Em um mercado que fala diariamente sobre inteligência artificial, pode parecer improvável que um software lançado em 1985 continue influenciando processos seletivos. Mas os números mostram o contrário. Uma análise da Course Report, com base em mais de 12 milhões de anúncios publicados na plataforma Indeed, identificou que o termo “Microsoft Excel” apareceu em cerca de 531 mil vagas, volume superior ao de linguagens como Python, SQL e outras habilidades técnicas.
Quase quatro décadas após seu lançamento, o Excel não apenas sobreviveu à revolução digital como se consolidou como infraestrutura básica de empregabilidade. Em muitas empresas, saber utilizar a ferramenta deixou de ser diferencial e passou a ser critério eliminatório.
O avanço da inteligência artificial não tornou a planilha obsoleta. Pelo contrário, aumentou a necessidade de profissionais capazes de organizar dados, estruturar análises e interpretar indicadores antes mesmo de automatizá-los. Com base na experiência acumulada, Alfredo Araújo, professor de Excel da Hashtag Treinamentos (empresa brasileira de formação em hard skills), aponta quais são as competências que realmente elevam o nível técnico e ampliam a empregabilidade e o potencial de receber aumentos salariais. Confira:
1. Dominar tabelas dinâmicas para transformar dados em decisão
Saber inserir números é básico. Saber transformar milhares de linhas em relatórios estratégicos é outro patamar. Tabelas dinâmicas permitem resumir dados, cruzar informações por período, região ou produto e gerar análises que apoiam decisões.
Em áreas como finanças, marketing, RH e operações, essa habilidade representa autonomia e capacidade analítica, duas competências diretamente associadas ao crescimento profissional. Segundo Alfredo Araújo, esse é um dos primeiros pontos que separam o usuário intermediário do profissional avançado.
2. Cruzar bases com fórmulas de busca (PROCV, PROCX, ÍNDICE e CORRESP)
Grande parte do trabalho corporativo envolve comparar listas, integrar informações e validar dados. E funções que permitem automatizar esse processo, reduzir erros manuais e ganhar eficiência são extremamente valorizadas pelos empregadores. Profissionais que dominam essas fórmulas deixam de executar tarefas repetitivas e passam a estruturar processos. Este tipo de competência é frequentemente testada em processos seletivos para áreas administrativas, financeiras e analíticas.

3. Estruturar e modelar dados com padrão profissional
Antes de analisar, é preciso organizar. Saber estruturar planilhas como bases de dados, com colunas padronizadas, ausência de células mescladas desnecessárias e organização lógica, é o que permite análises confiáveis e escaláveis. “Muitos erros nas empresas não estão na fórmula, mas na base desorganizada”, explica o especialista da Hashtag. A capacidade de estruturar corretamente os dados está diretamente ligada à confiabilidade e maturidade profissional.
4. Utilizar recursos de automação e Power Query
À medida que o volume de dados cresce, repetir tarefas manualmente deixa de ser viável. Ferramentas como o Power Query, integrado ao Excel, permitem importar, limpar e transformar grandes volumes de dados automaticamente. Pequenas automações economizam tempo, reduzem falhas e aumentam produtividade. Profissionais que dominam esses recursos passam a ser percebidos como otimizadores de processos, um perfil cada vez mais valorizado.
5. Integrar Excel e Inteligência Artificial de forma estratégica
A inteligência artificial já está integrada ao Excel por meio de assistentes como o Copilot, além de ferramentas externas que sugerem fórmulas e análises. Mas a tecnologia não substitui a lógica. “A IA responde ao comando que recebe. Se o profissional não entende o que está pedindo ou como interpretar o resultado, pode apenas automatizar um erro”, afirma Alfredo Araújo.
Em um mercado orientado por dados, saber usar a inteligência artificial como aliada, não como muleta, tornou-se parte do pacote de competências exigidas. Quase 40 anos depois de seu lançamento, o Excel permanece no centro do mundo corporativo. Não por nostalgia, mas por funcionalidade.
A diferença entre manter-se no básico ou avançar na carreira está no nível de domínio da ferramenta e no esforço contínuo de atualização. O velho quarentão pode ter nascido em 1985. Mas continua decidindo vagas em 2026.
Por Lili Luchin