Em meio à correria do dia a dia e às demandas da rotina, sentir-se mais cansado em alguns momentos é algo comum. No entanto, quando essa sensação se torna frequente e continua mesmo após períodos adequados de descanso, é importante ficar atento. A fadiga persistente pode afetar a disposição, o desempenho nas atividades diárias e até mesmo tarefas que antes eram realizadas com facilidade. Nesses casos, o sintoma pode estar relacionado a alterações no organismo que podem ser identificadas por meio de exames de sangue.

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“A fadiga é um dos sintomas mais inespecíficos que existem e, por isso mesmo, um dos mais negligenciados. Ela pode ser a primeira manifestação de hipotireoidismo, anemia por deficiência de ferro ou carência de vitamina D ou B12, muito antes de qualquer outro sinal aparecer. O erro mais comum é tratar o sintoma com mais uma xícara de café e adiar a investigação”, explica a endocrinologista Cristina Khawali, do Delboni e Lavoisier, laboratórios da Dasa.

A investigação da fadiga persistente costuma passar por seis exames: hemograma completo, ferro e ferritina, vitamina B12, vitamina D, TSH e glicemia. Juntos, eles cobrem as causas mais frequentes de cansaço crônico na população adulta. Abaixo, entenda como funciona cada um deles.

1. Hemograma: o primeiro exame a descartar anemia

O hemograma completo mostra alterações na quantidade e na qualidade dos glóbulos vermelhos, os responsáveis por transportar oxigênio pelo corpo. Quando a hemoglobina cai, o oxigênio chega em menor quantidade aos tecidos e o corpo reage com cansaço, palidez e falta de fôlego para esforços que antes eram triviais.

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“O hemograma é a porta de entrada da investigação. Ele não aponta a causa da anemia, mas confirma se ela existe e orienta os próximos exames, como ferro e ferritina”, afirma Cristina Khawali.

2. Ferro e ferritina: a causa mais comum de fadiga em mulheres

A deficiência de ferro é a carência nutricional mais prevalente do mundo e atinge principalmente mulheres em idade fértil. Segundo dados do Ministério da Saúde, a prevalência de anemia entre mulheres brasileiras é de aproximadamente 29,4%, e a anemia por deficiência de ferro responde por 90% dos casos de anemia no país.

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A ferritina, exame que mede o estoque de ferro do organismo, costuma ser o dado que falta na investigação. É possível ter reservas de ferro baixas — e já sentir fadiga por isso — antes mesmo de a anemia aparecer no hemograma.

“Peço ferritina sempre com o hemograma. Muita gente já tem o estoque de ferro comprometido antes de desenvolver anemia, e é nessa fase que a fadiga costuma começar”, diz a médica.

3. Vitamina B12: energia na origem, na mitocôndria

A vitamina B12, ou cobalamina, participa diretamente da produção de energia dentro das mitocôndrias, as estruturas das células responsáveis por gerar adenosina trifosfato (ATP). Uma revisão publicada na revista científica Nutrients, intitulada “Vitamins and Minerals for Energy, Fatigue and Cognition: A Narrative Review of the Biochemical and Clinical Evidence“, que reuniu evidências sobre vitaminas, minerais, fadiga e cognição, mostra que deficiências mesmo moderadas de B12, ferro, magnésio e zinco já são suficientes para causar fadiga física e mental em pessoas saudáveis.

Vegetarianos, veganos, idosos e pessoas com alterações na absorção intestinal formam o grupo de maior risco para a deficiência de B12, que também pode causar formigamento, falhas de memória e alterações de humor. “Sem B12 suficiente, a mitocôndria não produz energia direito, e nenhuma noite de sono é capaz de reverter esse tipo de exaustão”, observa Cristina Khawali.

Blocos de madeira formam a palavra "Vit D" sobre um fundo amarelo, acompanhados da ilustração de um sol, representando a vitamina D e sua relação com a exposição solar
Passar pouco tempo ao ar livre e a rotina em ambientes fechados podem contribuir para níveis inadequados de vitamina D (Imagem: Fida Olga | Shutterstock)

4. Vitamina D: deficiência comum mesmo em país tropical

Um estudo coordenado por pesquisadores da Fiocruz Bahia, publicado no Journal of the Endocrine Society, chamado “Epidemiology of Vitamin D (EpiVida)-A Study of Vitamin D Status Among Healthy Adults in Brazil“, avaliou a vitamina D em mais de mil adultos saudáveis de Salvador, Curitiba e São Paulo e encontrou prevalência de 15,3% de deficiência e 50,9% de insuficiência no país, mesmo durante o verão. Em São Paulo, a deficiência isolada chegou a 20,5% dos participantes.

A vitamina D atua em receptores presentes em praticamente todas as células do corpo, incluindo as musculares e neuronais, e participa da regulação do metabolismo energético e do humor. “O Brasil tem sol o ano todo, mas isso não significa que a população tenha vitamina D adequada. Rotina em ambientes fechados, uso de protetor solar e hábitos do dia a dia reduzem muito a produção da vitamina pela pele”, diz a endocrinologista.

5. TSH: quando a tireoide desacelera o corpo todo

O TSH é o hormônio que regula o funcionamento da tireoide, glândula responsável por controlar o metabolismo do corpo. Quando a tireoide produz hormônio de menos, o metabolismo desacelera e a fadiga surge ao lado de ganho de peso, sonolência e raciocínio mais lento.

Segundo o Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o hipotireoidismo predomina em cerca de 10% das mulheres, podendo chegar a 15% na menopausa, contra uma prevalência de aproximadamente 3% entre os homens.

“O hipotireoidismo é uma das causas mais comuns de fadiga em mulheres, e uma das mais fáceis de tratar quando bem diagnosticado. Basta um exame de sangue”, afirma Cristina Khawali.

6. Glicemia: fadiga como sinal metabólico

A glicemia completa o painel de rastreio porque tanto o açúcar alto quanto oscilações bruscas de glicose no sangue cursam com cansaço, sonolência após as refeições e dificuldade de concentração. É um exame simples, de baixo custo, que costuma revelar alterações metabólicas antes de qualquer outro sintoma aparecer.

“A glicemia entra no painel porque o diabetes muitas vezes não dá sintoma nenhum além do cansaço. É um exame barato que pode antecipar um diagnóstico em anos”, diz a médica.

Quando procurar um médico

A recomendação da endocrinologista é simples: fadiga que dura mais de duas ou três semanas, que não melhora com sono adequado e que interfere no trabalho ou na rotina merece investigação, não suplementação por conta própria.

“Suplementar ferro, vitamina D ou B12 sem exame pode mascarar um diagnóstico mais sério, atrasar o tratamento certo e, em alguns casos, causar efeitos adversos. O caminho seguro é sempre realizar uma história clínica do paciente, fazer o exame físico e pedir os exames de acordo com a queixa e antecedentes do paciente. Hoje isso é mais simples do que parece: além de ir ao laboratório, é possível agendar a mesma coleta em casa, sem alterar a rotina”, conclui Cristina Khawali.

Por Bárbara Cheffer