicar o tratamento adequado”, afirma Fernando Ferraz.
Caso as possíveis causas bucais sejam descartadas, o dentista pode orientar a investigação com outros profissionais de saúde. “Não existe uma única solução para o mau hálito porque não existe uma única causa. O primeiro passo é descobrir por que ele está acontecendo. A partir daí conseguimos definir a melhor abordagem”, finaliza.
Por Silmara Sanches
