A doação de medula óssea ainda é cercada por dúvidas que podem gerar medo e até afastar possíveis doadores. Muitas delas, porém, surgem da confusão entre a medula óssea e a medula espinhal — estruturas diferentes, com funções distintas.
Mas essa não é a única questão que costuma causar insegurança. Afinal, o procedimento envolve cirurgia? Há dor? E o organismo consegue repor o material doado? A seguir, a hematologista Beatriz Nery, médica do Instituto de Oncologia de Sorocaba (IOS), esclarece os principais mitos. Confira:
1. A medula é retirada da coluna
Mito. A medula espinhal, localizada na coluna vertebral, não é a mesma coisa que a medula óssea. A segunda fica no interior dos ossos e é responsável pela produção das células do sangue. “Quando a doação ocorre por punção direta, ela não é feita na coluna, mas no osso da bacia”, explica Beatriz Nery.
2. Toda doação de medula exige cirurgia
Mito. Existem duas formas de coleta. Em uma delas, as células-tronco são retiradas do sangue periférico por meio de uma máquina de aférese, que separa as células necessárias e devolve o restante ao doador. Na outra, a medula óssea é coletada por punção no osso da bacia, em centro cirúrgico e sob anestesia geral. A escolha do método depende principalmente da doença que será tratada.
3. Doar medula é extremamente doloroso
Mito. A experiência varia de acordo com o método utilizado. Na coleta por aférese, pode haver algum desconforto antes da doação, já que são aplicadas injeções para estimular a migração das células-tronco da medula para o sangue. Já na punção direta, o procedimento é realizado sob anestesia geral. Portanto, o doador não sente dor durante a coleta. Nos dias seguintes, pode haver desconforto no local da punção, que pode ser controlado com analgésicos.
4. Depois da doação, o organismo fica sem medula
Mito. O organismo repõe as células que foram doadas. Segundo a médica, esse processo leva, em média, de 10 a 20 dias. Durante esse período, é comum que o doador apresente algum cansaço, especialmente nos dias seguintes ao procedimento.

5. Quem se cadastra provavelmente será chamado para doar
Mito. A chance de um cadastro resultar em uma doação é baixa. Isso acontece porque a compatibilidade entre doador e receptor depende de características genéticas bastante específicas. “Quando um doador é chamado, significa que, dentre uma enorme variabilidade genética, há compatibilidade com o receptor”, explica a hematologista. Por isso, o cadastro não significa que a pessoa necessariamente terá de realizar a doação. Ao contrário: quanto maior e mais diversificado for o registro de potenciais doadores, maiores são as possibilidades de encontrar alguém compatível para quem precisa do transplante.
6. Qualquer pessoa saudável pode se cadastrar
Mito. Existem critérios de idade e saúde para o cadastro. Em geral, prioriza-se a inclusão de pessoas entre 18 e 35 anos, e o doador permanece ativo nos registros até os 60 anos. Também são investigadas condições que podem interferir na elegibilidade, como histórico pessoal de câncer, algumas doenças autoimunes, infecções crônicas — entre elas tuberculose, doença de Chagas e hepatites — e determinadas condições crônicas, como diabetes, obesidade e insuficiência cardíaca.
7. Transplante de medula serve apenas para tratar câncer
Mito. Embora seja uma modalidade importante no tratamento de algumas doenças malignas do sangue, como leucemias, linfomas, mieloma e neoplasias mielodisplásicas, o transplante também pode ser indicado para algumas doenças benignas. Entre elas, estão determinadas imunodeficiências primárias, anemia falciforme e falências medulares congênitas.
Por Juliana Cuani
