A inteligência artificial (IA) já entrou na rotina das decisões empresariais e começa a ampliar as responsabilidades de quem está à frente dos negócios. Uma pesquisa da Board Intelligence com 400 conselheiros, CEOs e CFOs, divulgada pelo Financial Times em junho de 2026, mostrou que 84% dos entrevistados no Reino Unido já discutiram até que ponto decisões humanas podem ser delegadas à tecnologia. Entre eles, 49% afirmaram estar avançando da discussão para a implementação.
Para Eduardo Gomes, administrador de empresas, cofundador e presidente do conselho da Board Academy, a transformação não afeta apenas grandes companhias ou integrantes de conselhos de administração. Empreendedores e executivos também precisam compreender melhor os impactos financeiros, jurídicos, reputacionais e estratégicos das tecnologias incorporadas ao negócio.
“Quando a empresa cresce, o número de decisões aumenta e os riscos também. O empreendedor não precisa dominar tecnicamente todos os assuntos, mas precisa saber quais perguntas fazer, quais informações cobrar e quais consequências uma escolha pode gerar para o negócio”, afirma.
A seguir, o especialista explica quatro pontos que passaram a exigir maior atenção de empresários e executivos.
1. Entender onde a inteligência artificial participa das decisões
Adotar ferramentas de IA não significa apenas acelerar tarefas. Quando esses sistemas passam a apoiar processos como contratação, concessão de crédito, definição de preços, análise de clientes ou planejamento financeiro, também podem interferir diretamente em decisões estratégicas.
O Financial Times relatou que a Board Intelligence trabalha com o Lloyds Banking Group no desenvolvimento de um “board bot”, criado para apoiar diretores sem assumir poder de voto. O exemplo mostra que a tecnologia pode participar da análise de informações, mas a responsabilidade pelas escolhas continua humana.
“É preciso perguntar quais dados alimentam aquela ferramenta, como ela chegou a determinada recomendação e quem revisa o resultado antes de uma decisão. A empresa não pode transferir a responsabilidade para o algoritmo”, explica Eduardo Gomes.
2. Tratar reputação como parte da gestão de riscos
Erros relacionados à inteligência artificial, vazamentos de dados, problemas ambientais ou falhas de governança podem ultrapassar rapidamente os limites internos da empresa e chegar a clientes, parceiros, investidores e imprensa.
Por isso, além de prevenir problemas, empresários e executivos precisam definir previamente quem responde pela organização, quais informações podem ser divulgadas e como será feita a comunicação em momentos de crise.
“Quando um problema ganha repercussão, improvisar aumenta o risco. A empresa precisa saber quem toma a decisão, quem fala publicamente e quais informações sustentam aquele posicionamento. Governança também é capacidade de prestar contas com clareza”, destaca.

3. Acompanhar sustentabilidade além do discurso
As exigências relacionadas à sustentabilidade também passaram a interferir de maneira mais direta nas decisões empresariais. O OECD Corporate Governance Factbook 2025, que analisou 52 economias, mostrou que 90% das jurisdições avaliadas exigem divulgação de informações relacionadas ao tema. Em 71%, existem exigências ou recomendações para informar as responsabilidades do conselho sobre essas questões.
No Brasil, companhias abertas passaram, em 2026, a ter divulgação obrigatória de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade com base nos padrões do International Sustainability Standards Board, o ISSB. Mesmo para empresas que não estão submetidas às mesmas regras, o tema pode aparecer na relação com fornecedores, bancos, investidores e grandes clientes. Questões ambientais e sociais, portanto, deixam de ser apenas institucionais e podem afetar contratos, acesso a capital e reputação.
4. Dividir decisões conforme a empresa cresce
Uma das mudanças mais importantes para o empreendedor acontece quando o negócio deixa de caber na capacidade individual de decisão do fundador. Expansão, contratação de executivos, sucessão, entrada em novos mercados e investimentos elevados aumentam a necessidade de diferentes perspectivas antes de escolhas estratégicas.
Nesse estágio, estruturas como conselhos consultivos podem ajudar a organizar o processo decisório e reduzir a concentração das escolhas em uma única pessoa. “O conselho não existe para substituir o empresário. Ele funciona como uma estrutura de apoio para testar hipóteses, identificar riscos e trazer experiências que o fundador nem sempre possui. Quanto maior a empresa, mais caro pode ser decidir sem essas referências”, afirma Eduardo Gomes.
Para ele, observar como lideranças de outros países enfrentam questões semelhantes pode ajudar empresários brasileiros a ampliar a própria capacidade de decisão. “Uma mesma tecnologia ou estratégia pode envolver riscos diferentes de acordo com a legislação, o mercado e a cultura empresarial de cada país. Para quem pretende crescer, internacionalizar ou simplesmente administrar uma empresa mais complexa, ampliar esse repertório passou a fazer parte da preparação para decidir melhor”, conclui.
Por Carolina Lara
