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Hipermobilidade articular: quando a flexibilidade deixa de ser vantagem

A flexibilidade excessiva pode esconder uma condição que impacta a saúde (Imagem: Dragana Gordic | Shutterstock)

Ser muito flexível costuma ser visto como vantagem, seja no esporte, na dança ou em atividades cotidianas. Mas, para uma parcela significativa da população, essa característica pode refletir uma condição clínica chamada síndrome do espectro da hipermobilidade. Estima-se que o problema atinja cerca de 10% dos adultos e aproximadamente 34% de crianças e adolescentes, o que a torna muito mais comum do que se imagina. 

A hipermobilidade articular está relacionada a uma fragilidade do colágeno, proteína essencial que dá sustentação e resistência a diversos tecidos do corpo. O colágeno é uma proteína estrutural importante, com formato em tríplice hélice. Na hipermobilidade, ele está mais frágil e frouxo, não estruturando adequadamente os tecidos.

Sintomas e consequências da hipermobilidade articular

Nem toda pessoa hipermóvel apresenta sintomas. Em alguns casos, a flexibilidade aumentada não traz consequências. Em outros, porém, a condição pode afetar significativamente a saúde e o bem-estar. Entre os sintomas mais comuns, estão dor crônica, instabilidade articular e maior risco de lesões, como entorses e luxações. 

Também podem surgir osteoartrite precoce, perda de massa muscular, redução da densidade óssea e alterações do sistema nervoso autônomo, que levam a tonturas, desmaios e alterações cardiovasculares e gastrointestinais. Nas formas mais graves, a hipermobilidade pode fazer parte de doenças genéticas raras, como a síndrome de Ehlers-Danlos, a síndrome de Marfan e a osteogênese imperfeita. 

Mulher com cabelo liso preso em rabo de cavalo usando blusa de manga longa azul, apoiada em mesa de consultório conferindo exame com médico que tem o cabelo curto, barba e está usando camisa azul de botoes e jaleco e está mostrando resultado de exame em tablet
Consultar um médico é essencial para diagnosticar a hipermobilidade articular corretamente (Imagem: fizkes | Shutterstock)

Diagnóstico da hipermobilidade articular

O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na história do paciente e no exame físico. Queixas como dor crônica desde a infância, entorses frequentes, luxações de repetição, fraturas por fragilidade, fadiga persistente e cefaleias podem levantar suspeitas. 

Um dos principais instrumentos utilizados é o escore de Beighton, que avalia a capacidade de hiperextensão de articulações como cotovelos, joelhos, dedos e coluna. Exames complementares, como densitometria óssea, testes genéticos e avaliação da composição corporal, podem ser solicitados para investigar complicações ou condições associadas. 

A hipermobilidade não afeta apenas o sistema musculoesquelético. Muitos pacientes relatam fadiga intensa, dor corporal difusa, arritmias cardíacas, desmaios, distúrbios gastrointestinais e dificuldade para realizar atividades do dia a dia. Esses sintomas podem comprometer a qualidade de vida e dificultar a rotina escolar, profissional e social. Por isso, o reconhecimento precoce é fundamental para evitar agravamentos e melhorar o prognóstico.  

Tratamento e cuidados no dia a dia 

Embora não exista cura para a fragilidade do colágeno, o tratamento pode controlar os sintomas e melhorar a estabilidade articular. A base é a prática regular de atividade física, especialmente exercícios de fortalecimento muscular, como a musculação, sempre com orientação profissional. 

Outras medidas incluem manter boa hidratação, aumentar a ingestão de eletrólitos, evitar exposição a temperaturas extremas e respeitar os limites do corpo, com pausas regulares para descanso. Dependendo do caso, suplementos e tratamentos específicos podem ser indicados. O acompanhamento deve ser feito por especialistas familiarizados com o tema, como ortopedistas, reumatologistas e médicos fisiatras.  

Diante da alta prevalência, especialmente entre jovens, reconhecer os sinais e buscar avaliação médica é o primeiro passo para garantir qualidade de vida e prevenir complicações futuras.

Por Frederico Barra

Presidente do Comitê de Doenças Osteometabólicas da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (ABOOM/SBOT).

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