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Excesso de gases: o que pode ser? Veja quando o desconforto deixa de ser normal

A formação de gases pode ser causada por diferentes fatores, desde a alimentação a algumas condições de saúde (Imagem: SewCreamStudio | Shutterstock)

Os gases fazem parte do funcionamento natural do organismo. Eles estão presentes no sistema digestivo de todas as pessoas e, na maior parte das vezes, são eliminados sem causar problemas. No entanto, quando surgem estufamento, distensão abdominal, flatulência frequente ou dor, o desconforto pode interferir na rotina e na qualidade de vida.

Uma parte dos gases é formada quando bactérias da microbiota intestinal fermentam carboidratos que não foram completamente digeridos ou absorvidos no intestino delgado. Outra parte vem do ar que engolimos naturalmente enquanto comemos ou bebemos.

É importante, porém, diferenciar produção de gases de sensação de estufamento. Nem sempre uma pessoa que se sente muito estufada está produzindo gás em excesso. Em algumas situações, o intestino pode apresentar maior sensibilidade ou dificuldade para movimentar normalmente seu conteúdo, fazendo com que volumes considerados normais de gás provoquem desconforto significativo.

A seguir, o Dr. Renato Riccio, gastroenterologista do dr.consulta, explica as principais causas dos gases, os sintomas mais comuns e quando é importante procurar avaliação médica.

Quais são as principais causas dos gases?

A formação de gases depende da alimentação, da microbiota intestinal, da digestão dos alimentos, do funcionamento do intestino e até da quantidade de ar que engolimos durante o dia. Entre as principais situações relacionadas aos sintomas, estão:

1. Carboidratos fermentáveis

Alguns carboidratos presentes naturalmente nos alimentos não são completamente digeridos ou absorvidos no intestino delgado. Ao chegarem ao intestino grosso, são fermentados pela microbiota, processo que produz gases.

Isso pode acontecer após o consumo de alguns tipos de frutas, vegetais, leguminosas, grãos e outros alimentos. Feijão, lentilha, brócolis, couve-flor, alho e cebola, por exemplo, podem aumentar os sintomas em pessoas mais sensíveis. Porém, isso não significa que esses alimentos sejam prejudiciais ou devam ser retirados indiscriminadamente da alimentação. A tolerância varia muito de uma pessoa para outra.

2. Aumento rápido do consumo de fibras

As fibras são importantes para a saúde intestinal e devem fazer parte de uma alimentação equilibrada. Entretanto, aumentar sua quantidade de maneira muito rápida pode intensificar temporariamente a fermentação e a produção de gases. Por isso, quando necessário, o aumento deve ser gradual, permitindo que o intestino se adapte.

3. Alguns adoçantes e produtos sem açúcar

Determinados adoçantes, especialmente os chamados polióis, podem ser pouco absorvidos pelo intestino e aumentar a fermentação. Sorbitol, manitol, xilitol e maltitol são exemplos de adoçantes encontrados em alguns chicletes, balas, doces e outros produtos diet ou sem açúcar.

Garrafa de vidro com leite sendo derramado em fundo azul
A dificuldade para digerir a lactose pode contribuir para o surgimento de gases e distensão abdominal (Imagem: Olga Miltsova | Shutterstock)

4. Intolerância à lactose

Na intolerância à lactose, há dificuldade na digestão do açúcar naturalmente presente no leite e em alguns derivados. A lactose que não é adequadamente digerida chega ao intestino grosso e sofre fermentação pelas bactérias, podendo provocar aumento de gases, distensão abdominal, cólicas e diarreia. A intensidade dos sintomas depende do grau de intolerância e da quantidade de lactose consumida.

5. Refeições muito gordurosas

A gordura não necessariamente aumenta diretamente a produção de gases, mas refeições muito gordurosas podem retardar o esvaziamento do estômago e intensificar a sensação de plenitude, empachamento e estufamento em algumas pessoas. Portanto, a relação entre alimentos gordurosos e desconforto abdominal é mais complexa do que simplesmente “produzir mais gases”.

6. Síndrome do intestino irritável

A síndrome do intestino irritável pode provocar dor abdominal, alterações do ritmo intestinal, estufamento e distensão. Nesses pacientes, os sintomas não decorrem apenas da quantidade de gases. Podem existir alterações na motilidade intestinal e maior sensibilidade do intestino a estímulos que seriam pouco perceptíveis para outras pessoas.

Alguns carboidratos altamente fermentáveis, como oligossacarídeos, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis fermentáveis, conhecidos pela sigla FODMAPs, também podem intensificar os sintomas em determinados pacientes.

Dietas restritivas, entretanto, não devem ser iniciadas de forma indiscriminada. Quando indicadas, precisam ser individualizadas e posteriormente passar por uma fase de reintrodução dos alimentos.

7. Doença celíaca e outras reações relacionadas ao trigo

A doença celíaca também pode causar distensão, gases, diarreia e outros sintomas gastrointestinais. Algumas pessoas relatam sintomas relacionados ao consumo de trigo sem apresentar doença celíaca. Nesses casos, a investigação deve ser individualizada, porque nem sempre o glúten é o componente responsável pelos sintomas; outros carboidratos presentes no trigo, como os frutanos, também podem participar.

É importante não retirar o glúten da alimentação por conta própria antes da investigação de doença celíaca, pois a exclusão pode interferir nos exames utilizados para estabelecer o diagnóstico.

8. Constipação intestinal

A prisão de ventre é uma causa frequente de sensação de estufamento. O trânsito intestinal mais lento e o acúmulo de fezes podem dificultar a movimentação e a eliminação dos gases, provocando distensão e desconforto abdominal. Por isso, em pacientes com gases recorrentes, é importante avaliar também a frequência das evacuações, a consistência das fezes e a dificuldade para evacuar.

Quais são os sintomas comuns do excesso de gases?

Quando o ar fica retido, surgem sintomas facilmente reconhecíveis, cujo desconforto pode variar de pessoa para pessoa, tanto na intensidade quanto na frequência. Entre os sinais mais reportados, estão a dor abdominal em forma de cólica ou pontadas, a sensação de estufamento ou barriga dura, a flatulência frequente, os ruídos intestinais audíveis, além de arrotos e sensação de empachamento após as refeições.

Também é comum que esse mal-estar venha acompanhado de alterações no ritmo intestinal, alternando episódios de diarreia e prisão de ventre em alguns casos. Por fim, quando a dor se manifesta de forma intensa ou vem associada a outros sintomas, convém buscar orientação médica.

Mulher com cabelo longo, liso, preso em rabo de cavalo, usando camiseta verde e bebendo água em copo de vidro na cozinha
Beber bastante água ao longo do dia ajuda a manter o bom funcionamento do intestino (Imagem: New Africa | Shutterstock)

Prevenindo o desconforto causado pelos gases

Quem frequentemente sente o desconforto provocado pelos gases pode adotar práticas que reduzem episódios recorrentes. Não é preciso fazer transformações drásticas na rotina; ajustar alguns detalhes já promove uma grande diferença: 

  • Aumentar gradativamente o consumo de fibras, permitindo adaptação intestinal;
  • Beber bastante água ao longo do dia;
  • Reduzir o consumo de frituras, processados e bebidas alcoólicas;
  • Evitar conversar ou rir muito durante as refeições;
  • Atentar-se para intolerâncias, como à lactose e ao glúten.

Quando buscar orientação médica?

Na maioria das vezes, gases e estufamento são sintomas benignos. Entretanto, uma avaliação médica é recomendada quando o quadro se torna persistente, muda significativamente ou vem acompanhado de outros sinais.

É importante procurar orientação diante de:

  • Dor abdominal intensa ou persistente;
  • Dor recorrente sempre na mesma região;
  • Sangue nas fezes;
  • Fezes negras;
  • Perda de peso sem intenção;
  • Febre sem explicação;
  • Vômitos persistentes;
  • Anemia sem causa definida;
  • Alteração recente e persistente do hábito intestinal;
  • Diarreia ou constipação persistentes;
  • Distensão abdominal progressiva;
  • Sintomas que prejudiquem significativamente a qualidade de vida.

Dor abdominal intensa associada a distensão importante, vômitos e incapacidade de eliminar fezes ou gases exige avaliação médica rápida, pois pode indicar uma obstrução intestinal. Também merece atenção a presença de histórico familiar relevante de câncer colorretal, doença inflamatória intestinal ou doença celíaca.

Gases são comuns, mas os sintomas devem ser interpretados individualmente 

A presença de gases é natural, mas a frequência e a intensidade dos sintomas devem ser observadas. “A produção de gases faz parte do funcionamento normal do organismo. Na maioria das pessoas, pequenas mudanças na forma de comer, na alimentação, no funcionamento intestinal e nos hábitos de vida podem reduzir os sintomas”, ressalta o Dr. Renato Riccio, que acrescenta: “Por isso, quando gases, distensão ou dor se tornam frequentes ou persistentes, o mais importante não é simplesmente eliminar alimentos da dieta, mas investigar o que está provocando o problema”.

Por Hiorran Santos

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